Teixeira de Queiroz e o mundo português - jorge carreira maia
Opinião
» 2024-06-11
» Jorge Carreira Maia
Hoje desconhecido do grande público, Francisco Teixeira de Queiroz foi um dos grandes escritores portugueses dos finais do século XIX e inícios do século XX. A Imprensa Nacional começou, em 2020, a republicar as obras do escritor nascido em Arcos-de-Valdevez, que chegou a ser deputado e Ministro dos Negócios Estrangeiros na Primeira República. Teixeira de Queiroz inscreve-se na mesma corrente literária, ou nas mesmas correntes, de Eça, o realismo e o naturalismo. Escreveu, com um título influenciado por Balzac, duas grandes séries de romances e narrativas, uma designada Comédia do Campo e outra Comédia Burguesa. São retratos da vida portuguesa no final do século XIX, embora a segunda se situe, essencialmente, no universo lisboeta, que vivia, na época, a transição, nas relações de poder, da aristocracia para a burguesia.
“A primeira vez que Salústio Nogueira entrou na Câmara dos Deputados, como eleito do povo, foi sob o patrocínio de uma senhora, D. Josefa Lencastre, que, num baile de caridade, no Clube, disse ao ministro da Guerra: Tenho um grande favor a pedir-lhe, general.” Assim começa o segundo romance da Comédia Burguesa, com o título O Salústio Nogueira – Estudo de política contemporânea. A conversa entre a jovem e bela D. Josefa e o ministro da Guerra prossegue, com ela a manipular o delíquio amoroso que habitava o coração do militar. Chegado o momento, ela diz: “Então aí vai o meu pedido: eu quero que o senhor me faça um deputado.” Ao que o General respondeu: “Ora adeus! ... Era isso?! Deputados! ... Faço-lhe dois ... Faço-lhe vinte de uma vez, se Vossa Excelência mo pedir.” E acrescentou: “Faço-lhe um ministro aqui de pronto.”
Será o Portugal político do século XXI tão diferente daquele que Teixeira de Queiroz descreve? Não temos Rei, as famílias aristocráticas – D. Josefa Lencastre era sobrinha da Viscondessa de Águas Santas – são uma relíquia e os generais de hoje estão, por enquanto, mais distantes da política. Será, porém, o método de produção de deputados e até de ministros tão diferente? Teixeira de Queiroz, em meia dúzia de linhas, mostra-nos a íntima relação entre eros e poder, o sistema de cunhas que domina a vida social portuguesa e a força que sustenta, no nosso país, aquilo que antigamente se dava o nome de videirinhos. Tudo isto continua vivo e de boa saúde, embora com outros protagonistas. Não somos nórdicos e a nossa cultura ancestral é esta. A literatura serve para muitas coisas. Uma delas é mostrar aquilo que um povo é. Teixeira de Queiroz é um dos que o fez com talento. Merece que se volte a ele.
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Teixeira de Queiroz e o mundo português - jorge carreira maia
Opinião
» 2024-06-11
» Jorge Carreira Maia
Hoje desconhecido do grande público, Francisco Teixeira de Queiroz foi um dos grandes escritores portugueses dos finais do século XIX e inícios do século XX. A Imprensa Nacional começou, em 2020, a republicar as obras do escritor nascido em Arcos-de-Valdevez, que chegou a ser deputado e Ministro dos Negócios Estrangeiros na Primeira República. Teixeira de Queiroz inscreve-se na mesma corrente literária, ou nas mesmas correntes, de Eça, o realismo e o naturalismo. Escreveu, com um título influenciado por Balzac, duas grandes séries de romances e narrativas, uma designada Comédia do Campo e outra Comédia Burguesa. São retratos da vida portuguesa no final do século XIX, embora a segunda se situe, essencialmente, no universo lisboeta, que vivia, na época, a transição, nas relações de poder, da aristocracia para a burguesia.
“A primeira vez que Salústio Nogueira entrou na Câmara dos Deputados, como eleito do povo, foi sob o patrocínio de uma senhora, D. Josefa Lencastre, que, num baile de caridade, no Clube, disse ao ministro da Guerra: Tenho um grande favor a pedir-lhe, general.” Assim começa o segundo romance da Comédia Burguesa, com o título O Salústio Nogueira – Estudo de política contemporânea. A conversa entre a jovem e bela D. Josefa e o ministro da Guerra prossegue, com ela a manipular o delíquio amoroso que habitava o coração do militar. Chegado o momento, ela diz: “Então aí vai o meu pedido: eu quero que o senhor me faça um deputado.” Ao que o General respondeu: “Ora adeus! ... Era isso?! Deputados! ... Faço-lhe dois ... Faço-lhe vinte de uma vez, se Vossa Excelência mo pedir.” E acrescentou: “Faço-lhe um ministro aqui de pronto.”
