• SOCIEDADE-  • CULTURA  • DESPORTO  • OPINIÃO
  Quinta, 17 Outubro 2019    |      Directora: Inês Vidal    |      Estatuto Editorial    |      História do JT
   Pesquisar...
Dom.
 19° / 10°
Céu limpo
Sáb.
 20° / 13°
Céu nublado com chuva fraca
Sex.
 23° / 14°
Céu nublado com chuva fraca
Torres Novas
Hoje  23° / 16°
Céu nublado com aguaceiros e trovoadas
       #Alcanena    #Entroncamento    #Golega    #Barquinha    #Constancia 

O Janota nunca entrou na Abidis

Opinião  »  2018-04-20  »  Carlos Tomé

"Quando saiu de casa, o Janota ia com a intenção de finalmente ter coragem de beber um chá"

Quando saiu de casa, o Janota ia com a intenção de finalmente ter coragem de beber um chá e comer um duchese na Abidis, a pastelaria mais fina do burgo. Especialista em navalhas de ponta e mola, limpa-unhas, bilhetes falsos, ilusões cheias e carteiras vazias, as suas relações sociais e profissionais subiam até às subcaves de Alcântara e aos vendedores de vigésimos premiados. O Janota não tinha qualquer relação com requintes nem com infusões nem com bolos de chantilly e a única vez que esteve mais perto de um local requintado foi quando esteve arrecadado no Limoeiro, onde conseguiu desencantar por artes mágicas um limão que escondeu no colchão, mas não lhe serviu de nada a não ser proporcionar-lhe mais agruras à sua penitência, por ter ajudado um idoso a perder o recheio da carteira com três notas de Santo António a cheirarem a mofo.

Dono de um bigode algo desconchavado, o único adereço de valor que exibia, o Janota levantou-se logo de manhã, ainda o galo da vizinha não tinha feito o escarcéu do costume capaz de tirar o padre Maia da janela do Almonda e acordar toda a gente que ainda ia no segundo sono, saiu do Pátio do Janota com a pirisca nos beiços, e meteu logo ali direito ao Mário Alturas onde matou o bicho que andava a dar-lhe uma azáfama dos diabos.
Percorreu o Valverde todo, onde o sol não tinha ordem para aquecer a malta, nem o bairro sabia ainda o que eram crateras de obuses nem conhecia a ruína que mancharia o destino de cada casa. Acabou por beber um traçadinho no Leo para o ajudar a engolir um bocado de casqueiro do dia anterior lambuzado com o cheiro de um carapauzinho de escabeche.

Depois de ser escorraçado do Zé da Ana, não tinha lá entrada reservada, o Janota rumou à Praça onde estacionou no balcão do Rogério preparado para o paleio do costume. Acabado de descer do Clube Torrejano, o clube da elite torrejana e onde os janotas da vila nem podiam cheirar à porta quanto mais entrar, e onde se preparava mais um baile com militares da cavalaria, o Major Pimenta da Gama mais a sua alimária tinham presença assegurada, uma soirée abrilhantada pelo João Espanhol embalando primorosamente os êxitos italianos e liderando o conjunto Níger, vinha o ilustre causídico Adrião Monteiro, acabadinho de regressar de uma diligência judicial no Casino do Estoril que durou toda a noite numa jogatana de lerpa a sério, num carro conduzido pelo Lopes do Tribunal, fresco que nem uma alface a beber imperiais só até meio do copo como sempre fazia.

Isto tem regras. A imperial deve beber-se fresca a sair do barril e com um centímetro e meio de espuma num copo seco e a deitar bolhas de gás pelo líquido acima. Beber uma imperial assim não tinha nada a ver com sorver restos de cerveja mole, desenxabida, sem préstimo que lhe valesse e sem qualquer sabor ou alma. Uma mijeta de gato, imprópria para os gostos mais requintados.

Mas como o gosto do Janota não era muito requintado, tirando claro aquela mania de ainda um dia beber um chá e comer um duchese na Abidis, tanto lhe fazia beber um cálice de bagaço, como um traçadinho, um verrugas de tinto martelado, uma bebida branca qualquer desde que fosse alcoólica, um carrascão do Cartaxo, era tudo igual ao litro. Visto isso e sem pedir autorização ao legítimo proprietário dos líquidos, tomou o ensejo de despejar pela goela abaixo seis meios copos com os restos de cerveja do Adrião Monteiro, o que equivalia a três imperiais.

