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Abril e a necessária desinfestação da democracia

Opinião  »  2018-05-03  »  João Lérias

"Por mim, todos os dias são dias que espero. Dias em que escuto, leio, ouço e estou atento ao que me dizem"

Celebra-se de novo Abril. Celebra-se a liberdade e a democracia.
Relembramos como é habitual, a linda madrugada de Sophia, a “Grândola” do eterno Zeca e as palavras fortes e sempre bruscas de Ary do Santos. Abril é de facto fantástico, representa um fim e ao mesmo tempo o início de um novo tempo, a que aprendemos a chamar de liberdade e democracia.

Nos corredores do poder, engalanaram-se as salas e salões, voltaram a ver-se muitos cravos na lapela, voltaram a ouvir-se vivas à liberdade e à democracia. Aplaudiram-se os protagonistas, construíram-se novos discursos, adaptados às novas realidades.
É verdade que os últimos tempos revelaram-nos, entre outras coisas, muitas curiosidades, nomeadamente de atos de corrupção. Corrupção essa que, a ser verdade, a justiça tem a obrigação de julgar impiedosamente, porque ela é fator de destruição de qualquer democracia.

Perguntamo-nos perante o que vemos e assistimos, como foi possível, em certos momentos, alguns, em abril, percorrerem os tais salões engalanados, colocarem o cravo na lapela e defenderem a democracia, quando no fundo com determinados atos o que demonstraram foi precisamente o contrário de tudo aquilo em que acreditávamos ou nos queriam fazer acreditar.

Por mim, todos os dias são dias que espero. Dias em que escuto, leio, ouço e estou atento ao que me dizem, dias em que penso, especulo, sofro, temo, admiro e amo. Cada dia é afinal uma dádiva, uma oferta, um verdadeiro ganho. É por isso que todos os dias, eu próprio, sou a soma de mais um e a subtração de menos um. Ganho o que o dia me dá. Perco o que o dia me retira, e muitas vezes o dia retira-me muita esperança e liberdade.

Pergunto-me muitas vezes se o dia me dará esperança, quando me confronto com o nosso sistema partidocrático que forja políticos no caldo das conveniências, dos compadrios, da intriga, do afilhadismo, à margem de um verdadeiro e próprio escrutínio popular que sufrague as pessoas.

Pergunto-me muitas vezes para que servem à democracia, os políticos de carreira, os tais homens e mulheres que se cruzam nos salões bem adornados, sem passado profissional conhecido e publicamente reconhecido, que abundam e com fartura nas estruturas partidárias, vindos, salvo algumas exceções, sabe-se lá donde, com que méritos ou qualidades, propósitos ou capacidades morais.

Para que a liberdade e a democracia sobrevivam, e para que eu próprio continue a acreditar que o dia ainda me pode dar mais, do que retirar. Torna-se urgente e necessário, isso sim, uma desinfestação profunda da democracia lusitana. Quem a fará, não sei, mas que é precisa é, pois só dessa forma poderemos continuar a celebrar abril!

 

 

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