Os judeus e a guerra da Palestina
Opinião
» 2023-12-18
» António Mário Santos
É a própria imprensa israelita, o jornal Haaretz, que denuncia: a percentagem de mortos na Palestina é superior a qualquer guerra no século XX.
Relembro a minha visita ao campo de concentração de Dachau, em 1974. Ante o memorial concentracionário, a visão dum espaço onde a morte dos judeus era um acto legal do regime nazi, a minha solidariedade com a tragédia dum povo que nunca teve, desde os tempos bíblicos do Antigo Testamento, uma pátria, para quem a sobrevivência assentava na diáspora e na aceitação sempre limitada dos países que lhes abriam as portas, dependentes das suas capacidades, valores, conhecimentos, energias próprias, assumi, como modo de solidariedade, um estudo da sua existência na então vila torrejana, que, em séculos diferentes, nos foi berço.
Da minha parte, creio que cumpri, ao longo de décadas, pela investigação, escrita e publicação, essa promessa.
O povo judaico, por sua vez, assumiu a partilha da Palestina, o Estado de Israel foi criado em 1948, sob a complacência e proteccionismo dos EUA e dos países europeus, traumatizados pelas sua passividade, quando não aceitação, do Holocausto Nazi, uma diferenciação de tratamento entre os direitos do povo judeu e do povo aí residente, o palestiniano: a teoria dos dois Estados nunca foi cumprida por Israel, e o conservadorismo liberal, aliado ao fanatismo religioso corroeram, em cada ano de convivência, o estatuto dos direitos humanos dos palestinianos. As guerras surgidas, entre ambos, no século passado, mais agravaram as diferenças, e o território e os direitos palestinianos, quer na Cisjordânia, quer em Gaza, quer em Jerusalém, secundarizados, quotidianamente humilhados.
Gaza, hoje, provoca-me a mesma dor, o mesmo sofrimento, que senti em Dachau, li e vi em livros e documentários, sob o horror do Holocausto.
Condenei, de imediato, a acção do Hamas, considerando-a um acto iníquo de terrorismo. Mas o veto dos Estados Unidos, no Conselho de Segurança da ONU, impedindo a aprovação dum cessar-fogo imediato, demonstra como se tecem os fios dos interesses internacionais, ante a ameaça do desapoio judeu nas próximas eleições americanas. A extrema-direita fanática da religião judaica desenvolve uma política racista tão cruel e desumana como a fez a inquisição católica nos países da península Ibérica, ante a permissividade europeia e a incapacidade de controlo dos EUA-
O que se passa em Gaza ou na Cisjordânia, com a instalação ilegal e contra todas as determinações da ONU, não é unicamente a destruição dum grupo terrorista, o Hamas, mas a posse e domínio de todo o território palestiniano, por meio do uso indiscriminado e violenta da força bruta, contra uma população civil, na maioria mulheres e crianças, arrasando toas as infraestruturas, escolas, hospitais, mercados, administração, serviços de água, eletricidade, o que é necessário à sobrevivência.
Se condeno e me solidarizei com o povo judaico, pelo acto criminoso de 7 de Outubro, que assassinou e destruiu mais de 1.200 pessoas, homens, mulheres, crianças, na maioria civis, não posso virar a cara e aceitar o genocídio que o governo e o exército israelitas estão a fazer em Gaza, onde além da destruição cataclísmica urbana, se contam mais de 17.000 mortos, na maioria crianças e mulheres, em nome duma legítima vingança contra o Hamas. E na Cisjordânia, os colonos armados pelo governo, com a cumplicidade do exército, assassinam palestinianos, destroem aldeias, ocupam território que lhes não pertence.
Um ser humano judeu vale mais que um palestiniano? Uma criança assassinada palestiniana deixa de ser criança? Só tem direito a emissão televisiva, se for judia?
Pergunto-me: quem cria o antissemitismo? Os que defendem a igualdade e o direito dos povos a uma pátria e à decisão das suas vidas, ou a dos que assentam o seu discurso na supremacia da raça, da cor da pele, duma religião?
Percebe-se que o radicalismo ganhe força entre uma juventude que se sente angustiada ante um mundo desigual, violento, envenenado, que lhe é entregue geracionalmente, com poucas ofertas alternativas de futuro. Percebe-se que condenem as forças políticas e partidárias que governam e se dizem representá-los, e desconfiem de quem lhes fale ou as tente atrair para as suas fileiras. Percebe-se que a sua raiva e angústia se transformem numa recusa, ou numa escolha pelo bota abaixo, quanto mais depressa melhor.
Mas perceber não significa aceitar. E os que lhe prometem a resolução dos seus problemas são os que descenderam dos que enviaram os seus pais e avós para as guerras coloniais do Guiné, Angola e Moçambique, dos que se opuseram ao 25 de Abril, dos que, depois do 25 de Novembro, foram tomando conta da economia, da administração, da justiça, do poder civil, militar e religioso. Dos que defenderam e defendem as desigualdades, os salários miseráveis, a fuga dos lucros, a desigualdade dos direitos e dos deveres. Dos que enriquecem à custa dos subornos, compadrios e corrupção, sob o proteccionismo de legislação feita por eles próprios e aprovada pelos seus dependentes, e são os donos dos canais televisivos e das redes sociais, com que manipulam e disseminam o ódio, através da mentira, da ofensa, da desumanidade.
