Por onde ir? - acácio gouveia
Opinião
» 2020-07-18
» Acácio Gouveia
"A menos que o capitalismo se renove de forma radical, não é seguramente regime que auspicie futuro risonho para a Humanidade."
É gratificante apercebermo-nos de que há jovens que canalizam a sua irrequietude para o pensamento crítico e para opinar sobre política. O texto da jovem Mariana Varela é um bom ponto de partida para discussão sobre perspectivas de alternativas ao caminho actual do mundo.
Concordando ou não com todos os aspectos da análise exposta, o facto é que o actual estado de coisas não augura futuro esperançoso para os jovens. “Que fazer?”, questão que Lenine colocava em 1902, mantém-se actual. Só que as soluções propostas nessa icónica publicação, demonstrou-o a História, falharam. Pode dizer-se que na União Soviética, nascida da Revolução de Outubro, se construiu a única verdadeira alternativa ao capitalismo. O êxito inicial espantou os próprios dirigentes bolcheviques quando comemoraram o primeiro ano da Revolução. Na década de vinte, a URSS conseguiu sobreviver às tremendas dificuldades colocadas pelas rebeliões reaccionárias apoiadas pelas grandes potências. Sobreviveu à invasão nazi durante a II Grande Guerra e reconstruiu-se sem as injeções de capital do Plano Marshall. Alargou consideravelmente a sua esfera de influência e tornou-se superpotência. Iniciou e liderou durante uma década a exploração do espaço. Contudo, não chegou celebrar três quartos de século de existência. Em 1991 implodia, arrastando todos os regimes socialistas europeus e não só.
Hoje em dia, a despeito da nomenclatura de partidos como o PC Chinês, só se podem considerar verdadeiramente socialistas dois regimes: o da Coreia do Norte e o de Cuba. Quanto ao primeiro, não vale a pena, creio, tecer quaisquer considerações. Já em Cuba pode constatar-se um discreto e progressivo abandono do socialismo.
Porém, o capitalismo, a despeito de todo o cortejo de crises, tem-se mantido ao longo de séculos. Urge meditar nesta incontornável verdade e parece-me que a conclusão não poderá ser outra senão que a alternativa socialista (no sentido marxista-leninista e não na actual conotação de ideologia de centro esquerda) é inválida. Uma formidável superpotência, como a URSS, não cai sem que haja causas internas. Muitos dos atributos negativos que Mariana, não sem razão, aponta ao capitalismo, encontravam-se presentes nos regimes socialistas. As pessoas não eram felizes. Posso afiançar eu, que viajei pela Hungria, Roménia e Jugoslávia em 1980 e tive oportunidade de conviver também com jovens polacos e da RDA (Alemanha de Leste). As diversas formas de alienação do trabalhador pela máquina produtiva, sabiamente dissecadas por Karl Marx, estavam também presentes nos regimes. Eram mesmo mais gravosas que nos regimes capitalistas democráticos. No que toca a política ambiental, pior do que desinteresse pelo meio-ambiente, acalentavam uma posição de hostilidade para com a natureza. A secagem do mar Aral, iniciada durante o período soviético, era vista como a correcção dum “erro da natureza”. O regime maoista foi campeão na desflorestação e tentativa de extinção de aves.
Mas, permita-se-me um regresso ao capitalismo e meditar nas razões do seu “sucesso”, ou, melhor dizendo, da sua sobrevivência. Uma desvantagem fatal dos sistemas nascidos da Revolução de Outubro foi a rigidez ideológica que travou o espírito crítico e liberdade de pensamento, fonte de inovação adaptativa. Já o capitalismo, mais preocupado com os resultados práticos do que com pureza ideológica, tem demonstrado uma capacidade de adaptação pragmática ao ponto de não rejeitar enxertos, se assim se pode dizer, “marxistas”, para se reformar. Nesta adaptabilidade do capitalismo estará a explicação para a sua resiliência face a crises de proporções bíblicas, como a Grande Depressão, iniciada em 1929. Aliás, é difícil negar que não há capitalismo, mas capitalismos. Muito diferentes são a versão chinesa - capitalismo puro e duro - e as variantes social-democratas típicas dos países nórdicos.
Mas, goste-se ou não, o facto é que o capitalismo, nos últimos decénios, permitiu que centenas de seres humanos ultrapassassem o limiar da pobreza, da China e sul da Ásia até à América Latina. Porém, a situação é mais complexa e o futuro perspectiva-se nada promissor. Se, no pós-guerra, as classes operárias e trabalhadores de um modo geral viram a sua situação económica melhorar substancialmente, registando-se um movimento de ascensão social nos EUA e Europa, já desde os anos 70 se vem notando uma degradação do nível de vida da classe média, acompanhada de aumento da riqueza dos muito ricos, aumentando assim o fosso entre as classes sociais. Quer isto dizer que o velho Karl Marx talvez não esteja tão errado assim, ao prever que o capitalismo empurraria crescentes camadas da população para a proletarização.
