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A crescente pobreza e a irresponsabilidade de alguns

Opinião  »  2014-03-28  »  João Quaresma

De acordo com as estatísticas publicadas pelo INE, sem as pensões de reforma e as transferências sociais do Estado, mais de quatro milhões de portugueses estariam em risco de pobreza. Um quinto dos portugueses vive com menos de 360 euros por mês. E 32% da população ativa entre os 16 e os 34 anos seria pobre se dependesse só do seu trabalho. Um professor da Universidade Católica aponta que esta tendência nasceu com o fim da ditadura em Portugal e a criação da Segurança Social moderna. ”Antes, Portugal tinha das mais altas taxas de poupança do mundo porque as pessoas não contavam com o dinheiro do Estado”, concluiu o economista João César Das Neves.

É só levantar o tapete e ver o lixo que esteve escondido durante o tempo das vacas gordas e que agora, pouco a pouco, vamos vendo evidenciado no dia a dia. Hoje em dia, com as dificuldades que as pessoas estão a passar, é quase ofensivo dizer que há um lado bom na crise. Mas sou daqueles que entende que sim, que há um lado positivo. Estamos todos mais sensíveis e atentos para a realidade social que nos rodeia. Atentos aos abusos, atentos aos casos de gestão danosa na gestão pública, atentos à demagogia de ação de alguns intérpretes da vida política portuguesa, que parecem por vezes ter artes de magia para conseguir superar com ligeireza o fosso em que nos encontramos.

Não é só pelo futebol que somos falados pela Europa e mundo fora. Também a nível do fosso em que estamos metidos, somos falados. O fosso entre pobres e ricos em Portugal é o maior no conjunto dos países da União Europeia.

Noticia alarmante. Não será tempo, de os responsáveis políticos máximos em Portugal, pararem para pensar e em conjunto com o contributo de individualidades independentes e de reconhecido mérito sufragarem um entendimento mútuo que determine um rumo que nos leve a crescer, que nos leve a eliminar a pobreza extrema?

Pensamos que seria este o caminho. Um caminho que ao invés de apenas subsidiar a pobreza (rendimento social de inserção), se preocupe efetivamente em criar condições de inserir e motivar quem necessita. Incrementar a coesão territorial com uma verdadeira estratégia política de eficiência coletiva que passe por uma maior articulação entre Governo e municípios para manutenção de todos os serviços nas áreas de baixa densidade como tribunais, serviços de finanças, segurança social, serviços de saúde e demais serviços públicos de proximidade, com o reforço das competências dos segundos na gestão dos respetivos equipamentos e recursos humanos. Definir políticas que visem a humanização dos territórios do interior, através do aproveitamento das suas riquezas, através do fomento estatal ao investimento privado nestas áreas. Substituição do rendimento social de inserção, pela criação de um sistema de incentivos fiscais, de base nacional, em sede de IRC e IRS que potenciem a implementação de empresas e a fixação de pessoas fora dos grandes aglomerados urbanos.

Ao invés, a responsabilidade politica, económica e social das elites da sociedade portuguesa, principalmente das elites políticas, aquelas que efetivamente tem poder legislativo, não é praticada e nem sequer é assumida com carácter e convicção neste sentido que aqui referimos. Não basta levantar o tapete e constatar que há lixo escondido. É preciso varrer e afastar dos cargos públicos quem não sabe gerir a coisa pública e quem não pensa com sentido de responsabilidade, por todos nós.

 

 

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