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Um sobreiro em Águas de Moura, ondas na Nazaré e eucaliptos em Riachos

Opinião  »  2018-04-04  »  Carlos Tomé

"Está bem, o sobreiro até pode ter o seu interesse, agora que foi eleito como árvore europeia do ano, mas nada que se compare ao enfurecido mar nazareno"

Sempre me arrependi de não ter aceitado o convite, faz agora 40 anos, do Victor Silvino para irmos à Nazaré na sua Vespa ver uma onda enorme que estava a chamar curiosos. Mas na altura a imagem que me apareceu de imediato à frente dos olhos, não foi a do mar em polvorosa, foi a do pendura da motorizada a esbardalhar-se todo pela serra abaixo quando o mais célebre chofer da biblioteca itinerante da Gulbenkian fizesse as curvas de Porto de Mós mais direito do que um fuso, e isso deu razão à nega.

Mas nessa altura se ao Victor lhe tivesse passado um vaipe pela cabeça e em vez de meter a Vespa direito ao litoral entortasse o guiador para o lado de Águas de Moura para ver um sobreiro assobiador também podia valer a pena. A viagem, garanto-vos, não seria menos espectacular.

É certo que o sobreiro está ali parado, parece que não tem vida e não serve para grande coisa a não ser dar cortiça para o Américo Amorim fazer umas rolhas de nove em nove anos, e poder ser transformado em cavacas para aquecer os invernos mais frios. Para além disso parece que também serve de poiso à passarada que por ali se aloja para passar a noite como em hotel de cinco estrelas e treinar o assobio como fazia o Damásio que andava atrelado a um carro de mão com rodas cheio de bonicos. E à sombra do sobreiro houve muitos acampamentos e casamentos de ciganos, coisa sem grande registo histórico dada a itinerância desta malta que nunca está bem em lado nenhum e até parece que tem fogo no cu.

As letras nómadas, que no fundo são todas as letras quando se mexem à procura de outros sentidos e de outros dizeres, estão escritas para sempre nesta árvore, porque a vida toda ali fica marcada como quem escreve a golpes de navalha o seu nome na casca. Foram os ciganos quem primeiro descobriu a verdadeira importância do sobreiro, convivendo diariamente com ele, fazendo dele um amigo e uma companhia, à sua sombra assentando arraiais.

Está bem, o sobreiro até pode ter o seu interesse, agora que foi eleito como árvore europeia do ano, mas nada que se compare ao enfurecido mar nazareno a dizer palavrões e a deitar espuma pela boca tentando seduzir uns turistas de barriga super bock, pondo-os à procura de chambres na vila piscatória. A fúria era tanta que quase atingia a rocha onde o cavalo do D. Fuas deixou a ferradura quando se preparava para empinar do precipício abaixo o cavaleiro armado em bom, não fosse aparecer o milagre do sítio. O fenómeno foi tão badalado que nem o MacNamara, se fosse vivo na altura, conseguiria cavalgar aquela onda.

Mas para além disso, o problema é que o sobreiro já tem uma idade um bocado avançada, 234 anos é muito tempo, e não será exagero adivinhar-se que o assobiador viu muita coisa, assistiu à história a criar-se sob a sua copa, deu razão e ousadia aos artistas que lhe sacaram a casca sem o ferirem, conviveu com muita gente de muitas origens e de outros afazeres, albergou muitas histórias de vida, deu alma a algumas e serviu de cadafalso a outras que escolheram o caminho suicida, que o tempo tudo traz e tudo leva.

As grandes árvores sempre tiveram grandes amigos. Quando a Maria dos Peixinhos deu aulas práticas de educação sexual, o Manuel Couve fabricou esteiras e o Martinho Ginete ia arrear as calças no sopé dos eucaliptos ou passava tardes inteiras com os amigos na cavaqueira à sua sombra, estavam longe de pensar que nestas árvores ficava marcado um pedaço das suas vidas e da história de Riachos. Por vezes a história das árvores confunde-se com a vida de quem as tem como amigas.

 

 

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