• SOCIEDADE-  • CULTURA  • DESPORTO  • OPINIÃO
  Quinta, 02 Abril 2020    |      Directora: Inês Vidal    |      Estatuto Editorial    |      História do JT
   Pesquisar...
Dom.
 19° / 12°
Céu nublado com chuva moderada
Sáb.
 18° / 9°
Céu nublado com chuva fraca
Sex.
 21° / 5°
Períodos nublados
Torres Novas
Hoje  19° / 6°
Períodos nublados com chuva fraca
       #Alcanena    #Entroncamento    #Golega    #Barquinha    #Constancia 

Hipocrisia colectiva, por Inês Vidal

Opinião  »  2020-01-30  »  Inês Vidal

"São fórmulas que matam e moem tal como o vinho, que continua a fazer vítimas em pleno século XXI."

Este ano há festa da Benção do Gado, em Riachos. Uma festa de raízes, uma homenagem às origens do povo riachense. Pelo menos é essa a sua intenção primeira. Recordo, a propósito, quando numa das vezes em que percorri as ruas engalanadas da vila por altura das festas, uma das coisas que me chamou a atenção nos quadros populares que recriam essas tais raízes riachenses, foi o facto de tão natural e repetidamente se recordar a personagem do homem embriagado, copo na mão, garrafão aos pés. Chamou-me a atenção não só por entender que as origens dos riacheses vão certamente muito além disso, mas também pela naturalidade como algo como a embriaguez, é erguida bandeira de um povo.

Utilizo um quadro riachense, porque foi aí que primeiramente me debrucei sobre este assunto, mas serve apenas como exemplo. A verdade é que esta aceitação do álcool como parte integrante do nosso dia-a-dia, acontece um pouco por todo o lado. E, admito, é facto que não me deixa nada confortável. Números elevados da violência, acidentes e incidentes, acontecem exactamente na sequência de quadros de alcoolismo. E esta é, estranhamente, uma realidade que aceitamos, enaltecemos e, como já se viu, tornamos bandeira de um país.

Um destes dias passeava pela baixa do Porto, mais propriamente pela Rua das Flores, rodeada pelos muitos turistas que actualmente invadem a Invicta. Entre caixas de electricidade divertidamente decoradas e mil e uma lojas que homenageiam as origens portuguesas, onde não faltam referências a sardinhas, galos de Barcelos e azulejos, entrei numa loja de vinhos. Uma das muitas que se multiplica não só pelo Porto, como por todo o país. Uma moda que toma o nome de winebar, uma espécie de taberna, mas em bom, com copos de balão no lugar dos famosos malhões do Zé da Ana.

Entrei na loja e além de paredes repletas de vinhos de todas as castas e regiões, podia provar-se vinho a copo. Bastava para isso, imagine-se, um cartão pré-pago que nos dava acesso ao vinho exposto para prova. Era a única portuguesa, obviamente. De resto, apenas turistas, que achavam normal servirem-se copos de vinho numa espécie de multibanco refrigerado, bastando para isso um cartão pré-pago. Um cenário ligeiramente comercial, para turista ver, com um pé a fugir para os afamados coffeshop holandeses, na medida em que exploram o lado comercial do lazer, mas sem metade da graça. Eu, pelo menos, não achei metade da graça.

Enquanto por ali estive, não pude deixar de ser invadida pela lembrança do boneco de garrafão aos pés, que assumimos como nossa memória colectiva e de como o consumo excessivo de álcool nos mata, de como as mulheres de gerações anteriores, e muitas nos dias que correm, sofreram e sofrem às mãos do vinho, de como continuamos a morrer na estrada graças a ele, e de como esta geração continua a achar tudo isso normal e a divinizar o vinho. Sempre, desde que em copos balão.

E entre divagações próprias de quem pensa ou de quem está em lojas de vinho, não percebi bem, questionei-me sobre se a nossa hipocrisia, também ela colectiva, nos permitiria aceitar e ser coniventes com um espaço destes, mas que albergasse outras fontes de diversão - ou de problemas - que não o vinho? Uma espécie de Eurodisney para adultos, uma montanha russa na ponta de um charro, de um risco ou de um caldo. Um espaço onde nos sentássemos e fossemos convidados a experimentar, desde que com cartão pré-pago claro, numa espécie de viagem cultural quase, tudo o que de melhor há a oferecer nas produções dos vários pontos do mundo.

Acredito que não, mas perguntou-me porquê. São fórmulas que matam e moem tal como o vinho, que continua a fazer vítimas em pleno século XXI. É a hipocrisia colectiva, social, aquela que nos faz continuar a olhar de lado e a ostracizar quem troca seringas na farmácia, e a aplaudir o homem do garrafão aos pés, ainda que na sua versão moderna de engravatado de dia, embriagado à noite, que vê justificadas as suas atitudes num copo de vinho socialmente aceite, bandeira orgulhosa de uma nação.

