• SOCIEDADE-  • CULTURA  • DESPORTO  • OPINIÃO
  Sábado, 27 Fevereiro 2021    |      Directora: Inês Vidal    |      Estatuto Editorial    |      História do JT
   Pesquisar...
Ter.
 19° / 8°
Períodos nublados
Seg.
 19° / 7°
Períodos nublados
Dom.
 20° / 8°
Períodos nublados
Torres Novas
Hoje  21° / 8°
Períodos nublados
       #Alcanena    #Entroncamento    #Golega    #Barquinha    #Constancia 

Triste é a (nossa) velhice?

Opinião  »  2009-08-27  »  Jorge Salgado Simões

Vivemos numa época e num país onde os ”velhos são trapos”, escondidos e, como tal, também esquecidos, muitos deles em casa ou ”depositados” nos ”armazéns de velhos” a que, pomposamente, muitos chamam de ”lares de idosos”. Após a morte, aos mais conhecidos (as chamadas figuras públicas) são prestadas homenagens que, na maioria das situações, ”cheiram a falso” e são dum grande oportunismo mediático. Há dias, assistimos a um descarado aproveitamento deste tipo de acontecimentos, pois até o cortejo fúnebre foi transmitido em directo pelas televisões, com a morte do actor Raul Solnado, alem das muitas horas de emissão, em volta do seu falecimento. Fiquei triste, com o ”espectáculo” até porque aquele homem há muito que tinha sido esquecido dos holofotes das cenas e arredado dos ”medias”, aqueles que se ”aproveitaram do espectáculo da sua morte”.

Alguns dias depois, presenciei uma cena que me fez humedecer os meus olhos (aqueles que são as ”vistas da nossa alma”), e um misto de ”tristeza e de medo” apoderou-se de mim, antevendo a velhice que poderei alcançar (embora os dois enfartes que me atingiram me deixam poucas esperanças de chegar a velho). Numa manhã deste quente mês de Agosto e numa esplanada num local maravilhoso à beira-mar (nos arredores de Lisboa) estava um grupo de idosos que para ali foram levados, num ”passeio higiénico”, pela instituição onde são ”hóspedes” (num ”lar de velhos”?). Quase silenciosamente, todos olhavam na mesma direcção, podendo abarcar o rio Tejo, ali já como mar, e a ponte e o monumento do Cristo Rei, se as sua visão lhes permitisse desfrutar a imensidão daquele horizonte cheio de luz e dum forte azul marinho.

Abstraí-me de tudo e, por alguns minutos, concentrei os meus olhares naquelas criaturas (homens e mulheres), todas elas com idades para cima dos setenta anos e tentei ”ler” naquelas posturas silenciosas e inamovíveis, quase parecendo estátuas sentadas, e nos seus olhares o que lhes iria na alma. Confesso que tive pena de não lhes ter perscrutado os sentimentos, tentado saber o que aqueles seres humanos, em final de vida, sentiam naquele momento e naquele cenário de ”encher a alma” aos mais sensíveis. Naqueles minutos, apoderou-se de mim uma grande tristeza e senti mesmo a ameaça duma lágrima a querer sair e, por isso, preferi fugir, porque aquela ”cena” era demasiado forte para o meu coração doente.

Não sei quantos anos me faltarão para ”ser velho” (nem sei se lá chegarei, por força da minha baixa esperança de vida, pelas razões atrás citadas), mas confesso que me preocupo muito com essa fase das nossas vidas, agora que graças à medicina e a outros factores, a ”velhice” pode chegar mais tarde e ser também mais longa. Os ”centenários” são, cada vez em maior número e até o conceito e o período de ”terceira idade” se vai afastando no nosso relógio do tempo.

Por razões várias, a população ”sénior” cresce em número e em longevidade, por oposição à baixa natalidade, pelo que o seu futuro não augura nada de bom, num país (não só no nosso) onde os apoios têm sido concentrados nas crianças e nos jovens, alguns já nada têm de jovens e que vivem num ”ócio parasita” permanente, esquecendo-se os ”velhos”, aqueles que geraram riqueza para o país. Na falta duma política adequada, pululam por aí autênticos ”depósitos de velhos” a que chamam ”casas de repouso”, ”lares de idosos”, etc.

Há muitos anos que não entro num ”lar de idosos”, porque se o fizesse não sei se aguentaria tal violência psicológica, sem esquecer as condições por vezes desumanas dos ”residentes”, porque a cena que presenciei na esplanada e outras semelhantes que vamos vendo por aí, são suficientes para me deixarem profundamente triste e mais triste ainda por verificar que ”este país não é para velhos” porque muito pouco se faz por eles (nós). Por isso, é tempo de todos (Estado e demais instituições e famílias) olharmos para os ”seniores” (nome mais bonito e sem a carga pejorativa de ”velhos”) porque essa pode ser uma etapa que muitos de nós alcançaremos. Mas será que cada um de nós sabe preparar-se para a ”velhice”? E serão os nossos filhos culpados da nossa velhice poder ser uma fase de tristeza e de ”morte lenta”, por vezes a desejarem que morremos depressa, para se verem livres do ”fardo” que os seus progenitores são, para eles e para a sociedade? ”Filho és, pai serás. Como fizeres, assim receberás”. É que também somos ou fomos filhos e estas condições e atitudes são uma ”herança” que vem passando de geração em geração, desfeita que foi a organização familiar assente em gerações auto sustentadas e onde coabitavam, no mesmo lar (ou na mesma rua, aldeia, vila ou cidade – hoje cada vez mais dispersos) pais, filhos e netos regenerando essa estrutura. Nascia-se e morria-se na mesma casa e hoje até a morte é escondida aos netos! Acima de tudo, a ”culpa” é da nova organização das sociedades ocidentais onde nos transformámos em ”descartáveis e pesos mortos” (e absorvedores de recursos), se deixarmos de produzir ou até de alimentar com o mesmo frenesim a sociedade materialista e de consumo que criámos e estamos a manter ou a fazer crescer (a percentagem crescente dos ”seniores”, muitos deles com um bom poder de compra, está a criar um mercado de produtos e serviços diferente e para o qual muitas empresas ainda não dedicaram a devida atenção, tão concentradas estão com os ”jovens” e os ”activos”).

