Comemorações e efemérides - antónio mário santos
Opinião
» 2023-10-08
» António Mário Santos
"“O cinquentenário deixa-me a sensação de que o que se vai promover é um suspiro de alívio por a Liberdade ter durado tanto."
A minha costela de investigador de história, sempre sensível às efemérides e suas comemorações, ante o uso e abuso que delas fazem as estruturas dos poderes (sempre interligadas e cada uma per si a procurar o seu poleiro próprio), coloca-me numa posição de inconformismo céptico.
O caso recente, da Jornada Mundial da Juventude, com bispos, presidentes de Câmara, primeiro-ministro, presidente da República, todos em bicos dos pés para a fotografia da celebridade e do proveito, foi um dos exemplos magníficos desse abuso de aproveitamento dum turismo religioso, sob bênção papal, com nenhuns resultados visíveis de melhoria da qualidade de vida da juventude portuguesa, obrigada, por necessidade de uma vida digna, ao abandono da sua própria pátria.
Um próximo, o cinquentenário do 25 de Abril em 2024, deixa-me a sensação de que o que se vai promover é um suspiro de alívio por a Liberdade ter durado tanto. Não creio que os promotores revelem a frustração nacional de, em cinco décadas, se ter atabalhoadamente resolvido, dos três Dês do programa revolucionário do MFA, mal o Democratizar, razoavelmente o Descolonizar, tendo ficado por cumprir o Desenvolver.
Pessoalmente, sou dos que, passados quase cinquenta anos, continua a denunciar que a revolução, de forma astuta, foi abocanhada pelos que, instantâneos, puseram o cravo vermelho na lapela, de imediato se crustaciaram aos poderes do Estado, da Economia e da Sociedade, de braço dado com as famílias que, no fascismo, eram o seu suporte.
Cresceu, pandemicamente, uma chusma de mandíbulas orquestradas que, liberais por iniciação e segredo, capitalistas por intenção, entre si partilharam o que havia a partilhar, mantendo as desigualdades entre capital e trabalho, alargando cada vez mais o fosso entre o direito a uma vida decente e o espectro cada vez mais sombrio da sobrevivência da sociedade portuguesa.
Somos hoje, como há 50 anos, um país dos três efes, com uma informação livre, mas pouco, dominada pelo poder político ou financeiro ou por eles perseguida e silenciada, mentalizado para um individualismo e um egoísmo destruidor de qualquer tipo de solidariedade e do activismo colectivo.
Cinquenta anos depois, continuamos na cauda da Europa, sob a governança de elites cada vez mais conjugadas na defesa dos seus interesses, sufragadas por um povo aliterato e individualista, que coloca o seu voto em quem perpetua as desigualdades económicas e sociais, num masoquismo sempre insatisfeito, misto de resignação e de messianismo.
Localmente, a comemoração dos 130 anos do nascimento da escritora Maria Lamas, com celebrações diversas em 2023 e 2024 deixa-me, em simultâneo, interessado e inquieto. Não pela figura, que ultrapassou, durante a sua vida, em importância e prestígio, o local onde nasceu e à qual, ligada por relações sentimentais, deu o seu contributo, de forma esporádica, nas décadas de trinta e quarenta, quer na imprensa local, quer como oradora. Mas pelas figuras locais que, durante o fascismo, por ela se bateram, pelas mulheres da sua terra que mantiveram o seu nome e o seu combate emancipador. Há um passado que, com o desaparecimento dos intervenientes, e com poucas fontes documentais a escrutinar, se sujeita a, mesmo de forma inconsciente, deturpações e erros.
Seria bom que o aniversário dos 130 anos do nascimento de Maria Lamas abrisse, em definitivo, as portas a uma investigação desse longo período da história concelhia. Maria Lamas, se viva, decerto o defenderia.
© 2026 • www.jornaltorrejano.pt • jornal@jornaltorrejano.pt
Comemorações e efemérides - antónio mário santos
Opinião
» 2023-10-08
» António Mário Santos
“O cinquentenário deixa-me a sensação de que o que se vai promover é um suspiro de alívio por a Liberdade ter durado tanto.