 

 

 Outras notícias - Opinião


Três efeitos virais »  2020-03-20  »  Jorge Carreira Maia

POLÍTICA E ECONOMIA. De um momento para o outro todo um modo de compreender a política se alterou. Por influência das duas principais constelações ideológicas nascidas do Iluminismo – o liberalismo e o marxismo – a política tinha, paulatinamente, sucumbido aos imperativos da economia.
(ler mais...)


Extraordinário »  2020-03-19  »  Rui Anastácio

A Henriqueta tem 14 anos, é minha filha e teve a delicadeza de me informar que quem diz extraordinário são os velhos. Claro está, que eu do alto dos meus 49 anos não me considero um velho e vivo sobretudo a pensar no futuro, frequentemente não vivendo o presente e sendo por isso extraordinariamente estúpido.
(ler mais...)


Carso, por Rui Anastácio »  2020-03-09  »  Rui Anastácio

Ao que parece, a CIM do Médio Tejo iniciou a colocação de sinalização da “Grande Rota do Carso”. Hoje, as grandes rotas podem ser um importante instrumento de desenvolvimento turístico. Em Portugal, temos o extraordinário exemplo da Rota Vicentina, que leva todos os anos muitos milhares de turistas, de todo o mundo, ao sudoeste alentejano e à costa vicentina.
(ler mais...)


Outra vez as estradas »  2020-03-07  »  António Gomes

A Assembleia Municipal de Torres Novas foi chamada a pronunciar-se sobre o estado das estradas do concelho e sobre uma solução apresentada pelo Bloco.
A proposta recomendava o levantamento rigoroso da dimensão da rede viária a necessitar de intervenção (o que existe é um levantamento feito pelas juntas de freguesia que nos diz que existem 126 estradas e ruas em mau estado), a abertura de um concurso público para empreitada a realizar nos próximos 3 anos e com um valor de 5 milhões de euros.
(ler mais...)


A SAGA / FUGA DE FRANCISCO DUARTE MENDES »  2020-03-07  »  José Alves Pereira

O título deste texto é uma adaptação, a partir de uma obra de ficção, do escritor galego Gonzalo Torrente Ballester, A Saga e Fuga de J.B. Como veremos, seria difícil encontrar um título que melhor correspondesse aos factos aqui reportados, sendo que são já poucos os viventes que de tal guardam memória.
(ler mais...)


Fabrióleo »  2020-03-07  »  Acácio Gouveia

As notícias sobre processos intentados pela Fabrióleo contra Pedro Triguinho merecem algumas reflexões. Pedro Triguinho, recorde-se, havia acusado a Fabrióleo de ser causadora de cancros na população vítima da poluição produzida por aquela empresa.
(ler mais...)


Um vírus abre uma fresta »  2020-03-06  »  Jorge Carreira Maia

Nos acontecimentos ligados à emergência do coronavírus, podemos dizer que há duas realidades ligadas acidentalmente. A primeira diz respeito à eventual pandemia, à facilidade do contágio que proporciona um mundo aberto e no qual toda gente viaja para todo o lado.
(ler mais...)


Terminal 3 em Tancos? Sim, era mesmo isto. »  2020-03-06  »  Jorge Salgado Simões

Portugal precisa de uma solução aeroportuária para Lisboa. O aeroporto Humberto Delgado está saturado, a sofrer obras que vão permitir aumentar ainda mais o tráfego aéreo na capital e que dão muito jeito à concessionária da ANA, mas que não resolvem o problema de base: aquela localização, no centro da cidade, não tem futuro, não tem capacidade, não é aceitável do ponto de vista da segurança ou da qualidade de vida dos milhares de residentes próximos.
(ler mais...)


Retratos, por Inês Vidal »  2020-03-03  »  Inês Vidal

Matilde é filha de um alfaiate que costurava togas para juízes em Coimbra e de uma modista de alta costura, responsável pelas criações que a mulher de Carmona vestia. Filipe é alentejano e foi atrás de Cristina, que chegou a Torres Novas.
(ler mais...)


Pau de dois bicos »  2020-02-22  »  Anabela Santos

Como sabemos, um pau de dois bicos tem dois lados, o positivo e o negativo. É normalíssimo que, ao longo da vida, se encontrem várias situações que consideramos trazerem, ao mesmo tempo, vantagens e desvantagens por variadas razões.
(ler mais...)

 Mais lidas - Opinião (últimos 30 dias)
»  2020-03-06  »  Jorge Salgado Simões Terminal 3 em Tancos? Sim, era mesmo isto.
»  2020-03-07  »  Acácio Gouveia Fabrióleo
»  2020-03-06  »  Jorge Carreira Maia Um vírus abre uma fresta
»  2020-03-09  »  Rui Anastácio Carso, por Rui Anastácio
»  2020-03-07  »  António Gomes Outra vez as estradas