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O Janota nunca entrou na Abidis

Opinião  »  2018-04-20  »  Carlos Tomé

"Quando saiu de casa, o Janota ia com a intenção de finalmente ter coragem de beber um chá"

Quando saiu de casa, o Janota ia com a intenção de finalmente ter coragem de beber um chá e comer um duchese na Abidis, a pastelaria mais fina do burgo. Especialista em navalhas de ponta e mola, limpa-unhas, bilhetes falsos, ilusões cheias e carteiras vazias, as suas relações sociais e profissionais subiam até às subcaves de Alcântara e aos vendedores de vigésimos premiados. O Janota não tinha qualquer relação com requintes nem com infusões nem com bolos de chantilly e a única vez que esteve mais perto de um local requintado foi quando esteve arrecadado no Limoeiro, onde conseguiu desencantar por artes mágicas um limão que escondeu no colchão, mas não lhe serviu de nada a não ser proporcionar-lhe mais agruras à sua penitência, por ter ajudado um idoso a perder o recheio da carteira com três notas de Santo António a cheirarem a mofo.

Dono de um bigode algo desconchavado, o único adereço de valor que exibia, o Janota levantou-se logo de manhã, ainda o galo da vizinha não tinha feito o escarcéu do costume capaz de tirar o padre Maia da janela do Almonda e acordar toda a gente que ainda ia no segundo sono, saiu do Pátio do Janota com a pirisca nos beiços, e meteu logo ali direito ao Mário Alturas onde matou o bicho que andava a dar-lhe uma azáfama dos diabos.
Percorreu o Valverde todo, onde o sol não tinha ordem para aquecer a malta, nem o bairro sabia ainda o que eram crateras de obuses nem conhecia a ruína que mancharia o destino de cada casa. Acabou por beber um traçadinho no Leo para o ajudar a engolir um bocado de casqueiro do dia anterior lambuzado com o cheiro de um carapauzinho de escabeche.

Depois de ser escorraçado do Zé da Ana, não tinha lá entrada reservada, o Janota rumou à Praça onde estacionou no balcão do Rogério preparado para o paleio do costume. Acabado de descer do Clube Torrejano, o clube da elite torrejana e onde os janotas da vila nem podiam cheirar à porta quanto mais entrar, e onde se preparava mais um baile com militares da cavalaria, o Major Pimenta da Gama mais a sua alimária tinham presença assegurada, uma soirée abrilhantada pelo João Espanhol embalando primorosamente os êxitos italianos e liderando o conjunto Níger, vinha o ilustre causídico Adrião Monteiro, acabadinho de regressar de uma diligência judicial no Casino do Estoril que durou toda a noite numa jogatana de lerpa a sério, num carro conduzido pelo Lopes do Tribunal, fresco que nem uma alface a beber imperiais só até meio do copo como sempre fazia.

Isto tem regras. A imperial deve beber-se fresca a sair do barril e com um centímetro e meio de espuma num copo seco e a deitar bolhas de gás pelo líquido acima. Beber uma imperial assim não tinha nada a ver com sorver restos de cerveja mole, desenxabida, sem préstimo que lhe valesse e sem qualquer sabor ou alma. Uma mijeta de gato, imprópria para os gostos mais requintados.

Mas como o gosto do Janota não era muito requintado, tirando claro aquela mania de ainda um dia beber um chá e comer um duchese na Abidis, tanto lhe fazia beber um cálice de bagaço, como um traçadinho, um verrugas de tinto martelado, uma bebida branca qualquer desde que fosse alcoólica, um carrascão do Cartaxo, era tudo igual ao litro. Visto isso e sem pedir autorização ao legítimo proprietário dos líquidos, tomou o ensejo de despejar pela goela abaixo seis meios copos com os restos de cerveja do Adrião Monteiro, o que equivalia a três imperiais.

A arrotar como gente grande, Janota sentou-se num banco da Praça traçou as pernas, puxou da pirisca do costume colou-a aos beiços, inspirou suavemente, fez três argolas de fumo e apreciou a luta da passarada por um lugar na palmeira alheia ao requinte de uma gaiola. Cofiou o bigode e afiou a navalha pelo fio da qual a sua vida sempre correu. O Janota não chegou a entrar na Abidis e nunca bebeu lá um chá nem comeu um duchese. Não estava em condições para isso. E sempre preferiu outros poisos.

 

 

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