Reflexões sobre a Democracia em Tempos de Turbulência - antónio mário santos
Opinião » 2024-02-04
Já, no passado, escrevi que só voltaria a crer numa justiça democrática em Portugal no dia em que Ricardo Salgado e José Sócrates se sentassem, em julgamento, no banco dos réus. O que tem acontecido nos últimos tempos abriu no meu cepticismo algumas frestas de esperança. Deve-se tal pé à frente, sem mover o da rectaguarda, às medidas tomadas que conduziram ao derruir, como um castelo de cartas, duma maioria absoluta do PS, por causa dum último parágrafo dum relatório do Ministério Público (claro que isso é a desculpa do primeiro-ministro agora em gestão, António Costa; o inquérito em desenvolvimento mostrará, julgo, as verdadeiras causas). Também à marcação do julgamento de Ricardo Salgado. Também da divulgação pública dos casos que actualmente assolam a Madeira e os seus altos dirigentes do PSD, como o presidente do governo regional Miguel Albuquerque, o presidente da Câmara do Funchal, Pedro Calado, e das relações promiscuas entre o poder político e o poder económico.
O meu benefício da dúvida ergueu mais a sua pequena onda de esperança, com a vitória do Ministério Público no tribunal da Relação, contra o branqueamento que o juiz Ivo Rosa fizera do programa Operação Marquês.
Três juízas, e escrevo-lhes os nomes, porque é tão raro um acto de regeneração jurídica ética como a que realizaram. E é bom conhecer as pessoas concretas, que tomam decisões concretas, como forma de defesa duma justiça democrática e sem dois pesos e duas medidas, como é, consenso público, a que nos tem servido nestas décadas em que faltou cumprir o Desenvolvimento, o terceiro D do programa do MFA, e o segundo, Democratizar, ficou-se pela aparência: uma para ricos, outra para os outros.
As juízas da Relação Raquel Lima, Micaela Freitas e Madalena Caldeira abriram uma página que nenhum partido político que vier a governar poderá, como tem acontecido nestas longas décadas depois do 25 de Novembro, varrer para debaixo do tapete.
Na altura em que o Supremo deliberou que os restos mortuários de Eça de Queirós podem ser tresladados para o Panteão Nacional, o «sobre a nudez forte da verdade, o manto diáfano da fantasia» que denunciou na sua obra romanesca (e não só), assume um alerta para a defesa da igualdade de tratamento dos cidadãos ante a justiça.
Num ano em que se comemoram os 50 anos do 25 de Abril, a ameaça real de a efeméride vir a ser festejada com os seus opositores assentes ou apoiantes num governo saído das eleições legislativas de Março, é saudável ver figuras da justiça portuguesa sacudir a sua submissão aos poderes subterrâneos do liberalismo económico, social e político.
E obriga-nos, por sua vez, como democratas do tempo do fascismo salazarista e marcelista, a alertar para o crescimento na «juventude» dos almanaques de ilusões com que as redes sociais os enredam, em promessas de mudança do sistema, que, qual cruzada Nun’Álvares do primeiro fascismo, o Chega vai espalhando como resultados duma raspadinha sempre premiada.
A liberdade é uma flor muito frágil. Fácil de ser destruída, muito difícil de voltar a ser conquistada.
As sondagens eleitorais que vão sendo publicadas, os caminhos da extrema-direita na Europa e dos EUA apontam para mundos autocráticos, onde as democracias sucumbem e as desigualdades se impõem. É da História, está nos livros. Infelizmente, os telemóveis e as redes sociais estão ao serviço dos donos disto tudo, substituíram a leitura e a reflexão crítica. Os tios Patinhas, que nunca marcaram passo nos exércitos que armam e fizeram as suas fortunas à custa da exploração dos legítimos protestos desses jovens que, para eles, não passam de carne para canhão dos seus interesses. Morta a democracia, regressa a desigualdade, a sobranceria, a censura, a violência, a desigualdade social, a perseguição política. A Rússia, a Argentina, a China, a Hungria, a Palestina, são exemplos que deveriam ser meditados.
Saber que certos donos disto tudo se irão sentar no banco dos réus portugueses, dá-nos esperança de que a Democracia resista contra as vagas da renovação do fascismo dos anos trinta do século passado.
Está nas nossas mãos!