A minha costela de investigador de história, sempre sensível às efemérides e suas comemorações, ante o uso e abuso que delas fazem as estruturas dos poderes (sempre interligadas e cada uma per si a procurar o seu poleiro próprio), coloca-me numa posição de inconformismo céptico.
O caso recente, da Jornada Mundial da Juventude, com bispos, presidentes de Câmara, primeiro-ministro, presidente da República, todos em bicos dos pés para a fotografia da celebridade e do proveito, foi um dos exemplos magníficos desse abuso de aproveitamento dum turismo religioso, sob bênção papal, com nenhuns resultados visíveis de melhoria da qualidade de vida da juventude portuguesa, obrigada, por necessidade de uma vida digna, ao abandono da sua própria pátria.
Um próximo, o cinquentenário do 25 de Abril em 2024, deixa-me a sensação de que o que se vai promover é um suspiro de alívio por a Liberdade ter durado tanto. Não creio que os promotores revelem a frustração nacional de, em cinco décadas, se ter atabalhoadamente resolvido, dos três Dês do programa revolucionário do MFA, mal o Democratizar, razoavelmente o Descolonizar, tendo ficado por cumprir o Desenvolver.
Pessoalmente, sou dos que, passados quase cinquenta anos, continua a denunciar que a revolução, de forma astuta, foi abocanhada pelos que, instantâneos, puseram o cravo vermelho na lapela, de imediato se crustaciaram aos poderes do Estado, da Economia e da Sociedade, de braço dado com as famílias que, no fascismo, eram o seu suporte.
Cresceu, pandemicamente, uma chusma de mandíbulas orquestradas que, liberais por iniciação e segredo, capitalistas por intenção, entre si partilharam o que havia a partilhar, mantendo as desigualdades entre capital e trabalho, alargando cada vez mais o fosso entre o direito a uma vida decente e o espectro cada vez mais sombrio da sobrevivência da sociedade portuguesa.
Somos hoje, como há 50 anos, um país dos três efes, com uma informação livre, mas pouco, dominada pelo poder político ou financeiro ou por eles perseguida e silenciada, mentalizado para um individualismo e um egoísmo destruidor de qualquer tipo de solidariedade e do activismo colectivo.
Cinquenta anos depois, continuamos na cauda da Europa, sob a governança de elites cada vez mais conjugadas na defesa dos seus interesses, sufragadas por um povo aliterato e individualista, que coloca o seu voto em quem perpetua as desigualdades económicas e sociais, num masoquismo sempre insatisfeito, misto de resignação e de messianismo.
Localmente, a comemoração dos 130 anos do nascimento da escritora Maria Lamas, com celebrações diversas em 2023 e 2024 deixa-me, em simultâneo, interessado e inquieto. Não pela figura, que ultrapassou, durante a sua vida, em importância e prestígio, o local onde nasceu e à qual, ligada por relações sentimentais, deu o seu contributo, de forma esporádica, nas décadas de trinta e quarenta, quer na imprensa local, quer como oradora. Mas pelas figuras locais que, durante o fascismo, por ela se bateram, pelas mulheres da sua terra que mantiveram o seu nome e o seu combate emancipador. Há um passado que, com o desaparecimento dos intervenientes, e com poucas fontes documentais a escrutinar, se sujeita a, mesmo de forma inconsciente, deturpações e erros.
Seria bom que o aniversário dos 130 anos do nascimento de Maria Lamas abrisse, em definitivo, as portas a uma investigação desse longo período da história concelhia. Maria Lamas, se viva, decerto o defenderia.
A educação das massas
» 2026-08-08
» Acácio Gouveia
A esquerda tem uma explicação para a viragem à direita que tem assolado a Europa (e não só): a culpa é da governação da direita moderada que leva as massas, frustradas nas suas expectativas, a aderir ao discurso populista da extrema-direita. |
Ajuste de contas, ou apenas eventuais dificuldades?
