Uma passagem do Evangelho de João - jorge carreira maia
Opinião
» 2025-03-22
» Jorge Carreira Maia
Agora que nos estamos a aproximar, no calendário católico, da Páscoa, talvez valha a pena meditar nos versículos 36, 37 e 38, do Capítulo 18, do Evangelho de João. Depois de entregue a Pôncio Pilatos, Jesus respondeu à pergunta deste: Que fizeste? Dito de outro modo: de que és culpado? Ora, a resposta de Jesus é surpreendente: «O meu reino não é deste mundo. Se o meu reino fosse deste mundo, os meus guardas teriam lutado para que eu não fosse entregue aos judeus. Agora: o meu reino não é daqui.» Quando Pilatos pergunta: «Então tu és rei?», a resposta continua a ser surpreendente: «Tu dizes que sou rei. Eu nasci para isto e para isto vim ao mundo, para dar testemunho da verdade.» Esta passagem do Evangelho de João não deve ser vista como o anúncio de uma utopia, mas como o ideal regulador de toda a política.
São dois os elementos centrais: a violência e a verdade. Jesus consente na afirmação de que é rei, mas é um soberano que não tem um corpo de guardas que lute por ele. Abdica da violência legítima para fazer vingar a sua soberania. Esta centra-se na verdade. A verdade deve ser entendida não apenas como um acordo entre aquilo que se diz e os factos, mas como uma vida verdadeira, onde se inclui o bem e a justiça. Não é a violência, mesmo que legítima, que deve suportar a governação, mas o exercício dessa verdade. As palavras de Cristo, na sua radicalidade, causam a mais profunda perplexidade nos homens políticos. Essa perplexidade está resumida na resposta de Pilatos às palavras de Jesus: «O que é a verdade?» Pôncio Pilatos – como qualquer autoridade política – conhece bem a violência como forma de exercer a soberania, mas desconhece a verdade.
Como o idealismo platónico, o texto evangélico fornece, ainda que de modo diferente, um padrão pelo qual podemos medir a bondade das governações humanas. Quanto menor for a violência a que recorrem e quanto mais preocupadas estiverem com a verdade, o bem e a justiça, melhor serão. Quanto mais violência usarem e menos preocupadas estiverem com a verdade, o bem e a justiça, mais detestáveis serão. Um reino cujo rei não usa a violência e se conduz apenas pela verdade não é daqui e de agora, não é deste mundo. Contudo, esse rei é o padrão pelo qual, no fundo dos corações, os homens medem os seus soberanos. E sempre que os homens se revoltam contra as governações é porque estas se afastaram da verdade, do bem e da justiça e no seu lugar colocaram a violência. Eis três versículos terríveis para aqueles que têm nas mãos o poder sobre os outros.
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Uma passagem do Evangelho de João - jorge carreira maia
Opinião
» 2025-03-22
» Jorge Carreira Maia
Agora que nos estamos a aproximar, no calendário católico, da Páscoa, talvez valha a pena meditar nos versículos 36, 37 e 38, do Capítulo 18, do Evangelho de João. Depois de entregue a Pôncio Pilatos, Jesus respondeu à pergunta deste: Que fizeste? Dito de outro modo: de que és culpado? Ora, a resposta de Jesus é surpreendente: «O meu reino não é deste mundo. Se o meu reino fosse deste mundo, os meus guardas teriam lutado para que eu não fosse entregue aos judeus. Agora: o meu reino não é daqui.» Quando Pilatos pergunta: «Então tu és rei?», a resposta continua a ser surpreendente: «Tu dizes que sou rei. Eu nasci para isto e para isto vim ao mundo, para dar testemunho da verdade.» Esta passagem do Evangelho de João não deve ser vista como o anúncio de uma utopia, mas como o ideal regulador de toda a política.
São dois os elementos centrais: a violência e a verdade. Jesus consente na afirmação de que é rei, mas é um soberano que não tem um corpo de guardas que lute por ele. Abdica da violência legítima para fazer vingar a sua soberania. Esta centra-se na verdade. A verdade deve ser entendida não apenas como um acordo entre aquilo que se diz e os factos, mas como uma vida verdadeira, onde se inclui o bem e a justiça. Não é a violência, mesmo que legítima, que deve suportar a governação, mas o exercício dessa verdade. As palavras de Cristo, na sua radicalidade, causam a mais profunda perplexidade nos homens políticos. Essa perplexidade está resumida na resposta de Pilatos às palavras de Jesus: «O que é a verdade?» Pôncio Pilatos – como qualquer autoridade política – conhece bem a violência como forma de exercer a soberania, mas desconhece a verdade.