© 2026 • www.jornaltorrejano.pt • jornal@jornaltorrejano.pt
Reflexões sobre a Democracia em Tempos de Turbulência - antónio mário santos
Opinião » 2024-02-04Já, no passado, escrevi que só voltaria a crer numa justiça democrática em Portugal no dia em que Ricardo Salgado e José Sócrates se sentassem, em julgamento, no banco dos réus. O que tem acontecido nos últimos tempos abriu no meu cepticismo algumas frestas de esperança. Deve-se tal pé à frente, sem mover o da rectaguarda, às medidas tomadas que conduziram ao derruir, como um castelo de cartas, duma maioria absoluta do PS, por causa dum último parágrafo dum relatório do Ministério Público (claro que isso é a desculpa do primeiro-ministro agora em gestão, António Costa; o inquérito em desenvolvimento mostrará, julgo, as verdadeiras causas). Também à marcação do julgamento de Ricardo Salgado. Também da divulgação pública dos casos que actualmente assolam a Madeira e os seus altos dirigentes do PSD, como o presidente do governo regional Miguel Albuquerque, o presidente da Câmara do Funchal, Pedro Calado, e das relações promiscuas entre o poder político e o poder económico.
O meu benefício da dúvida ergueu mais a sua pequena onda de esperança, com a vitória do Ministério Público no tribunal da Relação, contra o branqueamento que o juiz Ivo Rosa fizera do programa Operação Marquês.
Três juízas, e escrevo-lhes os nomes, porque é tão raro um acto de regeneração jurídica ética como a que realizaram. E é bom conhecer as pessoas concretas, que tomam decisões concretas, como forma de defesa duma justiça democrática e sem dois pesos e duas medidas, como é, consenso público, a que nos tem servido nestas décadas em que faltou cumprir o Desenvolvimento, o terceiro D do programa do MFA, e o segundo, Democratizar, ficou-se pela aparência: uma para ricos, outra para os outros.
As juízas da Relação Raquel Lima, Micaela Freitas e Madalena Caldeira abriram uma página que nenhum partido político que vier a governar poderá, como tem acontecido nestas longas décadas depois do 25 de Novembro, varrer para debaixo do tapete.
Na altura em que o Supremo deliberou que os restos mortuários de Eça de Queirós podem ser tresladados para o Panteão Nacional, o «sobre a nudez forte da verdade, o manto diáfano da fantasia» que denunciou na sua obra romanesca (e não só), assume um alerta para a defesa da igualdade de tratamento dos cidadãos ante a justiça.
Num ano em que se comemoram os 50 anos do 25 de Abril, a ameaça real de a efeméride vir a ser festejada com os seus opositores assentes ou apoiantes num governo saído das eleições legislativas de Março, é saudável ver figuras da justiça portuguesa sacudir a sua submissão aos poderes subterrâneos do liberalismo económico, social e político.
E obriga-nos, por sua vez, como democratas do tempo do fascismo salazarista e marcelista, a alertar para o crescimento na «juventude» dos almanaques de ilusões com que as redes sociais os enredam, em promessas de mudança do sistema, que, qual cruzada Nun’Álvares do primeiro fascismo, o Chega vai espalhando como resultados duma raspadinha sempre premiada.
A liberdade é uma flor muito frágil. Fácil de ser destruída, muito difícil de voltar a ser conquistada.
As sondagens eleitorais que vão sendo publicadas, os caminhos da extrema-direita na Europa e dos EUA apontam para mundos autocráticos, onde as democracias sucumbem e as desigualdades se impõem. É da História, está nos livros. Infelizmente, os telemóveis e as redes sociais estão ao serviço dos donos disto tudo, substituíram a leitura e a reflexão crítica. Os tios Patinhas, que nunca marcaram passo nos exércitos que armam e fizeram as suas fortunas à custa da exploração dos legítimos protestos desses jovens que, para eles, não passam de carne para canhão dos seus interesses. Morta a democracia, regressa a desigualdade, a sobranceria, a censura, a violência, a desigualdade social, a perseguição política. A Rússia, a Argentina, a China, a Hungria, a Palestina, são exemplos que deveriam ser meditados.
Saber que certos donos disto tudo se irão sentar no banco dos réus portugueses, dá-nos esperança de que a Democracia resista contra as vagas da renovação do fascismo dos anos trinta do século passado.
Está nas nossas mãos!