Contudo, triste será a nossa velhice, se nada fizermos para alterar a situação actual e futura. E é tanto o que pode e deve ser feito!

Serafim Marques (Economista)?

 

 

 Outras notícias - Opinião


Nicolau III - rui anastácio »  2021-02-22  »  Rui Anastácio

Dizia-se do último czar da Rússia, Nicolau II, que a sua opinião era a opinião da última pessoa com quem tinha falado. Cem anos depois, Nicolau II reencarnou em alguma daquela rapaziada que tomou conta dos principais partidos da nossa democracia.
(ler mais...)


Na mouche - josé ricardo costa »  2021-02-22  »  José Ricardo Costa

Quando saí de Torres Novas para ir estudar em Lisboa já sabia que iria depois sair de Lisboa para vir trabalhar em Torres Novas. A primeira razão para voltar foi de natureza umbilical: eu ser de Torres Novas como outros são de Mangualde ou Famalicão.
(ler mais...)


A pandemia, o Estado e os portugueses - jorge carreira maia »  2021-02-22  »  Jorge Carreira Maia

Se se observar o comportamento dos portugueses perante a pandemia, talvez seja possível ter um vislumbre daquilo que somos e de como gostamos de ser governados. Obviamente que não nos comportamos todas da mesma forma e não gostamos todos de ser governados da mesma maneira.
(ler mais...)


Altruísmo heróico e outras fábulas - carlos paiva »  2021-02-22  »  Carlos Paiva

O herói nacional, melhor jogador de futebol do mundo de sempre, segundo dizem, foi protagonista numa daquelas histórias que são matéria-prima para solidificar lendas. Nessa história, sublinhando as origens humildes, o estratosférico conquista mais um laço com o Zé comum.
(ler mais...)


A oportunidade da sobra - antónio gomes »  2021-02-22  »  António Gomes

Apesar da limitação de vacinas nesta fase, o país tem vindo a ser confrontado com variados episódios de vacinação fora do que está priorizado. Há sempre alguém que se julga acima das normas ou que faz as suas próprias normas e ultrapassa assim os que estão na fila, ou então por via de terceiros chegam primeiro à seringa.
(ler mais...)


São sobras, Senhor! São sobras! - ana lúcia cláudio »  2021-02-22  »  Ana Lúcia Cláudio

Na falta de acções presenciais, multiplicaram-se, nos últimos meses, as iniciativas on-line sobre os mais diversos assuntos. Num destes eventos em que participei, sensibilizou-me, particularmente, o testemunho de um ex-ministro social-democrata que, quando questionado sobre um eventual regresso à vida política mais activa, reconheceu que não pretende fazê-lo porque, e nas suas palavras, os quatro anos em que foi ministro mudaram-no, levando amigos e familiares mais próximos a dizerem-lhe que, nessa altura, ele não era “o mesmo Nuno”.
(ler mais...)


PSD: a morte há muito anunciada - inês vidal »  2021-02-20  »  Inês Vidal

 1. O PSD de Torres Novas é uma anedota. Ao mesmo tempo que digo isto, ouço já ao fundo vozes a erguerem-se contra esta forma crua e dura de arrancar com este texto. Imagino até as conclusões de quem tem facilidade de falar sem saber: é do Bloco, dizem uns, comunista desde sempre, atiram outros, indo ainda mais longe, lembrando que dirige aquele pasquim comunista, conforme aprenderam com o ex-presidente socialista.
(ler mais...)


Vacina »  2021-02-18  »  Hélder Dias

Développé - rui anastácio »  2021-02-07  »  Rui Anastácio

Passo de ballet, movimento em que a bailarina estica graciosamente a perna, tem diferentes níveis de dificuldade consoante a direcção da perna e a altura a que chega o pé, requer um grande equilíbrio e um elevado nível de concentração.
(ler mais...)


Não sabemos morrer - inês vidal »  2021-02-05  »  Inês Vidal

Ouço os sinais ao longe. Um pranto gritado bem alto, do alto dos sinos da igreja, por alguém que partiu. É já raro ouvir-se. Por norma, pelo menos na nossa cidade, ecoam apenas pelos que muito deram de si à causa religiosa.
(ler mais...)


 Mais lidas - Opinião (últimos 30 dias)
»  2021-02-05  »  Carlos Paiva Hill Street Blues - carlos paiva
»  2021-02-20  »  Inês Vidal PSD: a morte há muito anunciada - inês vidal
»  2021-02-05  »  Jorge Carreira Maia O estranho caso das vacinas - jorge carreira maia
»  2021-02-18  »  Hélder Dias Vacina
»  2021-02-22  »  José Ricardo Costa Na mouche - josé ricardo costa