• SOCIEDADE-  • CULTURA  • DESPORTO  • OPINIÃO
Directora: Inês Vidal   |     Quinta, 19 de Julho de 2018
Pesquisar...
Dom.
 27° / 16°
Períodos nublados
Sáb.
 28° / 15°
Céu limpo
Sex.
 27° / 17°
Períodos nublados
Torres Novas
Hoje  27° / 16°
Períodos nublados
       #Alcanena    #Entroncamento    #Golega    #Barquinha    #Constancia 

Quando se sente que já não se pertence

Opinião  »  2018-04-04  »  Maria Augusta Torcato

"Fui ao banco e, como dizia, senti-me invadida por um sentimento de vazio, de quebra de identidade, de não pertença."

Fui ao banco. E uma ação tão singela e banal gerou um terramoto interior, porque o que ali se sentiu era o que se sentia há já algum tempo, mas pela natureza humana de existência e resistência se vai negando ou adiando ou fingindo que não existe – um sentimento de vazio, de quebra de identidade, de não pertença.

A verdade é que já há muito que, fisicamente, não ia ao banco. Desde que o banco vem até nós, em casa ou em qualquer outro espaço e a qualquer dia e hora, que eu deixei de contactar, olhos nos olhos, com os funcionários habituais, que quase eram família e que, às vezes, sabiam mais da nossa vida, quer dizer, das nossas contas, do que nós próprios. Davam-nos informações, ajudavam-nos a decidir, ligavam-nos quando era necessário mudar alguma coisa, atualizar alguns dados, fazer algum depositozinho, porque a conta já estava para baixo de zero.

Fui ao banco e, como dizia, senti-me invadida por um sentimento de vazio, de quebra de identidade, de não pertença. Quem era eu, afinal? O que estava ali a fazer? Quem eram aquelas pessoas? Apenas um rosto, apenas um, me era familiar. E foi a ele que me dirigi. Pois nós gostamos de nos sentir em casa. Ninguém consegue viver sem sentir que pertence, sem sentir que se identifica, sem sentir que há um complemento, um todo, nas relações que se estabelecem entre nós e os outros e o que nos rodeia. É claro que a conversa se encaminhou logo, se iniciou, por e com isto. Não foi logo o assunto que me levou ao banco. Não. Foi o que senti e senti que ainda podia partilhar com a alma por trás daquele rosto que eu conhecia e me conhecia. Olhos nos olhos. Parecia uma forma de me reencontrar, de reforçar a ténue linha que me ligava e que era imprescindível manter. Do outro lado, a pessoa por trás do rosto sentia o mesmo que eu. Também àquela pessoa tinham chegado sentimentos de vazio, de perda de identidade e de não pertença. E, tal como eu, tinha de viver com eles todos os dias. Ali e não só. Talvez por isso se tenha tornado tão importante o resgate das pequenas coisas que há em comum, nem que sejam as pequenas compreensões dos mundinhos de cada um.

O pior de tudo é que parece que há por aí muitos “bancos”. Há muitas coisas a fazerem-nos sentir que não pertencemos. Há muitas coisas com as quais deixámos de nos identificar. Vai-se atribuindo este fenómeno às mudanças, à modernidade, à influência e lugar conquistados pelas tecnologias, mas tem-se perfeita consciência (pelo menos algumas pessoas, talvez muitas) de que nada está melhor, nem se vislumbra que possa melhorar.

Por mim, sinto que me vou apagando em cada dia, mas de forma consciente, opcional. Continuo a fazer o que considero ser o meu dever e a minha obrigação, sem delegar o que me compete e tendo sempre em mente o melhor contributo possível. Mas deixo que o silêncio se instale. Muitas e reiteradas vezes é o eleito, o escolhido, porque, pura e simplesmente, é a forma que tenho de me manter viva por dentro e fiel a mim própria, e de não me violentar com estes vazios, estas perdas de identidade e de pertença que grassam por aí e levam tudo de enxurrada, sob uns holofotes e uma colunas potentíssimos que ofuscam e ensurdecem.

Aliás, o silêncio é uma arma poderosíssima. O pior é que com tanto ruído se perde até a capacidade de escutar. E está tudo tão cheio de vazios. Por mim, acho que tenho tentado combatê-los. Apago-me e silencio-me para não os alimentar. Para não fazer parte deles. Dizia Blimunda, a de Saramago, que “Há um tempo para construir e um tempo para destruir, umas mãos assentaram as telhas deste telhado, outras o deitarão abaixo, e todas as paredes, se for preciso”. Do mesmo modo eu aguardo, em silêncio, um novo tempo, um tempo de reconstrução...