São esses mesmos que votam contra o cessar fogo da guerra Israel/Hamas em Gaza. Os mesmos que, em Portugal, são os descendentes dos apoiantes das políticas anti- ambientais (e não só) de Bolsonaro, de Trump, os Pinochets do totalitarismo. São, se forem na cantiga, os seus reais exploradores.
© 2026 • www.jornaltorrejano.pt • jornal@jornaltorrejano.pt
Os judeus e a guerra da Palestina
Opinião
» 2023-12-18
» António Mário Santos
É a própria imprensa israelita, o jornal Haaretz, que denuncia: a percentagem de mortos na Palestina é superior a qualquer guerra no século XX.
Relembro a minha visita ao campo de concentração de Dachau, em 1974. Ante o memorial concentracionário, a visão dum espaço onde a morte dos judeus era um acto legal do regime nazi, a minha solidariedade com a tragédia dum povo que nunca teve, desde os tempos bíblicos do Antigo Testamento, uma pátria, para quem a sobrevivência assentava na diáspora e na aceitação sempre limitada dos países que lhes abriam as portas, dependentes das suas capacidades, valores, conhecimentos, energias próprias, assumi, como modo de solidariedade, um estudo da sua existência na então vila torrejana, que, em séculos diferentes, nos foi berço.
Da minha parte, creio que cumpri, ao longo de décadas, pela investigação, escrita e publicação, essa promessa.
O povo judaico, por sua vez, assumiu a partilha da Palestina, o Estado de Israel foi criado em 1948, sob a complacência e proteccionismo dos EUA e dos países europeus, traumatizados pelas sua passividade, quando não aceitação, do Holocausto Nazi, uma diferenciação de tratamento entre os direitos do povo judeu e do povo aí residente, o palestiniano: a teoria dos dois Estados nunca foi cumprida por Israel, e o conservadorismo liberal, aliado ao fanatismo religioso corroeram, em cada ano de convivência, o estatuto dos direitos humanos dos palestinianos. As guerras surgidas, entre ambos, no século passado, mais agravaram as diferenças, e o território e os direitos palestinianos, quer na Cisjordânia, quer em Gaza, quer em Jerusalém, secundarizados, quotidianamente humilhados.
Gaza, hoje, provoca-me a mesma dor, o mesmo sofrimento, que senti em Dachau, li e vi em livros e documentários, sob o horror do Holocausto.
Condenei, de imediato, a acção do Hamas, considerando-a um acto iníquo de terrorismo. Mas o veto dos Estados Unidos, no Conselho de Segurança da ONU, impedindo a aprovação dum cessar-fogo imediato, demonstra como se tecem os fios dos interesses internacionais, ante a ameaça do desapoio judeu nas próximas eleições americanas. A extrema-direita fanática da religião judaica desenvolve uma política racista tão cruel e desumana como a fez a inquisição católica nos países da península Ibérica, ante a permissividade europeia e a incapacidade de controlo dos EUA-
O que se passa em Gaza ou na Cisjordânia, com a instalação ilegal e contra todas as determinações da ONU, não é unicamente a destruição dum grupo terrorista, o Hamas, mas a posse e domínio de todo o território palestiniano, por meio do uso indiscriminado e violenta da força bruta, contra uma população civil, na maioria mulheres e crianças, arrasando toas as infraestruturas, escolas, hospitais, mercados, administração, serviços de água, eletricidade, o que é necessário à sobrevivência.
Se condeno e me solidarizei com o povo judaico, pelo acto criminoso de 7 de Outubro, que assassinou e destruiu mais de 1.200 pessoas, homens, mulheres, crianças, na maioria civis, não posso virar a cara e aceitar o genocídio que o governo e o exército israelitas estão a fazer em Gaza, onde além da destruição cataclísmica urbana, se contam mais de 17.000 mortos, na maioria crianças e mulheres, em nome duma legítima vingança contra o Hamas. E na Cisjordânia, os colonos armados pelo governo, com a cumplicidade do exército, assassinam palestinianos, destroem aldeias, ocupam território que lhes não pertence.
Um ser humano judeu vale mais que um palestiniano? Uma criança assassinada palestiniana deixa de ser criança? Só tem direito a emissão televisiva, se for judia?
Pergunto-me: quem cria o antissemitismo? Os que defendem a igualdade e o direito dos povos a uma pátria e à decisão das suas vidas, ou a dos que assentam o seu discurso na supremacia da raça, da cor da pele, duma religião?
Percebe-se que o radicalismo ganhe força entre uma juventude que se sente angustiada ante um mundo desigual, violento, envenenado, que lhe é entregue geracionalmente, com poucas ofertas alternativas de futuro. Percebe-se que condenem as forças políticas e partidárias que governam e se dizem representá-los, e desconfiem de quem lhes fale ou as tente atrair para as suas fileiras. Percebe-se que a sua raiva e angústia se transformem numa recusa, ou numa escolha pelo bota abaixo, quanto mais depressa melhor.