A encíclica de Leão XIV - jorge carreira maia
» 2026-06-07
» Jorge Carreira Maia
A primeira encíclica do Papa Leão XIV – Magnifica Humanitas – toca em duas áreas fulcrais para a humanidade. A área da tecnologia e a área política. A Inteligência Artificial (IA) não é rejeitada pelo Vaticano. |
Minudências que consomem - carlos paiva
» 2026-06-07
» Carlos Paiva
A micro gestão, em inglês micromanagement, é um dos erros de gestão mais combatido nas estruturas empresariais. Caracterizada pela centralização de decisões, ausência de delegação de tarefas e responsabilidades, obsessão com detalhes e comunicação unilateral entre camadas hierárquicas. |
O precipício ao virar da esquina - antónio mário
» 2026-06-07
» António Mário Santos
Algo vem ganhando força e expressão, nos últimos tempos, a nível nacional: a consciência da ingovernabilidade do sistema político. O aumento do descontentamento popular, ante a realidade sociopolítica da degradação da qualidade de vida no mundo do capitalismo neoliberal, alimentou o crescimento da extrema-direita. |
A verdade dos números - antónio gomes
» 2026-06-07
» António Gomes
Realizou-se recentemente um debate sobre segurança e criminalidade em Torres Novas, promovido pela respectiva Assembleia Municipal e que contou com um conjunto de entidades oficiais – Secretária Geral do Sistema de Segurança Interna, comandante do Destacamento territorial da GNR, subcomissário da esquadra da PSP de Torres Novas, do coordenador da protecção Civil concelhia e ainda da procuradora da República e coordenadora da Comarca de Santarém. |
Labregos & rufiões - acácio gouveia
» 2026-06-07
» Acácio Gouveia
(...) e vi subir do mar uma besta que tinha sete cabeças e dez chifres, e sobre os chifres dez diademas, e sobre as cabeças um nome de blasfémia” - Apocalipse S. João 13.1 Parece mesmo um argumento de filme apocalíptico, saído dos estúdios de Holywood, candidato a um sucesso de bilheteira. |
O rio que maltratamos mata-nos a sede
» 2026-05-18
» António Mário Santos
Em 20 de Março último publiquei, neste periódico, um artigo intitulado «Falemos de Cultura e do que o Município pode criar». Apontava, entre outros aspectos, um dos erros que, na minha opinião, menorizava a dimensão da actividade, neste sector específico do município: a sua municipalização, assente na pura opção dos seus técnicos, sem atenção ao que, na comunidade, se ia construindo. |
Da importância da redenção
» 2026-05-18
» Jorge Carreira Maia
Descansemos do triste estado do mundo e falemos de outra coisa. Façamos mesmo como os jogadores de Xadrez do poema de Ricardo Reis: Ouvi contar que outrora, quando a Pérsia /Tinha não sei qual guerra, / Quando a invasão ardia na Cidade / E as mulheres gritavam, / Dois jogadores de xadrez jogavam / O seu jogo contínuo. |
Obras públicas concelhias
» 2026-05-18
» António Gomes
Deviam ser levadas a sério, com rigor e transparência. Mas não, em Torres Novas parece que é tudo ao contrário. Muitos se lembrarão ainda do que foi o calvário para concluir o edifício do antigo hospital, hoje Paços do Concelho, e mais recentemente o “bairro dos pobres”, bairro na Calçada António Nunes, entre outros… fez-se este caminho e parece que vai continuar. |
Todo bem vestido e sem sítio para ir
» 2026-05-18
» Carlos Paiva
Existirá sempre um leque de temas infelizes, más decisões, incompetências, desleixos, corrupção, para alimentar qualquer cronista em qualquer jornal local. A abundância temática por vezes é tal que se perde o foco no essencial e deriva-se para o acessório. |
A aposta na mobilidade não pode parar
» 2026-05-04
» António Gomes
Comemorámos o 25 de Abril e foi uma grande comemoração. Fiquei um pouco mais descansado quanto ao futuro da nossa Liberdade, a rua em 1974 foi o que decidiu o desfecho daquela data e agora, no 52.º aniversário, a rua voltou a não deixar dúvidas absolutamente nenhumas, tantas foram as pessoas por esse País fora que quiseram dizer presente para assegurar a Democracia e a Liberdade. |
|
» 2026-05-18
» Jorge Carreira Maia
Da importância da redenção |
|
» 2026-05-18
» Carlos Paiva
Todo bem vestido e sem sítio para ir |
|
» 2026-05-18
» António Gomes
Obras públicas concelhias |
|
» 2026-05-18
» António Mário Santos
O rio que maltratamos mata-nos a sede |
|
» 2026-06-07
» Jorge Carreira Maia
A encíclica de Leão XIV - jorge carreira maia |