• SOCIEDADE-  • CULTURA  • DESPORTO  • OPINIÃO
Directora: Inês Vidal   |     Segunda, 24 de Setembro de 2018
Pesquisar...
Qui.
 33° / 22°
Períodos nublados
Qua.
 34° / 19°
Céu limpo
Ter.
 36° / 22°
Céu limpo
Torres Novas
Hoje  38° / 18°
Céu limpo
       #Alcanena    #Entroncamento    #Golega    #Barquinha    #Constancia 

Um sobreiro em Águas de Moura, ondas na Nazaré e eucaliptos em Riachos

Opinião  »  2018-04-04  »  Carlos Tomé

"Está bem, o sobreiro até pode ter o seu interesse, agora que foi eleito como árvore europeia do ano, mas nada que se compare ao enfurecido mar nazareno"

Sempre me arrependi de não ter aceitado o convite, faz agora 40 anos, do Victor Silvino para irmos à Nazaré na sua Vespa ver uma onda enorme que estava a chamar curiosos. Mas na altura a imagem que me apareceu de imediato à frente dos olhos, não foi a do mar em polvorosa, foi a do pendura da motorizada a esbardalhar-se todo pela serra abaixo quando o mais célebre chofer da biblioteca itinerante da Gulbenkian fizesse as curvas de Porto de Mós mais direito do que um fuso, e isso deu razão à nega.

Mas nessa altura se ao Victor lhe tivesse passado um vaipe pela cabeça e em vez de meter a Vespa direito ao litoral entortasse o guiador para o lado de Águas de Moura para ver um sobreiro assobiador também podia valer a pena. A viagem, garanto-vos, não seria menos espectacular.

É certo que o sobreiro está ali parado, parece que não tem vida e não serve para grande coisa a não ser dar cortiça para o Américo Amorim fazer umas rolhas de nove em nove anos, e poder ser transformado em cavacas para aquecer os invernos mais frios. Para além disso parece que também serve de poiso à passarada que por ali se aloja para passar a noite como em hotel de cinco estrelas e treinar o assobio como fazia o Damásio que andava atrelado a um carro de mão com rodas cheio de bonicos. E à sombra do sobreiro houve muitos acampamentos e casamentos de ciganos, coisa sem grande registo histórico dada a itinerância desta malta que nunca está bem em lado nenhum e até parece que tem fogo no cu.

As letras nómadas, que no fundo são todas as letras quando se mexem à procura de outros sentidos e de outros dizeres, estão escritas para sempre nesta árvore, porque a vida toda ali fica marcada como quem escreve a golpes de navalha o seu nome na casca. Foram os ciganos quem primeiro descobriu a verdadeira importância do sobreiro, convivendo diariamente com ele, fazendo dele um amigo e uma companhia, à sua sombra assentando arraiais.

Está bem, o sobreiro até pode ter o seu interesse, agora que foi eleito como árvore europeia do ano, mas nada que se compare ao enfurecido mar nazareno a dizer palavrões e a deitar espuma pela boca tentando seduzir uns turistas de barriga super bock, pondo-os à procura de chambres na vila piscatória. A fúria era tanta que quase atingia a rocha onde o cavalo do D. Fuas deixou a ferradura quando se preparava para empinar do precipício abaixo o cavaleiro armado em bom, não fosse aparecer o milagre do sítio. O fenómeno foi tão badalado que nem o MacNamara, se fosse vivo na altura, conseguiria cavalgar aquela onda.

Mas para além disso, o problema é que o sobreiro já tem uma idade um bocado avançada, 234 anos é muito tempo, e não será exagero adivinhar-se que o assobiador viu muita coisa, assistiu à história a criar-se sob a sua copa, deu razão e ousadia aos artistas que lhe sacaram a casca sem o ferirem, conviveu com muita gente de muitas origens e de outros afazeres, albergou muitas histórias de vida, deu alma a algumas e serviu de cadafalso a outras que escolheram o caminho suicida, que o tempo tudo traz e tudo leva.

As grandes árvores sempre tiveram grandes amigos. Quando a Maria dos Peixinhos deu aulas práticas de educação sexual, o Manuel Couve fabricou esteiras e o Martinho Ginete ia arrear as calças no sopé dos eucaliptos ou passava tardes inteiras com os amigos na cavaqueira à sua sombra, estavam longe de pensar que nestas árvores ficava marcado um pedaço das suas vidas e da história de Riachos. Por vezes a história das árvores confunde-se com a vida de quem as tem como amigas.