» 2026-08-08
» António Gomes
As justificações que o presidente da Câmara de Torres Novas tem apresentado para as dificuldades da governação local prendem-se, sobretudo, com a herança que encontrou. “Estou a resolver casos com 20 anos e mais, se querem saber quais perguntem-me que eu digo. |
Caderneta completa
» 2026-08-08
» Carlos Paiva
Torres Novas está prestes a completar a caderneta. Faltava o Mercadona, ele aí vem. Acontece sempre uma sensação de excitação e plenitude quando finalmente o cromo em falta se revela ao abrir a saqueta. Claro que a defesa do comércio tradicional, argumento de vendas em várias campanhas e discursos, foi defendido heroicamente. |
Leituras de férias
» 2026-08-08
» Jorge Carreira Maia
Agosto, tempo de férias para muitos. Não tanto para mim, pois cheguei àquela fase da existência em que todos os tempos são de férias. Deixo, porém, algumas sugestões de leitura. Comecemos pela mais surpreendente. |
É tempo de mudança
» 2026-07-07
» António Mário Santos
Algo que deveria fazer parte da agenda de quem quer seguir a carreira política: não descer ao facilitismo de promessas. Muitas vezes, quando a inexperiência ainda não carreou o cimento necessário à estabilidade da actividade política, tenta-se acreditar que basta uma atitude mais assertiva para o que se encontra há muito emperrado ceder à pressão da urgência do desbloqueio, já que a sua manutenção, sem fim à vista, cria uma atitude de protesto e desagrado populacional, e gera um sem número de interrogações, onde os quem, os porquês, se misturam num diz-se diz-se dificilmente removíveis do desencanto público. |
É só uma fase
» 2026-07-07
» Carlos Paiva
O ciclo de vida de uma área de negócio (empresa, departamento, produto) compreende cinco fases: desenvolvimento, crescimento, maturidade, declínio e extinção. Algures durante a fase de maturidade é onde se deve intervir, com o objectivo de evitar as duas fases seguintes. |
Mundial de Futebol e Tour de França
» 2026-07-07
» Jorge Carreira Maia
Dois grandes acontecimentos desportivos: o Mundial de Futebol e o Tour de França, a começar dia 4. Não vou escrever sobre nenhum deles, nem sequer sobre o desempenho de Portugal, de que só conheço o da fase de grupos. |
Rio Almonda: uma masturbação torrejana - joão carlos lopes
» 2026-06-23
É só uma questão de fazermos comparações: o que falta para aí é equipas de três ou quatro pessoas a fazer tarefas inúteis ou para encher pneus, e ninguém se sobressalta. Pessoas que não têm culpa nenhuma, é claro. |
Julgam-se donos disto tudo
» 2026-06-20
» António Gomes
A luta que as populações travam contra a localização da fábrica de biometano em Árgea, ou noutras localidades de Portugal ou mesmo da Europa, é uma luta justa. É uma luta em defesa da sua vida em comunidade, pela sua segurança, pelo seu futuro, pela sua qualidade de vida, pela sua saúde. |
Seis meses já dão para refletir se há ou não mudança?
» 2026-06-20
» António Mário Santos
Tenho, no ano que corre, seguido com a maior atenção as sessões públicas, quer do executivo camarário, quer da Assembleia Municipal, algo que nunca fiz nas duas últimas décadas. A maioria absoluta do Partido Socialista, no município, criara uma mentalidade de arrogância autoritária, geradora, por um lado, dum distanciamento entre governantes e governados, e, por outro, na formação duma coorte de lambebotismo acéfalo, cujos interesses próprios ou familiares assentavam na oportunidade de emprego nos quadros do pessoal municipal, nas bem aventuranças de subsídios, na aprovação de projectos de obras nunca bem clarificados, em festas e publicidade a esmo, num despesismo rotineiro não fiscalizado, que deixava um rasto de dúvidas sobre a legalidade de muitos actos de gestão. |
|
» 2026-08-08
» António Gomes
Ajuste de contas, ou apenas eventuais dificuldades? |
|
» 2026-08-08
» Acácio Gouveia
A educação das massas |
|
» 2026-08-08
» Carlos Paiva
Caderneta completa |
|
» 2026-08-08
» Jorge Carreira Maia
Leituras de férias |