A menos que o capitalismo se renove de forma radical, não é seguramente regime que auspicie futuro risonho para a Humanidade. O problema continua a ser: onde está a alternativa?
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Por onde ir? - acácio gouveia
Opinião
» 2020-07-18
» Acácio Gouveia
A menos que o capitalismo se renove de forma radical, não é seguramente regime que auspicie futuro risonho para a Humanidade.
É gratificante apercebermo-nos de que há jovens que canalizam a sua irrequietude para o pensamento crítico e para opinar sobre política. O texto da jovem Mariana Varela é um bom ponto de partida para discussão sobre perspectivas de alternativas ao caminho actual do mundo.
Concordando ou não com todos os aspectos da análise exposta, o facto é que o actual estado de coisas não augura futuro esperançoso para os jovens. “Que fazer?”, questão que Lenine colocava em 1902, mantém-se actual. Só que as soluções propostas nessa icónica publicação, demonstrou-o a História, falharam. Pode dizer-se que na União Soviética, nascida da Revolução de Outubro, se construiu a única verdadeira alternativa ao capitalismo. O êxito inicial espantou os próprios dirigentes bolcheviques quando comemoraram o primeiro ano da Revolução. Na década de vinte, a URSS conseguiu sobreviver às tremendas dificuldades colocadas pelas rebeliões reaccionárias apoiadas pelas grandes potências. Sobreviveu à invasão nazi durante a II Grande Guerra e reconstruiu-se sem as injeções de capital do Plano Marshall. Alargou consideravelmente a sua esfera de influência e tornou-se superpotência. Iniciou e liderou durante uma década a exploração do espaço. Contudo, não chegou celebrar três quartos de século de existência. Em 1991 implodia, arrastando todos os regimes socialistas europeus e não só.
Hoje em dia, a despeito da nomenclatura de partidos como o PC Chinês, só se podem considerar verdadeiramente socialistas dois regimes: o da Coreia do Norte e o de Cuba. Quanto ao primeiro, não vale a pena, creio, tecer quaisquer considerações. Já em Cuba pode constatar-se um discreto e progressivo abandono do socialismo.
Porém, o capitalismo, a despeito de todo o cortejo de crises, tem-se mantido ao longo de séculos. Urge meditar nesta incontornável verdade e parece-me que a conclusão não poderá ser outra senão que a alternativa socialista (no sentido marxista-leninista e não na actual conotação de ideologia de centro esquerda) é inválida. Uma formidável superpotência, como a URSS, não cai sem que haja causas internas. Muitos dos atributos negativos que Mariana, não sem razão, aponta ao capitalismo, encontravam-se presentes nos regimes socialistas. As pessoas não eram felizes. Posso afiançar eu, que viajei pela Hungria, Roménia e Jugoslávia em 1980 e tive oportunidade de conviver também com jovens polacos e da RDA (Alemanha de Leste). As diversas formas de alienação do trabalhador pela máquina produtiva, sabiamente dissecadas por Karl Marx, estavam também presentes nos regimes. Eram mesmo mais gravosas que nos regimes capitalistas democráticos. No que toca a política ambiental, pior do que desinteresse pelo meio-ambiente, acalentavam uma posição de hostilidade para com a natureza. A secagem do mar Aral, iniciada durante o período soviético, era vista como a correcção dum “erro da natureza”. O regime maoista foi campeão na desflorestação e tentativa de extinção de aves.
Mas, permita-se-me um regresso ao capitalismo e meditar nas razões do seu “sucesso”, ou, melhor dizendo, da sua sobrevivência. Uma desvantagem fatal dos sistemas nascidos da Revolução de Outubro foi a rigidez ideológica que travou o espírito crítico e liberdade de pensamento, fonte de inovação adaptativa. Já o capitalismo, mais preocupado com os resultados práticos do que com pureza ideológica, tem demonstrado uma capacidade de adaptação pragmática ao ponto de não rejeitar enxertos, se assim se pode dizer, “marxistas”, para se reformar. Nesta adaptabilidade do capitalismo estará a explicação para a sua resiliência face a crises de proporções bíblicas, como a Grande Depressão, iniciada em 1929. Aliás, é difícil negar que não há capitalismo, mas capitalismos. Muito diferentes são a versão chinesa - capitalismo puro e duro - e as variantes social-democratas típicas dos países nórdicos.