Mas perceber não significa aceitar. E os que lhe prometem a resolução dos seus problemas são os que descenderam dos que enviaram os seus pais e avós para as guerras coloniais do Guiné, Angola e Moçambique, dos que se opuseram ao 25 de Abril, dos que, depois do 25 de Novembro, foram tomando conta da economia, da administração, da justiça, do poder civil, militar e religioso. Dos que defenderam e defendem as desigualdades, os salários miseráveis, a fuga dos lucros, a desigualdade dos direitos e dos deveres. Dos que enriquecem à custa dos subornos, compadrios e corrupção, sob o proteccionismo de legislação feita por eles próprios e aprovada pelos seus dependentes, e são os donos dos canais televisivos e das redes sociais, com que manipulam e disseminam o ódio, através da mentira, da ofensa, da desumanidade.
São esses mesmos que votam contra o cessar fogo da guerra Israel/Hamas em Gaza. Os mesmos que, em Portugal, são os descendentes dos apoiantes das políticas anti- ambientais (e não só) de Bolsonaro, de Trump, os Pinochets do totalitarismo. São, se forem na cantiga, os seus reais exploradores.
Alívio, decadência e sensatez
» 2026-04-18
» Jorge Carreira Maia
Um suspiro de alívio. Há muito que a União Europeia não recebia uma boa notícia. Teve-a no domingo com a derrota, nas eleições húngaras, de Viktor Orbán. Mais do que a vitória de Péter Magyar, o importante foi a derrota de um claro opositor ao projecto europeu, amigo de dois grande inimigos da União Europeia, Putin e Trump. |
Miau
» 2026-04-18
» Carlos Paiva
Se eu tiver 20 ovelhas e o meu vizinho nenhuma, em média, cada um de nós tem 10 ovelhas. Sem análise crítica, a estatística pode espelhar tudo e qualquer coisa, menos a realidade. Mas são necessários números para iniciar todo o processo. |
Celebremos o 25 de Abril, lutemos pela dignidade no trabalho
» 2026-04-18
» António Gomes
Poucos são os que entendem e menos ainda os que concordam com as alterações à legislação do trabalho que o governo do Montenegro quer impor a toda a força. Ninguém pediu, ninguém reivindicou alterações legislativas para as relações do trabalho, nem sequer as confederações patronais, a coligação que apoia o governo não apresentou essas ideias em campanha eleitoral, não foram por isso sufragadas, não têm legitimidade. |
Bloqueio infinito...
» 2026-04-14
» Hélder Dias
|
Este gajo é maluco...
» 2026-04-14
» Hélder Dias
|
O castelo fácil
» 2026-04-05
» Carlos Paiva
Uma estratégia comercial converteu-se em moda social. Não é propriamente inédito, diversas tentativas de estimular o consumo fizeram-no inúmeras vezes. Refiro-me especificamente à "experiência". Produtizou-se a "experiência" com o intuito de revitalizar turismo, restauração, hotelaria, entretenimento e cultura. |
Até quando, passado, abusarás da nossa paciência?
» 2026-04-05
» António Mário Santos
Numa ida ao museu municipal Carlos Reis, no último sábado, a fim de participar numa acção cultural com a pintora torrejana Conceição Lopes, ouvi, dum interlocutor, ao defender a construção do museu de arqueologia industrial, que «quem não está atento e não respeita o seu passado, não está a contribuir para a construção do futuro». |
Constituição, Saramago e Crueldade
» 2026-04-03
» Jorge Carreira Maia
Constituição. A Constituição portuguesa faz cinquenta anos. Tem marcas da época, isto é, do processo de ruptura com o regime autoritário do Estado Novo e da intensa luta política que se seguiu. |
Escolas e influenciadores
» 2026-03-22
» Jorge Carreira Maia
Provocou alarido a investigação do Público sobre a presença, em espaço escolar, de influenciadores tidos como pouco recomendáveis. Foram detectados 80 casos. Discutiu-se o papel dos directores, mas também do Ministério da Educação, no controlo das entradas nas escolas. |
Painéis fotovoltaicos ou a identidade patrimonial de uma cidade
» 2026-03-22
» António Gomes
Provavelmente já vamos tarde, tal é o número de atentados ao património, à paisagem urbana e arquitetónica do centro histórico de Torres Novas. Quase tudo começou com o desleixo e o abandono de centenas de imóveis que hoje ou são ruínas em perigo para quem passa ou em alguns casos são espaços vazios emparedados fruto da intervenção forçada do município. |
|
» 2026-04-14
» Hélder Dias
Este gajo é maluco... |
|
» 2026-04-14
» Hélder Dias
Bloqueio infinito... |
|
» 2026-03-22
» António Gomes
Painéis fotovoltaicos ou a identidade patrimonial de uma cidade |
|
» 2026-04-05
» António Mário Santos
Até quando, passado, abusarás da nossa paciência? |
|
» 2026-03-22
» António Mário Santos
Falemos de cultura e do que o município pode criar |