E não há reconstrução sem identidade. Nem identidade sem pertença. E a pertença anula o vazio. Por isso, o tempo da reconstrução será sempre um bom combate.

 

 

 Outras notícias - Opinião


Um concubinato de conveniência »  2018-07-12  »  Jorge Carreira Maia

Desde o início que a actual solução governativa sofre de um pecado mortal. Este reside num governo onde só um dos partidos de esquerda tem assento. Ao escolher o caminho mais fácil, a esquerda resolveu alguns problemas de momento.
(ler mais...)


Obstipação intestinal: um mal cada vez mais presente »  2018-07-12  »  Juvenal Silva

A obstipação intestinal, também conhecida como prisão de ventre, é uma doença gastrointestinal cada vez mais presente e, com um grau de Incidência preocupante, já na idade infantil. Num organismo saudável, o percurso da matéria residual pelo trato digestivo, corresponde a um ciclo previsível e regular que poderá oscilar entre 6 a 24 horas.
(ler mais...)


F »  2018-07-12  »  José Ricardo Costa

Admito ser um bocadinho conservador, sobretudo naqueles dias em que acordo com uma certa vontade de lavar os dentes com pasta medicinal Couto e de ter um mordomo chamado Jeeves para me trazer o fato às riscas enquanto faz o resumo do Financial Times.
(ler mais...)


A avó Augusta, a foice e a vassoura »  2018-07-12  »  Maria Augusta Torcato

Esta crónica vai apresentar o formato de duas em uma. É que, apesar das temáticas e problemáticas quotidianas fervilharem na minha cabecinha, não tenho tido tempinho algum para escrever. E o ato de escrever exige pelo menos um bocadinho de tempo.
(ler mais...)


Dias difíceis »  2018-06-22  »  Jorge Carreira Maia

A situação política está mais confusa do que parece. Só há um dado claro e inequívoco. Exceptuando os socialistas, todos os actores agem com o objectivo de evitar que o PS obtenha maioria absoluta nas próximas legislativas.
(ler mais...)


Aloé Vera, a planta milagrosa »  2018-06-21  »  Juvenal Silva

Aloé Vera, também conhecida por planta do milagres pelos médicos da antiguidade, é uma planta medicinal cujo uso tem sido intensificado ao longo dos séculos e, nas últimas décadas, tem sido motivo de interesse de pesquisas, com vários estudos científicos na aplicação de uma grande variedade de doenças e com grande destaque nas doenças oncológicas.
(ler mais...)


Cumpre-se a tradição »  2018-06-21  »  Anabela Santos

Junho, mês dos santos populares… António, Pedro e João.
Santo António, conhecido por Santo António de Lisboa, o santo que pregou aos peixes, o Santo casamenteiro, não é exclusivo da nossa capital e não é de Pádua.
(ler mais...)


A água »  2018-06-21  »  António Gomes

É de todos conhecida a escassez de água doce existente no planeta. Em Portugal, o ano de 2017 foi particularmente avisador para toda a gente: lembramos bem o transporte de água de umas regiões para outras e os condicionalismos impostos ao seu consumo (jardins, rotundas, etc).
(ler mais...)


O governo e os professores »  2018-06-07  »  Jorge Carreira Maia

O que terá levado o ministro da Educação a afirmar que, perante a posição dos sindicatos, o governo, que tinha prometido recuperar quase três anos do tempo em que as carreiras dos professores estiveram congeladas, não contará qualquer tempo para a progressão docente? O ministro pode achar que é uma estratégia brilhante para enfrentar os sindicatos, mas não percebeu como ela é humilhante para os professores, que se sentem tratados como crianças que são castigadas por um ministro a quem, na verdade, não reconhecem qualquer autoridade política ou educativa.
(ler mais...)


Torres Novas está lá dentro »  2018-06-06  »  Carlos Tomé

Casa Espanhol, uma das três lojas mais antigas de Torres Novas, fechou as suas portas no passado dia 30 de Maio. Torres Novas nunca mais será a mesma terra. Com este encerramento encerra-se uma determinada forma de estar na vida, a generosidade e a inteligência de conseguir estar quase 80 anos à frente de um estabelecimento comercial que marcou indelevelmente a vida da cidade.
(ler mais...)

 Mais lidas - Opinião (últimos 10 dias)
»  2018-07-12  »  Maria Augusta Torcato A avó Augusta, a foice e a vassoura
»  2018-07-12  »  Jorge Carreira Maia Um concubinato de conveniência
»  2018-07-12  »  José Ricardo Costa F