• SOCIEDADE-  • CULTURA  • DESPORTO  • OPINIÃO
  Segunda, 06 Abril 2020    |      Directora: Inês Vidal    |      Estatuto Editorial    |      História do JT
   Pesquisar...
Qui.
 19° / 13°
Céu muito nublado com chuva moderada
Qua.
 19° / 11°
Céu nublado com chuva fraca
Ter.
 21° / 12°
Céu nublado com chuva fraca
Torres Novas
Hoje  19° / 12°
Céu nublado com aguaceiros e trovoadas
       #Alcanena    #Entroncamento    #Golega    #Barquinha    #Constancia 

A SAGA / FUGA DE FRANCISCO DUARTE MENDES

Opinião  »  2020-03-07  »  José Alves Pereira

O título deste texto é uma adaptação, a partir de uma obra de ficção, do escritor galego Gonzalo Torrente Ballester, A Saga e Fuga de J.B. Como veremos, seria difícil encontrar um título que melhor correspondesse aos factos aqui reportados, sendo que são já poucos os viventes que de tal guardam memória.

Quem foi Francisco Duarte Mendes, chamado de “Chico” Mendes pelos da sua geração? Era um cidadão nascido em Torres Novas, em 18.10.1922, exercendo a profissão de torneiro mecânico, casado e morador na rua Miguel de Arnide, n.º 11, um pouco acima da Igreja de Santiago. Envolvido nas actividades oposicionistas ao regime salazarista foi preso, pela primeira vez, em 16.10.1947, saindo em liberdade condicional, sob caução, em 14.8.1948. Num documento da PIDE, datado de 1953, é indicado como “Elemento Disperso” do PCP com ligações ao MUDJ (Movimento de Unidade Democrática Juvenil), na organização de Torres Novas.

Volta à prisão em 1.7.1952, onde se mantém até 15.6.1954, data em que sai, para ficar em liberdade condicional até 8.5.1957. Durante os cerca de 3 anos e 2 meses encarcerado, vai passar pelo designado Depósito de Presos de Caxias, Cadeia do Aljube e a sua enfermaria e Cadeia do Forte de Peniche. É julgado duas vezes no Tribunal Plenário da Boa-Hora. Pelo meio, sofreu as habituais medidas de segurança, que lhe iam prolongando o cativeiro, a perda de direitos políticos e o pagamento de cauções.
Após a saída da prisão, retoma a actividade profissional, como operário de manutenção de equipamentos, na Fábrica de Curtumes de Joaquim da Viúva, Vila Moreira (Alcanena). Reata ligações políticas através de Manuel Coelho Dias, que também estivera preso 6 meses. Em 1960(?) é orador numa reunião comemorativa do 1.º de Maio, realizada na Pensão Matias (Alcanena?).

Em 21 de Setembro de 1961, a PIDE vai fazer nova razia de prisões em Torres Novas, depois das dezenas verificadas em 1952. Noite adentro e durante todo o dia, sem mandatos de detenção, nas residências, locais de trabalho e mesmo na via pública, 20 trabalhadores, a maioria da Organização local do PCP, são presos. Faltava uma prisão para completar a rusga. Passava um pouco da meia-noite quando batem à porta do “Chico” Mendes. São recebidos por Francelina, sua esposa. Esta chama o marido e avisa os agentes da PIDE que aquele se estaria a vestir, dado já estar deitado. Ouve-se, durante minutos, a água do lavatório a correr. Desconfiados com a demora, os algozes irrompem pela casa e... do Francisco Duarte Mendes, nem sinais. Ter-se-ia escapado por uma pequena janela traseira, palmilhado alguns telhados, descido para o Bairro de Valverde, pegado na sua Lambretta e arrancado para Alcanena. Ali, depois de uma porta se lhe ter fechado, foi abrigado pela democrata alcanenense D. Esmeralda Flora Bento, e encaminhado para uma casa amiga, numa localidade próxima, onde se manteve alguns dias. Levado para Alpiarça, esteve escondido no sótão da Praça do Peixe(?), onde era apoiado por Carlos Pinhão Correia, membro do PCP, também este já com várias passagens pela cadeia. Transcorridos alguns dias, foi levado para Lisboa, hospedando-se numa pensão onde se fazia passar por estudante nocturno, iniciando um período de actividade política clandestina. Emigra para Marrocos donde passa para França, arredores de Paris. Aí vai integrar uma organização do PCP denominada Originários de Portugal, visando os contactos e ajudas aos emigrantes portugueses.

