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Quando a pedra é o sapato

Opinião  »  2019-06-06  »  Ana Sentieiro

"O traje, para além de representar a academia minhota, subscreve um acordo de fidelidade com a dor e desencontro com as temperaturas ambientais"

Ontem trajei pela primeira vez. A Noite de Serenatas enlatou a comunidade académica da Universidade do Minho no Largo da Sé. A escuridão dos trajes iluminava os corações dos presentes, aquecia os abraços e motivava as lágrimas ao som da melodia das guitarras portuguesas. Tenho apenas dois aspetos a destacar nesta proposital decisão de vestir o preto e não partir para norte para combater selvagens ou white walkers em nome da Night’s Watch (“Patrulha da Noite”). Caso o leitor não tenha entendido esta última referência, tenho uma sugestão a fazer: Game of Thrones. Ora muito bem, o traje, para além de representar a academia minhota, subscreve um acordo de fidelidade com a dor e desencontro com as temperaturas ambientais. Se está frio, o traje não impedirá a ereção dos pelos e a contração dos músculos como tentativa de combater a falta de agasalho. Por outro lado, se estiver calor, o suor escorrerá elegantemente pela testa e ensopará a camisa com 7 botões abotoados. Mas caso esteja uma aragem agradável de 4 km/h, um ambiente ameno com exatamente 21,7 graus celsius, 3 nuvens no céu e à sombra, o traje é perfeitamente adequado. Ontem percebi porque é que a imagem do super-herói insiste na capa: é estiloso ao ponto de elevar a noção de estilo. Uma vulgar caminhada na rua, transforma-se numa compilação ritmada de passos sobre um tapete de nuvem celestial acompanhada de chamas dos dois lados, tudo isto em câmera lenta, claro! Aliás, o afixo “super” deriva lógica e morfologicamente do termo “capa”. Sinto-me qualificada para montar um dragão (peço mais uma vez desculpa aos leitores que não acompanham a série Game of Thrones, talvez devessem reconsiderar!). A noite rasgou os tons alaranjados de uma tarde de primavera e eu, com capa sobre os ombros, saí de casa e juntei-me aos meus amigos, com suas capas igualmente sobre os ombros e juntos começámos a travessia em tom de desfile de personalidades poderosas até ao centro. As horas passaram e, afogados num mar preto com cheiro a cerveja e acordes de guitarra, decidimos regressar a casa. A capa que, no início da noite, esvoaçava com fluidez e me fazia sentir capaz de qualquer coisa (até mesmo de fazer duas elevações seguidas!), pesava mais do que a mochila de segunda-feira no oitavo ano, quando tinha Ciência Naturais, Matemática, Francês, Inglês, EVT, Físico-química e Música (e era obrigada a levar a flauta na mão pois não havia espaço, nem para uma daquelas mini borrachas da maped que acabaria perdida no chão da sala de estudo). A saia apertava a cintura depois dos dois cheeseburgers no McDonald’s. A gola da camisa... nem me tinha apercebido da gola da camisa desconfortavelmente subida até aquele momento!... E que pedra é esta no meu pé que me faz querer chorar de dor?! Oh, espera, afinal é apenas o sapato preto com um salto de três centímetros e numerosas agulhas escondidas na sola, perfurando a minha boa disposição e calcando o meu estado de espírito como se de um foxtrot se tratasse. Este quadro sequencial de eventos, separados apenas por uma breve linha temporal, representa o glorioso despique que é o percurso académico desde o primeiro ao segundo semestre. O início do ano, à semelhança do início da noite, é caracterizado pela atitude positiva, a confiança que se reflete na meticulosa escolha de conjuntos de roupa e a motivação alimenta o estudo. É apenas uma questão de tempo até os trabalhos de grupo pesarem nos ombros, a preocupação com a roupa apertar na cintura e optar por umas calças de fato de treino e uma sweater do curso, com as meias do pijama. O tempo livre começa a apertar no pescoço e as cadeiras teóricas tornam-se uma pedra no sapato. Não! Aliás! Tornam-se o próprio sapato, que aperta o pé que só quer respirar, à semelhança do cérebro, que só quer fazer uma maratona de Game of Thrones até às cinco da manhã, com pipocas, num sofá para três, partilhado por cinco pessoas, com uma manta sobre as pernas. Na reta final até casa, descalcei-me! Não aguentei a dor! Desisti... ouvi “recurso”?! Pousei a caneta e estarei cá em Julho, muito provavelmente de chinelo de dedo e a saber diferenciar desvio padrão de desvio médio, interpretando-o através de uma tabela que relaciona três variáveis cuja significância é 0,062 (?).

 

 

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