Será o Portugal político do século XXI tão diferente daquele que Teixeira de Queiroz descreve? Não temos Rei, as famílias aristocráticas – D. Josefa Lencastre era sobrinha da Viscondessa de Águas Santas – são uma relíquia e os generais de hoje estão, por enquanto, mais distantes da política. Será, porém, o método de produção de deputados e até de ministros tão diferente? Teixeira de Queiroz, em meia dúzia de linhas, mostra-nos a íntima relação entre eros e poder, o sistema de cunhas que domina a vida social portuguesa e a força que sustenta, no nosso país, aquilo que antigamente se dava o nome de videirinhos. Tudo isto continua vivo e de boa saúde, embora com outros protagonistas. Não somos nórdicos e a nossa cultura ancestral é esta. A literatura serve para muitas coisas. Uma delas é mostrar aquilo que um povo é. Teixeira de Queiroz é um dos que o fez com talento. Merece que se volte a ele.
A encíclica de Leão XIV - jorge carreira maia
» 2026-06-07
» Jorge Carreira Maia
A primeira encíclica do Papa Leão XIV – Magnifica Humanitas – toca em duas áreas fulcrais para a humanidade. A área da tecnologia e a área política. A Inteligência Artificial (IA) não é rejeitada pelo Vaticano. |
Minudências que consomem - carlos paiva
» 2026-06-07
» Carlos Paiva
A micro gestão, em inglês micromanagement, é um dos erros de gestão mais combatido nas estruturas empresariais. Caracterizada pela centralização de decisões, ausência de delegação de tarefas e responsabilidades, obsessão com detalhes e comunicação unilateral entre camadas hierárquicas. |
O precipício ao virar da esquina - antónio mário
» 2026-06-07
» António Mário Santos
Algo vem ganhando força e expressão, nos últimos tempos, a nível nacional: a consciência da ingovernabilidade do sistema político. O aumento do descontentamento popular, ante a realidade sociopolítica da degradação da qualidade de vida no mundo do capitalismo neoliberal, alimentou o crescimento da extrema-direita. |
A verdade dos números - antónio gomes
» 2026-06-07
» António Gomes
Realizou-se recentemente um debate sobre segurança e criminalidade em Torres Novas, promovido pela respectiva Assembleia Municipal e que contou com um conjunto de entidades oficiais – Secretária Geral do Sistema de Segurança Interna, comandante do Destacamento territorial da GNR, subcomissário da esquadra da PSP de Torres Novas, do coordenador da protecção Civil concelhia e ainda da procuradora da República e coordenadora da Comarca de Santarém. |
Labregos & rufiões - acácio gouveia
» 2026-06-07
» Acácio Gouveia
(...) e vi subir do mar uma besta que tinha sete cabeças e dez chifres, e sobre os chifres dez diademas, e sobre as cabeças um nome de blasfémia” - Apocalipse S. João 13.1 Parece mesmo um argumento de filme apocalíptico, saído dos estúdios de Holywood, candidato a um sucesso de bilheteira. |
O rio que maltratamos mata-nos a sede
» 2026-05-18
» António Mário Santos
Em 20 de Março último publiquei, neste periódico, um artigo intitulado «Falemos de Cultura e do que o Município pode criar». Apontava, entre outros aspectos, um dos erros que, na minha opinião, menorizava a dimensão da actividade, neste sector específico do município: a sua municipalização, assente na pura opção dos seus técnicos, sem atenção ao que, na comunidade, se ia construindo. |
Da importância da redenção
» 2026-05-18
» Jorge Carreira Maia
Descansemos do triste estado do mundo e falemos de outra coisa. Façamos mesmo como os jogadores de Xadrez do poema de Ricardo Reis: Ouvi contar que outrora, quando a Pérsia /Tinha não sei qual guerra, / Quando a invasão ardia na Cidade / E as mulheres gritavam, / Dois jogadores de xadrez jogavam / O seu jogo contínuo. |
Obras públicas concelhias
» 2026-05-18
» António Gomes
Deviam ser levadas a sério, com rigor e transparência. Mas não, em Torres Novas parece que é tudo ao contrário. Muitos se lembrarão ainda do que foi o calvário para concluir o edifício do antigo hospital, hoje Paços do Concelho, e mais recentemente o “bairro dos pobres”, bairro na Calçada António Nunes, entre outros… fez-se este caminho e parece que vai continuar. |
Todo bem vestido e sem sítio para ir
» 2026-05-18
» Carlos Paiva
Existirá sempre um leque de temas infelizes, más decisões, incompetências, desleixos, corrupção, para alimentar qualquer cronista em qualquer jornal local. A abundância temática por vezes é tal que se perde o foco no essencial e deriva-se para o acessório. |
A aposta na mobilidade não pode parar
» 2026-05-04
» António Gomes
Comemorámos o 25 de Abril e foi uma grande comemoração. Fiquei um pouco mais descansado quanto ao futuro da nossa Liberdade, a rua em 1974 foi o que decidiu o desfecho daquela data e agora, no 52.º aniversário, a rua voltou a não deixar dúvidas absolutamente nenhumas, tantas foram as pessoas por esse País fora que quiseram dizer presente para assegurar a Democracia e a Liberdade. |
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» 2026-05-18
» Jorge Carreira Maia
Da importância da redenção |
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» 2026-05-18
» Carlos Paiva
Todo bem vestido e sem sítio para ir |
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» 2026-05-18
» António Gomes
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» 2026-05-18
» António Mário Santos
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» 2026-06-07
» Jorge Carreira Maia
A encíclica de Leão XIV - jorge carreira maia |