Como o idealismo platónico, o texto evangélico fornece, ainda que de modo diferente, um padrão pelo qual podemos medir a bondade das governações humanas. Quanto menor for a violência a que recorrem e quanto mais preocupadas estiverem com a verdade, o bem e a justiça, melhor serão. Quanto mais violência usarem e menos preocupadas estiverem com a verdade, o bem e a justiça, mais detestáveis serão. Um reino cujo rei não usa a violência e se conduz apenas pela verdade não é daqui e de agora, não é deste mundo. Contudo, esse rei é o padrão pelo qual, no fundo dos corações, os homens medem os seus soberanos. E sempre que os homens se revoltam contra as governações é porque estas se afastaram da verdade, do bem e da justiça e no seu lugar colocaram a violência. Eis três versículos terríveis para aqueles que têm nas mãos o poder sobre os outros.
Painéis fotovoltaicos da Renova: e um bocadinho de interesse municipal agora ao contrário? - joão carlos lopes
» 2025-12-10
Na recente reunião do executivo municipal em que foi debatida a questão dos painéis fotovoltaicos da Renova, o presidente da Câmara, José Trincão Marques, recordou o seu papel assertivo, então enquanto presidente da assembleia municipal, na polémica sobre o acesso à nascente do rio Almonda, que foi tema recorrente nestas páginas nos anos 2020/2023. |
Transparência ou opacidade, eis a questão! - antónio mário santos
» 2025-12-05
Uma nova geração (parte de, sejamos exactos) a dirigir o município, conforme citou na última sessão extraordinária o actual presidente do executivo camarário, José Manuel Trincão Marques. |
Presidenciais, o grau de ressentimento - jorge carreira maia
» 2025-12-05
» Jorge Carreira Maia
As próximas eleições presidenciais vão medir o grau de ressentimento político dos portugueses. Em teoria, há quatro candidatos que podem aspirar a passar à segunda volta. Para usar uma classificação de um amigo, temos duas rainhas de Inglaterra (Marques Mendes e António José Seguro) e dois caudilhos (Gouveia e Melo e André Ventura). |
Gente nova, poder novo. Caminho certo? - antónio mário santos
» 2025-11-22
» António Mário Santos
Ainda não assentou a poeira do espanto e da tristeza das eleições municipais e já a boataria fervilha nas redes sociais. Da reunião mal-esclarecida entre o recém presidente José Manuel Trincão Marques e o líder da oposição Tiago Ferreira, encontra-se uma descrição em O Mirante, que informa que este último quis fumar o cachimbo de paz com o presidente socialista, desde que este lhe cedesse três lugares a tempo inteiro na vereação, e a vice-presidência do executivo. |
Sal e azar - carlos paiva
» 2025-11-22
» Carlos Paiva
A geração de transição, a última a sacrificar a sua vida à ditadura, a que entregou a melhor fase da capacidade produtiva à guerra, à realidade do analfabetismo, iliteracia, mortalidade infantil ao nível do Terceiro Mundo (faziam-se dez filhos para sobreviverem dois), agricultura de subsistência, escravidão fabril, feudalismo empresarial e que concebeu os seus filhos pouco antes da queda do fascismo, está a desaparecer. |
Manuel Ribeiro (1878-1941) - jorge carreira maia
» 2025-11-22
» Jorge Carreira Maia
Como em todas as literaturas, também na portuguesa existe um cânone. No romance, Camilo Castelo Branco, Eça de Queirós, Agustina Bessa-Luís ou José Saramago pertencem, de forma permanente, ao cânone. Outras entrarão e sairão dele em conformidade com os humores do dia. |
É só fazer as contas - antónio gomes
» 2025-11-09
» António Gomes
Os resultados eleitorais são de todos conhecidos, assim como os vencedores e os vencidos. A democracia que dizem alguns, está doente e corre o risco de entrar em coma ditou para o concelho de Torres Novas o fim da maioria absoluta do PS, embora conservando a presidência da câmara por uma unha negra, tal como há 32 anos atrás, pouco mais de 80 votos. |
As esquerdas, as eleições municipais, o que se seguirá… -antónio mário santos
» 2025-11-09
» António Mário Santos
«o sectarismo, a característica mais tóxica da esquerda portuguesa, tem destas coisas. Leva quem não se olha ao espelho a ignorar o mundo ou, pior, a fingir que as dificuldades estão na casa do lado» - Francisco Louçã, Público, 3 de Novembro A esquerda portuguesa está em crise. |
Da evolução das espécies - carlos paiva
» 2025-11-09
» Carlos Paiva
No início dos anos noventa do século passado a Internet deu os primeiros passos em Portugal. Primeiro pela comunidade científica e académica, depois, muito rapidamente, expandiu-se às empresas e cidadãos comuns. |
Os três salazares - jorge carreira maia
» 2025-11-09
PRIMEIRO SALAZAR. Foi um ditador cinzento e manhoso. Tinha a virtude de odiar políticos histriónicos e espalhafatosos. Esse ódio virtuoso, porém, era acompanhado por outros ódios nada virtuosos. Odiava, antes de tudo, a liberdade. |