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São Pedro, o Ferreira, pesando as almas - joão carlos lopes

Opinião  »  2020-06-19  »  João Carlos Lopes

"Pedro Ferreira só pode ser um ungido. Há-de merecer, brevemente, uma bênção da Congregação para a Doutrina da Fé"

Na reunião camarária do passado dia 2 de Junho, a respeito de mais uma trapalhada relacionada com o apoio unilateral da maioria socialista ao jornal “O Almonda”, uma vereadora dizia que se sentia enganada e mais disse que o PS, que tinha votado a favor, também devia sentir-se enganado. Eis a resposta do presidente da câmara, que fica para os anais da administração autárquica em Portugal:

“Eu não me sinto enganado, porque independentemente de uma explicação qualquer, tudo o que fosse possível na minha mão e dentro da legalidade para poder ajudar “o Almonda”, que faz parte da nossa história, eu faria sempre. Mas eu agora quero dizer, e ainda bem que fica gravado: jornais, que tenham alma como as pessoas. Há almas boas e almas más. E há almas que já não vale a pena a gente lutar por elas, porque morrem naturalmente, pela forma como trabalham. Portanto, eu não posso ajudar, digo convictamente, ajudar alguma comunicação social que no meu entender não está a prestar um bom serviço à população”.

Assim de repente, lê-se e não se acredita. Depois faz-se um esforço para nos convencermos que foi mesmo verdade, que existe uma voz concreta que disse uma coisa destas e essa voz é, escandalosamente, a de um presidente de uma câmara deste país no século XXI.

Não interessa que jornais com 30 ou 40 anos, que não são propriamente dois dias, também tenham história, como tem um com 100 anos. Não interessa que a administração da coisa pública se paute por leis, regulamentos e normas, e ainda por princípios de igualdade e equidade. A lei, aqui, é “ajudar”, e ajudar pelo “entender” daquilo que lhe vai na alma.

Não interessa que aquilo que é igual seja visto de modo global e não particular. Nada disso interessa. A tudo isto, e ao património doutrinário que rege a administração pública, sobrepõe-se a vontade do autarca iluminado, que decide perante aquilo que ele acha que é o interesse das populações, fazendo uso de uma prerrogativa de características divinas, o “seu entender”, que divide os pobres de Cristo em almas boas e almas más, distinção que só ele, Pedro Ferreira, consegue destrinçar por entre o ruído do mundo e o caos que caracteriza o nosso tempo.

Um filósofo, no fundo, mas visionário porque vê aquilo que é mais invisível, as almas, e como em Mateus se explica por parábola, ele executa, e garbosamente põe o trigo para um lado e o joio para outro. Trigo para aqui, joio para ali. Patatá, patati. Assim.

Falando em concreto, qualquer coisa de concreto, vejamos em que reside o ódio de Pedro Ferreira e associados, e alegres camarilhas autárquicas antecedentes, ao JORNAL TORREJANO, e que se pode organizar em três ordens de razões:

1 - O JT sempre deu voz à oposição, recusando-se ser o megafone da narrativa oficial (para isso existe o boletim municipal e os outros mensageiros). Durante anos o JT foi “comunista”, porque dava voz à oposição aguerrida do vereador Carlos Tomé. Depois, por dar voz a outra vereadora, também activa na sua função, passou a ser “o jornal do Bloco”. Isso provoca um ódio indisfarçável a todos os que acham que têm a verdade aprisionada e que o voto popular lhes dá um alvará para todos os desmandos e maningâncias. Não dá. Mas não abdicamos. Como temos feito sempre, e como fazemos neste número, damos voz à oposição nos assuntos que são importantes. Isso deixa a maioria num estado de ódio e ressabiamento aliás nunca escondido e sempre publicamente demonstrado.

2 - Depois, o JT nunca se negou ao seu papel de escrutínio do poder, denunciando tropelias e aldrabices da maioria que gere o concelho há 30 anos. Coube-nos denunciar mentiras pré-eleitorais que mancham a reputação de quem as profere (célebres, as trapaças dos Shiva-Som, dos Boquilogo Golf, dos hoteis empresariais da Zibreira com 200 quartos, do projecto de mata municipal em terrenos privados, etc, etc); estivemos sempre atentos às traficâncias de alterações pontuais do PDM, que já dura há décadas, para acomodar “compromissos”; denunciamos empreendimentos e projectos contra o interesse das populações, como a recente mega-pocilga com 8 mil porcos para próximo das povoações de Alcorochel e Brogueira e nas barbas de uma área protegida; noticiamos aquilo que a maioria omite e nunca queria divulgar; divulgamos actos e decisões que afrontam a ética e a legalidade, sempre em benefício de uns e por desrespeito à democracia e à maioria da população.