A arrotar como gente grande, Janota sentou-se num banco da Praça traçou as pernas, puxou da pirisca do costume colou-a aos beiços, inspirou suavemente, fez três argolas de fumo e apreciou a luta da passarada por um lugar na palmeira alheia ao requinte de uma gaiola. Cofiou o bigode e afiou a navalha pelo fio da qual a sua vida sempre correu. O Janota não chegou a entrar na Abidis e nunca bebeu lá um chá nem comeu um duchese. Não estava em condições para isso. E sempre preferiu outros poisos.

 

 

 Outras notícias - Opinião


Rio petisco »  2019-10-11  »  Hélder Dias

Casal da Treta? »  2019-10-11  »  Hélder Dias

Das eleições, leituras »  2019-10-10  »  Jorge Carreira Maia

1. APESAR DO PRÓPRIO PARTIDO. O PS teve um bom resultado, mas não excelente. Não conseguiu penetrar significativamente na esquerda e alienou, em campanha, uma parte do centro para o PSD.
(ler mais...)


Venham mais vinte cinco, por Inês Vidal »  2019-10-02  »  Inês Vidal

Não deixa de ser curioso o facto de festejarmos 25 anos com a produção de uma revista. Numa altura em que já ninguém lê - muito menos jornais, mesmo os regionais e, dentro destes, menos ainda os que não anunciam nascimentos, casamentos e funerais - produzir ainda mais uma revista tem algo de irónico.
(ler mais...)


Fazer acontecer »  2019-10-02  »  Anabela Santos

A importância de fazer acontecer é, cada vez mais, uma certeza para mim.
Não sei se tem a ver com a idade, a consciência ou a vivência, mas é raro o dia em que não tenha o tal pensamento … “é mesmo importante o que esta gente faz acontecer”

E, como é óbvio, não me refiro aos actos dos nossos governantes.
(ler mais...)


Por este lado é que vamos, por João Carlos Lopes »  2019-10-02  »  João Carlos Lopes

1. Políticas nacionais, aqui e ali mais impostas a nível local por opção dos próprios, devastaram as economias locais das pequenas cidades e vilas do país. O comércio local e grande parte dos serviços foram fustigados e depois engolidos pelos grandes grupos nacionais ou trans-nacionais, remetendo as cidades e vilas portuguesas a pouco mais que cenários onde nada se passa.
(ler mais...)


O prazer de ir a lado nenhum »  2019-09-28  »  Jorge Carreira Maia

O maior prazer daqueles que frequentam a literatura será o da deambulação, visitar lugares desconhecidos e confrontar-se com mundos inesperados, andar por aí sem ir a lado nenhum. Se quisermos uma prova sobre a existência de uma pluralidade de mundos, basta uma palavra: literatura.
(ler mais...)


Descalabros, duelos, metamorfoses e Inferno »  2019-09-07  »  Jorge Carreira Maia

O DESCALABRO DA DIREITA. As sondagens têm vindo a indicar que a direita democrática está à beira de um resultado desastroso, por volta dos 25%, somando velhos e novos partidos.
(ler mais...)


O nome da terra, por João Carlos Lopes »  2019-09-06  »  João Carlos Lopes

É sintomático que, em tempo de eleições, nenhum dos partidos tenha dito uma palavra sobre essa vaca sagrada que é o futebol e sobretudo acerca do estado de guerra em que as claques dos “três grandes” transformam as terras por onde passam.
(ler mais...)


Turismo ou nem por isso »  2019-09-05  »  António Gomes

A época que atravessamos é propicia à reflexão sobre esta actividade económica, o turismo.
O turismo, como toda a gente sabe, atravessa em Portugal um período particularmente estonteante. São as grandes metrópoles as mais beneficiadas com tal actividade, é lá que se encontram as maiores fontes de atracção e é lá que as infraestruturas estão mais adaptadas e melhor respondem às solicitações.
(ler mais...)

 Mais lidas - Opinião (últimos 30 dias)
»  2019-10-02  »  João Carlos Lopes Por este lado é que vamos, por João Carlos Lopes
»  2019-10-02  »  Inês Vidal Venham mais vinte cinco, por Inês Vidal
»  2019-09-28  »  Jorge Carreira Maia O prazer de ir a lado nenhum
»  2019-10-02  »  Anabela Santos Fazer acontecer
»  2019-10-11  »  Hélder Dias Casal da Treta?