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Intervalo

Opinião  »  2020-04-05  »  Jorge Salgado Simões

"Não gosto de silêncios, nem de paragens, nem de isolamento. E nem todos vamos ficar bem."

O que mais me impressiona nos últimos dias é o silêncio. A sensação de que alguém carregou num botão e que, de repente, travámos a fundo, como se tudo isto fosse um grande intervalo indefinido. No terraço não se houve nada. Não é que antes se ouvisse grande coisa, mas bastava estar atento e havia aqui, no centro da cidade, um burburinho sempre latente. Hoje, não se ouve absolutamente nada.

As ruas estão vazias, os carros não circulam, as lojas estão fechadas e há um certo sem jeito de vida, manifesto em cumprimentos tímidos, afastados, comprometidos. Juro que, há dias, entre a casa e o trabalho, comecei mesmo a imaginar as ruas, estradas e passeios com ervas a crescer por todo o lado.

Rapidamente haverá quem caracterize esta cidade, que ainda estamos a experimentar: fechada, parada, calada, alerta, convalescente, distanciada, expectante. Mesmo em poucos quilómetros quadrados, estamos resumidos a uma urbanidade digital, compras on-line, teletrabalho, takeaway e videoconferências. Ao que parece, o futuro apanhou-nos. Eu não consigo. Desculpem, mas isto não é cidade, nem vida, nem nada.

Também me impressiona como é que aqui chegámos. Agora nem sequer se pode falar nisso, mas o atabalhoamento foi total: é como uma gripe; é só na China; não se transmite entre pessoas; é lá em Itália; depois em Espanha. Vai chegar a Portugal? Já chegou? E a Torres Novas? Quantos casos? Em que freguesia?

A História contava coisas similares, mas que nunca imaginámos voltar a viver. Parou tudo. A escola, a rotina, os ritmos da semana, os hábitos e todos os tipos de planos. Para já, são só dias suspensos que se sucedem a mais dias suspensos. Quando eles agora me perguntam se já chegou à Rua dos Ferreiros, eu digo-lhes que não sei. É que não sei mesmo, mas se calhar chega, ainda que não haja gente à janela. Porque janelas há, mas eles sabem que não há cá gente.

Não gosto de silêncios, nem de paragens, nem de isolamento. E nem todos vamos ficar bem. Mas também não é o fim do mundo. Este intervalo há de acabar.

 

 

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