Mas, goste-se ou não, o facto é que o capitalismo, nos últimos decénios, permitiu que centenas de seres humanos ultrapassassem o limiar da pobreza, da China e sul da Ásia até à América Latina. Porém, a situação é mais complexa e o futuro perspectiva-se nada promissor. Se, no pós-guerra, as classes operárias e trabalhadores de um modo geral viram a sua situação económica melhorar substancialmente, registando-se um movimento de ascensão social nos EUA e Europa, já desde os anos 70 se vem notando uma degradação do nível de vida da classe média, acompanhada de aumento da riqueza dos muito ricos, aumentando assim o fosso entre as classes sociais. Quer isto dizer que o velho Karl Marx talvez não esteja tão errado assim, ao prever que o capitalismo empurraria crescentes camadas da população para a proletarização.
A menos que o capitalismo se renove de forma radical, não é seguramente regime que auspicie futuro risonho para a Humanidade. O problema continua a ser: onde está a alternativa?
Painéis fotovoltaicos da Renova: e um bocadinho de interesse municipal agora ao contrário? - joão carlos lopes
» 2025-12-10
Na recente reunião do executivo municipal em que foi debatida a questão dos painéis fotovoltaicos da Renova, o presidente da Câmara, José Trincão Marques, recordou o seu papel assertivo, então enquanto presidente da assembleia municipal, na polémica sobre o acesso à nascente do rio Almonda, que foi tema recorrente nestas páginas nos anos 2020/2023. |
Transparência ou opacidade, eis a questão! - antónio mário santos
» 2025-12-05
Uma nova geração (parte de, sejamos exactos) a dirigir o município, conforme citou na última sessão extraordinária o actual presidente do executivo camarário, José Manuel Trincão Marques. |
Presidenciais, o grau de ressentimento - jorge carreira maia
» 2025-12-05
» Jorge Carreira Maia
As próximas eleições presidenciais vão medir o grau de ressentimento político dos portugueses. Em teoria, há quatro candidatos que podem aspirar a passar à segunda volta. Para usar uma classificação de um amigo, temos duas rainhas de Inglaterra (Marques Mendes e António José Seguro) e dois caudilhos (Gouveia e Melo e André Ventura). |
Gente nova, poder novo. Caminho certo? - antónio mário santos
» 2025-11-22
» António Mário Santos
Ainda não assentou a poeira do espanto e da tristeza das eleições municipais e já a boataria fervilha nas redes sociais. Da reunião mal-esclarecida entre o recém presidente José Manuel Trincão Marques e o líder da oposição Tiago Ferreira, encontra-se uma descrição em O Mirante, que informa que este último quis fumar o cachimbo de paz com o presidente socialista, desde que este lhe cedesse três lugares a tempo inteiro na vereação, e a vice-presidência do executivo. |
Sal e azar - carlos paiva
» 2025-11-22
» Carlos Paiva
A geração de transição, a última a sacrificar a sua vida à ditadura, a que entregou a melhor fase da capacidade produtiva à guerra, à realidade do analfabetismo, iliteracia, mortalidade infantil ao nível do Terceiro Mundo (faziam-se dez filhos para sobreviverem dois), agricultura de subsistência, escravidão fabril, feudalismo empresarial e que concebeu os seus filhos pouco antes da queda do fascismo, está a desaparecer. |
Manuel Ribeiro (1878-1941) - jorge carreira maia
» 2025-11-22
» Jorge Carreira Maia
Como em todas as literaturas, também na portuguesa existe um cânone. No romance, Camilo Castelo Branco, Eça de Queirós, Agustina Bessa-Luís ou José Saramago pertencem, de forma permanente, ao cânone. Outras entrarão e sairão dele em conformidade com os humores do dia. |
É só fazer as contas - antónio gomes
» 2025-11-09
» António Gomes
Os resultados eleitorais são de todos conhecidos, assim como os vencedores e os vencidos. A democracia que dizem alguns, está doente e corre o risco de entrar em coma ditou para o concelho de Torres Novas o fim da maioria absoluta do PS, embora conservando a presidência da câmara por uma unha negra, tal como há 32 anos atrás, pouco mais de 80 votos. |
As esquerdas, as eleições municipais, o que se seguirá… -antónio mário santos
» 2025-11-09
» António Mário Santos
«o sectarismo, a característica mais tóxica da esquerda portuguesa, tem destas coisas. Leva quem não se olha ao espelho a ignorar o mundo ou, pior, a fingir que as dificuldades estão na casa do lado» - Francisco Louçã, Público, 3 de Novembro A esquerda portuguesa está em crise. |
Da evolução das espécies - carlos paiva
» 2025-11-09
» Carlos Paiva
No início dos anos noventa do século passado a Internet deu os primeiros passos em Portugal. Primeiro pela comunidade científica e académica, depois, muito rapidamente, expandiu-se às empresas e cidadãos comuns. |
Os três salazares - jorge carreira maia
» 2025-11-09
PRIMEIRO SALAZAR. Foi um ditador cinzento e manhoso. Tinha a virtude de odiar políticos histriónicos e espalhafatosos. Esse ódio virtuoso, porém, era acompanhado por outros ódios nada virtuosos. Odiava, antes de tudo, a liberdade. |