Voltar à menoridade - jorge carreira maia
Opinião
» 2024-01-09
» Jorge Carreira Maia
Cerca de 50% dos americanos entre os 18 e os 45 anos não acham que a democracia seja a melhor forma de governo. Metade das novas gerações está disponível para viver sob um regime autoritário. Isto nos Estados Unidos, uma das democracias mais antigas e consolidadas do planeta, uma nação intrinsecamente democrática, onde um complexo jogo de checks and balances tem por função limitar o poder dos três ramos de acção política, o executivo, o legislativo e o judicial, de modo a que nenhum deles possa exorbitar e pôr em causa a liberdade dos indivíduos, que é aquilo que está sempre em jogo numa democracia liberal. As novas gerações americanas estão cansadas da democracia. A atracção dos jovens pelo autoritarismo é uma tendência geral das democracias, incluindo a portuguesa. Haverá múltiplas causas para este fenómeno. Deixo de lado as que parecem mais óbvias. Centro-me em duas. A insipidez da democracia e o peso da liberdade.
Os regimes democráticos não propõem aventuras colectivas, não apresentam grandes desígnios que mobilizem as pessoas e dêem um sentido à vida. Cada qual tem a liberdade de encontrar um desígnio e um sentido para a sua vida, de a tornar mais sensata ou mais aventurosa, de acordo com a sua consciência. O desígnio das democracias é o de não impor qualquer desígnio às pessoas, deixando-as viver os seus próprios projectos, oferecendo-lhes apenas a aventura da sua própria liberdade. Esta insipidez democrática, contudo, não responde a uma certa pulsão existente nos seres humanos, enquanto jovens, para a aventura colectiva, para mergulhar na massa e deixar-se encantar pelos cantos de sereia dos desígnios colectivos, onde a individualidade se dissolve.
Um segundo motivo é a derrota do Iluminismo. Kant, à pergunta O que é o Iluminismo?, respondeu: “lluminismo é a saída do homem da sua menoridade de que ele próprio é culpado. A menoridade é a incapacidade de se servir do entendimento sem a orientação de outrem.” As novas gerações parecem, em parte, já não suportar o peso de serem responsáveis pelo seu destino. A liberdade tornou-se um fardo, porque dá a cada um a responsabilidade pelos seus êxitos e fracassos. Muitos povos evitaram esse fardo e entregaram-se sempre nas mãos de um déspota. Outros, porém, decidiram correr o risco da liberdade política e do regime democrático. Em lado nenhum se viveu melhor do que aí, mas parece que o fardo da liberdade está a ser demasiado pesado para parte das novas gerações. Querem continuar na menoridade e parecem precisar de alguém, um ditador, um déspota, que pense por elas. É isso que desejam e é isso que estão a preparar.
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Voltar à menoridade - jorge carreira maia
Opinião
» 2024-01-09
» Jorge Carreira Maia
Cerca de 50% dos americanos entre os 18 e os 45 anos não acham que a democracia seja a melhor forma de governo. Metade das novas gerações está disponível para viver sob um regime autoritário. Isto nos Estados Unidos, uma das democracias mais antigas e consolidadas do planeta, uma nação intrinsecamente democrática, onde um complexo jogo de checks and balances tem por função limitar o poder dos três ramos de acção política, o executivo, o legislativo e o judicial, de modo a que nenhum deles possa exorbitar e pôr em causa a liberdade dos indivíduos, que é aquilo que está sempre em jogo numa democracia liberal. As novas gerações americanas estão cansadas da democracia. A atracção dos jovens pelo autoritarismo é uma tendência geral das democracias, incluindo a portuguesa. Haverá múltiplas causas para este fenómeno. Deixo de lado as que parecem mais óbvias. Centro-me em duas. A insipidez da democracia e o peso da liberdade.
Os regimes democráticos não propõem aventuras colectivas, não apresentam grandes desígnios que mobilizem as pessoas e dêem um sentido à vida. Cada qual tem a liberdade de encontrar um desígnio e um sentido para a sua vida, de a tornar mais sensata ou mais aventurosa, de acordo com a sua consciência. O desígnio das democracias é o de não impor qualquer desígnio às pessoas, deixando-as viver os seus próprios projectos, oferecendo-lhes apenas a aventura da sua própria liberdade. Esta insipidez democrática, contudo, não responde a uma certa pulsão existente nos seres humanos, enquanto jovens, para a aventura colectiva, para mergulhar na massa e deixar-se encantar pelos cantos de sereia dos desígnios colectivos, onde a individualidade se dissolve.
