Mérito e inveja - jorge carreira maia
Opinião
» 2024-11-14
» Jorge Carreira Maia
O milagre – a eventual vitória de Kamala Harris nas eleições norte-americanas – esteve longe, muito longe, de acontecer. Os americanos escolheram em consciência e disseram claramente o que queriam. Não votaram enganados ou iludidos; escolheram o pior porque queriam o pior. Votaram em Trump pelos seus vícios e defeitos, que são os vícios e os defeitos dos eleitores. Rejeitaram Harris devido às suas virtudes. Esta podia ser uma má candidata, mas dificilmente alguém pode ser um presidente mais errático e perigoso do que Donald Trump – e disso há provas. E os eleitores sabem-no. Não o escolheram porque vai engrandecer a América, mas porque é misógino, racista, pouco ou nada respeitador das instituições. Pior: escolheram-no porque ele ameaça as instituições e a liberdade.
Kamala Harris sempre me pareceu uma má candidata. Porque era mulher e porque não era branca? Também por isso, mas essa não é a questão central. De facto, Kamala Harris é tudo aquilo que o eleitor de Trump odeia. Sabemos que ele não odeia a incompetência; odeia a virtude, a vida conseguida, a capacidade de afirmação. Kamala Harris é uma mulher que não veio das elites norte-americanas, mas é refinada e transpira superioridade, apesar da simpatia. Kamala Harris foi um espelho em que milhões de eleitores norte-americanos viram a sua própria derrota existencial. Ela conseguiu aquilo que muitos desejavam e não foram capazes. Não se trata de dinheiro, mas de classe. Os eleitores norte-americanos caíram uma vez com Obama; não caíram segunda com Harris. Uma parte da derrota da candidata democrata deve-se à pura inveja e ao ressentimento que a sua presença gera.
Harris, como Obama, são casos claros de uma cultura meritocrática, fundada em concepções liberais da sociedade. O filósofo norte-americano Michael J. Sandel escreveu, em 2020, um livro com o curioso título A Tirania do Mérito. Ele argumenta que esta tirania está a corroer as nossas sociedades e a empurrá-las para o populismo. As elites meritocráticas estão a afastar-se do homem comum, e esse afastamento, juntamente com a quebra do elevador social, gera um enorme ressentimento que se manifesta nas cabines de voto. Kamala Harris era uma má candidata – isso não significa que seria uma má presidente; são coisas diferentes – porque, quisesse ou não, ela era a face dessa elite que atormenta as entranhas do homem comum. Ela perde porque foi virtuosa na sua vida, perde porque é um caso de mérito. Ora, os democratas deviam ter lido com muita atenção o livro de Sandel. O resultado é o que se viu e o que se verá no futuro.
© 2025 • www.jornaltorrejano.pt • jornal@jornaltorrejano.pt
Mérito e inveja - jorge carreira maia
Opinião
» 2024-11-14
» Jorge Carreira Maia
O milagre – a eventual vitória de Kamala Harris nas eleições norte-americanas – esteve longe, muito longe, de acontecer. Os americanos escolheram em consciência e disseram claramente o que queriam. Não votaram enganados ou iludidos; escolheram o pior porque queriam o pior. Votaram em Trump pelos seus vícios e defeitos, que são os vícios e os defeitos dos eleitores. Rejeitaram Harris devido às suas virtudes. Esta podia ser uma má candidata, mas dificilmente alguém pode ser um presidente mais errático e perigoso do que Donald Trump – e disso há provas. E os eleitores sabem-no. Não o escolheram porque vai engrandecer a América, mas porque é misógino, racista, pouco ou nada respeitador das instituições. Pior: escolheram-no porque ele ameaça as instituições e a liberdade.
Kamala Harris sempre me pareceu uma má candidata. Porque era mulher e porque não era branca? Também por isso, mas essa não é a questão central. De facto, Kamala Harris é tudo aquilo que o eleitor de Trump odeia. Sabemos que ele não odeia a incompetência; odeia a virtude, a vida conseguida, a capacidade de afirmação. Kamala Harris é uma mulher que não veio das elites norte-americanas, mas é refinada e transpira superioridade, apesar da simpatia. Kamala Harris foi um espelho em que milhões de eleitores norte-americanos viram a sua própria derrota existencial. Ela conseguiu aquilo que muitos desejavam e não foram capazes. Não se trata de dinheiro, mas de classe. Os eleitores norte-americanos caíram uma vez com Obama; não caíram segunda com Harris. Uma parte da derrota da candidata democrata deve-se à pura inveja e ao ressentimento que a sua presença gera.
Harris, como Obama, são casos claros de uma cultura meritocrática, fundada em concepções liberais da sociedade. O filósofo norte-americano Michael J. Sandel escreveu, em 2020, um livro com o curioso título A Tirania do Mérito. Ele argumenta que esta tirania está a corroer as nossas sociedades e a empurrá-las para o populismo. As elites meritocráticas estão a afastar-se do homem comum, e esse afastamento, juntamente com a quebra do elevador social, gera um enorme ressentimento que se manifesta nas cabines de voto. Kamala Harris era uma má candidata – isso não significa que seria uma má presidente; são coisas diferentes – porque, quisesse ou não, ela era a face dessa elite que atormenta as entranhas do homem comum. Ela perde porque foi virtuosa na sua vida, perde porque é um caso de mérito. Ora, os democratas deviam ter lido com muita atenção o livro de Sandel. O resultado é o que se viu e o que se verá no futuro.