3 - Finalmente, e isto é que os dana e fere de morte, nunca em quase 27 anos tiveram hipóteses, e hão-de andar leves para a terem, de desmentir notícias, factos, publicados neste jornal. Isto é que os moi, aqui é que a porca torce o rabo, aqui é que ela empeça. O suplemento do ódio vem daqui. Nunca conseguiram e dificilmente conseguirão dizer “isto é mentira”, a respeito de qualquer matéria factual publicada neste jornal.

Dito isto, diremos ainda, para conforto do iluminado autarca, que este jornal não tem um cêntimo de dívidas, tem resultados positivos e nunca precisou do PAEL e do socorro do Estado para se safar da insolvência e da pré banca rota. Não tem um serviço da dívida de centenas de milhares de euros nem recebe metade das suas receitas do estado para pagar ordenados. Pode pôr-se em sentido, por conseguinte.

Por isso, o decreto da morte do JT (por via da decadência da sua desgraçada alma) que Pedro Ferreira vem agora, mais uma vez, actualizar, e que a maioria socialista grita desesperadamente há cerca de 20 anos, numa procissão de boicotes, de “avisos” aos que escrevem e anunciam, e de lentilhas no prato aos que deixaram de escrever e anunciar, esse decreto é patético.

Numa democracia a sério, autarca que se dá ares assim, só tinha um destino. Mas Pedro Ferreira não vai lá. De qualquer modo, azar dele: a morte do JT é uma notícia levemente exagerada. O pasquim, a acabar, será por vontade própria e não pelas razões que encheriam de júbilo a desvairada comandita. Uma dor de alma, portanto.

É preciso uma latosa do tamanho de um comboio (de mercadorias), aliás, para agoirar a sorte e a morte de um jornal que nunca lhe pediu favores e não deve nada a ninguém, e quando acaba de decidir ajudas públicas a outro jornal que publicamente as pede como o pão para a boca (isto nas palavras litúrgicas então proferidas) e continua a subvencionar, sem dar cavaco, outras pagelas e trombetas em alegre confraria.

O nosso homem parece ter-se inspirado no concílio de Elvira, que como se sabe, produziu abundante doutrina sobre excomunhões e heresias. Ou nos gloriosos cabrais, que levaram para o céu milhões de pobres índios, tão leves eram as suas almas, e espetavam à espadeirada, para arrepio da própria soldadesca, as orientais barrigas de samurais espantados. Mas ele vai mais além.

Bolsonaro a fustigar a TV Globo é um aprendiz ao pé de Pedro Ferreira. Este vai mais longe, excomunga, condena logo, expurga o mundo das almas atormentadas, qual São Miguel: empunha a espada e com a balança a tiracolo, pesa as almas e decide, no seu entender, quem vai para o céu, quem fica no purgatório, ou quem vai amargá-las para todo o sempre no fogo do inferno.

Qual Torquemada do médio tejo, Pedro Ferreira produz ditames e decretos ad hominem como quem atiçava fogueiras e queimava hereges, para conforto da santa madre.

Como na reacção católica à República ímpia, laica e desavergonhada, desenterra, passados cem anos, a “boa imprensa”, governando contra a república das leis e do direito, usando o seu entender e o juízo sobre as almas como letra e lei de um mando conferido pelo Altíssimo.

O santo autarca não se contenta com a descentralização de competências na área dos fogos florestais ou da protecção civil. Recebeu, através de diploma especial do Espírito Santo, directamente da administração central dos etéreos céus, por vontade expressa de Nosso Senhor, competências delegadas que só ele pode realizar, porque sondar o interior das almas não é para qualquer um.

Pedro Ferreira só pode ser um ungido. Há-de merecer, brevemente, uma bênção da Congregação para a Doutrina da Fé, saiba Ratzinger do alcance que o “entender” do edil atinge quando se trata de realizar competências, não dos fogos florestais, mas dos fogos do inferno, destino das almas desafortunadas.

Ele é o aiatola que renova a fatwa, na forma extrema de sentença de morte das almas penadas, mas respeitando a formalidade de ficar em acta, para memória futura e estudo dos que um dia investigarem a introdução do conceito de alma na decisão política da administração pública em Portugal. Lavre-se em acta, então.

João Carlos Lopes

NR – o título desta crónica é inspirado, obviamente, nas referências bíblicas e posteriores alegorias de “São Miguel pesando as almas”. No texto da edição em papel, um lapso de escrita transformou São Miguel em São Gabriel...

 

 

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