Um segundo motivo é a derrota do Iluminismo. Kant, à pergunta O que é o Iluminismo?, respondeu: “lluminismo é a saída do homem da sua menoridade de que ele próprio é culpado. A menoridade é a incapacidade de se servir do entendimento sem a orientação de outrem.” As novas gerações parecem, em parte, já não suportar o peso de serem responsáveis pelo seu destino. A liberdade tornou-se um fardo, porque dá a cada um a responsabilidade pelos seus êxitos e fracassos. Muitos povos evitaram esse fardo e entregaram-se sempre nas mãos de um déspota. Outros, porém, decidiram correr o risco da liberdade política e do regime democrático. Em lado nenhum se viveu melhor do que aí, mas parece que o fardo da liberdade está a ser demasiado pesado para parte das novas gerações. Querem continuar na menoridade e parecem precisar de alguém, um ditador, um déspota, que pense por elas. É isso que desejam e é isso que estão a preparar.
Alívio, decadência e sensatez
» 2026-04-18
» Jorge Carreira Maia
Um suspiro de alívio. Há muito que a União Europeia não recebia uma boa notícia. Teve-a no domingo com a derrota, nas eleições húngaras, de Viktor Orbán. Mais do que a vitória de Péter Magyar, o importante foi a derrota de um claro opositor ao projecto europeu, amigo de dois grande inimigos da União Europeia, Putin e Trump. |
Miau
» 2026-04-18
» Carlos Paiva
Se eu tiver 20 ovelhas e o meu vizinho nenhuma, em média, cada um de nós tem 10 ovelhas. Sem análise crítica, a estatística pode espelhar tudo e qualquer coisa, menos a realidade. Mas são necessários números para iniciar todo o processo. |
Celebremos o 25 de Abril, lutemos pela dignidade no trabalho
» 2026-04-18
» António Gomes
Poucos são os que entendem e menos ainda os que concordam com as alterações à legislação do trabalho que o governo do Montenegro quer impor a toda a força. Ninguém pediu, ninguém reivindicou alterações legislativas para as relações do trabalho, nem sequer as confederações patronais, a coligação que apoia o governo não apresentou essas ideias em campanha eleitoral, não foram por isso sufragadas, não têm legitimidade. |
Bloqueio infinito...
» 2026-04-14
» Hélder Dias
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Este gajo é maluco...
» 2026-04-14
» Hélder Dias
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O castelo fácil
» 2026-04-05
» Carlos Paiva
Uma estratégia comercial converteu-se em moda social. Não é propriamente inédito, diversas tentativas de estimular o consumo fizeram-no inúmeras vezes. Refiro-me especificamente à "experiência". Produtizou-se a "experiência" com o intuito de revitalizar turismo, restauração, hotelaria, entretenimento e cultura. |
Até quando, passado, abusarás da nossa paciência?
» 2026-04-05
» António Mário Santos
Numa ida ao museu municipal Carlos Reis, no último sábado, a fim de participar numa acção cultural com a pintora torrejana Conceição Lopes, ouvi, dum interlocutor, ao defender a construção do museu de arqueologia industrial, que «quem não está atento e não respeita o seu passado, não está a contribuir para a construção do futuro». |
Constituição, Saramago e Crueldade
» 2026-04-03
» Jorge Carreira Maia
Constituição. A Constituição portuguesa faz cinquenta anos. Tem marcas da época, isto é, do processo de ruptura com o regime autoritário do Estado Novo e da intensa luta política que se seguiu. |
Escolas e influenciadores
» 2026-03-22
» Jorge Carreira Maia
Provocou alarido a investigação do Público sobre a presença, em espaço escolar, de influenciadores tidos como pouco recomendáveis. Foram detectados 80 casos. Discutiu-se o papel dos directores, mas também do Ministério da Educação, no controlo das entradas nas escolas. |
Painéis fotovoltaicos ou a identidade patrimonial de uma cidade
» 2026-03-22
» António Gomes
Provavelmente já vamos tarde, tal é o número de atentados ao património, à paisagem urbana e arquitetónica do centro histórico de Torres Novas. Quase tudo começou com o desleixo e o abandono de centenas de imóveis que hoje ou são ruínas em perigo para quem passa ou em alguns casos são espaços vazios emparedados fruto da intervenção forçada do município. |
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» 2026-04-14
» Hélder Dias
Este gajo é maluco... |
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» 2026-04-14
» Hélder Dias
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» 2026-03-22
» António Gomes
Painéis fotovoltaicos ou a identidade patrimonial de uma cidade |
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» 2026-04-05
» António Mário Santos
Até quando, passado, abusarás da nossa paciência? |
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» 2026-03-22
» António Mário Santos
Falemos de cultura e do que o município pode criar |