 

 

 Outras notícias - Opinião


O quarto milagre de Fátima »  2018-09-13  »  Jorge Carreira Maia

O começo do ano lectivo é marcado pela generalização de uma nova reforma do sistema educativo. A ideia que está na base de mais uma aventura na educação portuguesa prende-se com a convicção da actual equipa do Ministério da Educação de que o trabalho realizado pelo professorado está globalmente desadequado às exigências do século XXI.
(ler mais...)


Poesia nos posters »  2018-09-12  »  José Mota Pereira

Eu não entendia. Nem poderia entender (aos seis, sete, oito anos de idade) o alcance daquelas palavras. Mas havia naqueles dois posters um magnetismo, uma espécie de magia que me prendiam às palavras que deles saltavam para os meus olhos.
(ler mais...)


Rentrée »  2018-09-12  »  Anabela Santos

O mês de Agosto já passou, acabaram as férias, o verão vai deixar-nos e aproxima-se o Outono.

Chegou Setembro, o mês do(s) recomeço(s). Na minha opinião, seria a altura de abrirmos uma garrafa de champanhe, de fazer um brinde à nova época, um brinde à vida.
(ler mais...)


Ansiedade: uma doença da sociedade moderna »  2018-09-12  »  Juvenal Silva

O que é a ansiedade?

A ansiedade é uma emoção causada por uma ameaça observada ou experimentada e, que o organismo utiliza como mecanismo para reagir de forma saudável às pressões da vida ou até a situações de perigo.
(ler mais...)


Olha, a gaivota! Olha a gaivota! »  2018-09-01  »  Maria Augusta Torcato

 As ideias estão ainda de férias. Se a palavra não fosse tão feia, eu até a utilizaria mais – procrastinação. Meu Deus, que palavra horrível para dizer apenas que se anda com  preguiça, sem vontade, a adiar o que tem de ser feito.
(ler mais...)


O passado e a tradição »  2018-08-30  »  Jorge Carreira Maia

Graças a um artigo de António Guerreiro, no Público, descobri dois versos extraordinários do realizador e poeta italiano Pier Paolo Pasolini. Deste, conheço alguns filmes, mas nunca li a sua poesia.
(ler mais...)


Ética »  2018-08-29  »  Inês Vidal

As novas tecnologias e a Internet - admirável mundo este que nos leva ao outro lado do globo num segundo - vieram mudar os nossos dias, rotinas, até o tom e a forma das nossas conversas. “O meio é a mensagem”, já anunciavam há muito alguns teóricos destas coisas da comunicação.
(ler mais...)


Agosto »  2018-08-29  »  José Mota Pereira

O mês de Agosto vai-se despedindo, a pouco e pouco, nestes dias e noites quentes.

Não há novidade nisto: Agosto ainda é o mês em que, por todo o país, se toma conta dos largos e se dança, canta, convive nas festas populares, trazendo vida aos territórios a que chamamos aldeias e de onde, se há notícias ao longo do ano, é para contar do abandono e da desertificação.
(ler mais...)


Uso e abuso de substancias químicas: a dependência de drogas e álcool »  2018-08-29  »  Juvenal Silva

O uso e abuso de substâncias químicas caracteriza-se por uma dependência, tanto psicológica como física, de drogas, incluindo-se medicamentos com receita médica e álcool.

O que é uma dependência química? Acontece quando um indivíduo necessita de uma droga para funcionar.
(ler mais...)


Protectorado »  2018-08-16  »  Jorge Carreira Maia

O Verão teve, até agora, dois acontecimentos políticos maiores. O caso Robles e o fogo de Monchique. Maiores para os mass media e para uma certa direita social. Por direita social não me refiro aos partidos políticos de direita, os quais não estiveram particularmente mal em ambos os casos, mas àqueles que se manifestam nas redes sociais, nas caixas de comentários dos jornais online, que surgem como espontâneos nos directos das televisões, isto é, a uma militância informe, mas muito activa, que vive despeitada pelos seus não estarem no governo.
(ler mais...)

 Mais lidas - Opinião (últimos 10 dias)