Transparência ou opacidade, eis a questão! - antónio mário santos
» 2025-12-05
Uma nova geração (parte de, sejamos exactos) a dirigir o município, conforme citou na última sessão extraordinária o actual presidente do executivo camarário, José Manuel Trincão Marques. |
Presidenciais, o grau de ressentimento - jorge carreira maia
» 2025-12-05
» Jorge Carreira Maia
As próximas eleições presidenciais vão medir o grau de ressentimento político dos portugueses. Em teoria, há quatro candidatos que podem aspirar a passar à segunda volta. Para usar uma classificação de um amigo, temos duas rainhas de Inglaterra (Marques Mendes e António José Seguro) e dois caudilhos (Gouveia e Melo e André Ventura). |
Gente nova, poder novo. Caminho certo? - antónio mário santos
» 2025-11-22
» António Mário Santos
Ainda não assentou a poeira do espanto e da tristeza das eleições municipais e já a boataria fervilha nas redes sociais. Da reunião mal-esclarecida entre o recém presidente José Manuel Trincão Marques e o líder da oposição Tiago Ferreira, encontra-se uma descrição em O Mirante, que informa que este último quis fumar o cachimbo de paz com o presidente socialista, desde que este lhe cedesse três lugares a tempo inteiro na vereação, e a vice-presidência do executivo. |
Sal e azar - carlos paiva
» 2025-11-22
» Carlos Paiva
A geração de transição, a última a sacrificar a sua vida à ditadura, a que entregou a melhor fase da capacidade produtiva à guerra, à realidade do analfabetismo, iliteracia, mortalidade infantil ao nível do Terceiro Mundo (faziam-se dez filhos para sobreviverem dois), agricultura de subsistência, escravidão fabril, feudalismo empresarial e que concebeu os seus filhos pouco antes da queda do fascismo, está a desaparecer. |
Manuel Ribeiro (1878-1941) - jorge carreira maia
» 2025-11-22
» Jorge Carreira Maia
Como em todas as literaturas, também na portuguesa existe um cânone. No romance, Camilo Castelo Branco, Eça de Queirós, Agustina Bessa-Luís ou José Saramago pertencem, de forma permanente, ao cânone. Outras entrarão e sairão dele em conformidade com os humores do dia. |
É só fazer as contas - antónio gomes
» 2025-11-09
» António Gomes
Os resultados eleitorais são de todos conhecidos, assim como os vencedores e os vencidos. A democracia que dizem alguns, está doente e corre o risco de entrar em coma ditou para o concelho de Torres Novas o fim da maioria absoluta do PS, embora conservando a presidência da câmara por uma unha negra, tal como há 32 anos atrás, pouco mais de 80 votos. |
As esquerdas, as eleições municipais, o que se seguirá… -antónio mário santos
» 2025-11-09
» António Mário Santos
«o sectarismo, a característica mais tóxica da esquerda portuguesa, tem destas coisas. Leva quem não se olha ao espelho a ignorar o mundo ou, pior, a fingir que as dificuldades estão na casa do lado» - Francisco Louçã, Público, 3 de Novembro A esquerda portuguesa está em crise. |
Da evolução das espécies - carlos paiva
» 2025-11-09
» Carlos Paiva
No início dos anos noventa do século passado a Internet deu os primeiros passos em Portugal. Primeiro pela comunidade científica e académica, depois, muito rapidamente, expandiu-se às empresas e cidadãos comuns. |
Os três salazares - jorge carreira maia
» 2025-11-09
PRIMEIRO SALAZAR. Foi um ditador cinzento e manhoso. Tinha a virtude de odiar políticos histriónicos e espalhafatosos. Esse ódio virtuoso, porém, era acompanhado por outros ódios nada virtuosos. Odiava, antes de tudo, a liberdade. |
Se me for permitido - antónio mário santos
» 2025-10-18
» António Mário Santos
Em democracia, o voto do povo é soberano. Tanto os vencedores, como os vencidos, devem reflectir no resultado das opções populares, como na consequência para os projectos com que se apresentaram na campanha. Sou um dos perdedores. |
|
» 2025-11-09
Os três salazares - jorge carreira maia |
|
» 2025-11-09
» António Gomes
É só fazer as contas - antónio gomes |
|
» 2025-11-09
» Carlos Paiva
Da evolução das espécies - carlos paiva |
|
» 2025-11-09
» António Mário Santos
As esquerdas, as eleições municipais, o que se seguirá… -antónio mário santos |
|
» 2025-11-22
» António Mário Santos
Gente nova, poder novo. Caminho certo? - antónio mário santos |