Após o 25 de Abril de 1974, regressa a Portugal e a Torres Novas. No final da manifestação do 1.º de Maio é orador, na condição de exilado político, da varanda do Cine-Teatro Virgínia. Creio bem que se justifica o título do texto “A Saga/Fuga de Francisco Duarte Mendes”. Pelo caminho desta aventurosa odisseia, muitos passos e episódios se perderam, outros não se puderam confirmar. A história não documentada vai-se diluindo com o desaparecimento dos protagonistas e das memórias do seu tempo. Fica o registo possível de um episódio da resistência antifascista em Torres Novas.

NOTA - Além de algumas recordações pessoais, foram essenciais para a elaboração deste texto: o registo cadastral obtido do arquivo digital da Torre do Tombo e a transcrição de fragmentos de uma conversa gravada, em Março de 2019, por Rui Alves Pereira, com Helena Ramos Silva e Jorge Maurício Frazão, que conviveu de perto com o Francisco Duarte Mendes. Utilizámos este nome, por ser o que consta no registo criminal, embora, a julgar pelos apelidos dos pais e por esclarecimento de um dos depoentes, o verdadeiro seria Francisco Mendes Duarte.

 

 

 Outras notícias - Opinião


Barbárie ou bem comum »  2020-04-05  »  João Carlos Lopes

O perigoso anarquista e cripto-comunista Papa Francisco já tinha dito e vem dizendo, desde 2013, que “esta economia mata”. Mais recentemente, na saudação ao Ano Novo e falando de paz, desmascarou a hipocrisia dos países e governantes que enchem a boca de paz e todos os anos aumentam escandalosamente as despesas com armamento e com os seus exércitos.
(ler mais...)


Estudar em casa »  2020-04-05  »  Anabela Santos

Devido às Covid-19, este mal que assombra todo o mundo em geral, cerca de dois milhões de alunos, em Portugal, foram retirados da escola e enviados para casa onde, até ao dia de hoje, têm de permanecer, sabendo que “não estão de férias”, como afirma Tiago Brandão Rodrigues, ministro da Educação.
(ler mais...)


E depois do “corona”? »  2020-04-05  »  António Gomes

Não se conhece a cura para o corona vírus. Mandaram-nos ficar em casa para fazer o combate. E é assim mesmo. Não havendo cura, o melhor é apostar na prevenção. O isolamento social é pois o melhor remédio.
(ler mais...)


Intervalo »  2020-04-05  »  Jorge Salgado Simões

O que mais me impressiona nos últimos dias é o silêncio. A sensação de que alguém carregou num botão e que, de repente, travámos a fundo, como se tudo isto fosse um grande intervalo indefinido.
(ler mais...)


OS VENTOS DA NOSSA INQUIETAÇÃO »  2020-04-05  »  José Alves Pereira

Os tempo preocupantes que vivemos não são propícios a pensamentos e análises com lucidez e serenidade, mergulhando-nos em múltiplos casos colaterais, em detrimento do essencial. Teorias da conspiração, responsabilizações de países e entidades num clima em que a desorientação e o medo levam a um irracional desabafar de sentimentos, transportando por arrastão, de forma descontextualizada, modos de vida e de sociabilidade.
(ler mais...)


Não há fartura que não dê em fome »  2020-04-05  »  Maria Augusta Torcato

Eu sei que o ditado popular é ao contrário, “não há fome que não dê em fartura”. Mas, aqui, na realidade que hoje vivemos , e dependendo da perspetiva de análise, creio que se aplica melhor o inverso.
(ler mais...)


Fico em (que) casa »  2020-04-05  »  Ana Lúcia Cláudio

“Quando, no dia 31 de dezembro de 2019, ao comer aquela passa, desejei passar mais tempo com a minha família, não era bem nisto que estava a pensar” - É uma das muitas frases com alguma graça que circula por estes dias nas redes sociais, provando que o terror psicológico da gestão de um vírus e dos seus efeitos colaterais ainda consegue aguçar a criatividade e o sentido de humor.
(ler mais...)


Um arco-íris em tons de cinza, por Inês Vidal »  2020-04-05  »  Inês Vidal

Por estes dias, pedi às minhas filhas que pintassem um arco-íris para pendurarmos na porta de casa. Algo que dissesse, em todas as línguas latinas, e a quem por ali passasse, “vai ficar tudo bem”. No fundo, acho que me queria sentir uma boa mãe, daquelas que passaram os últimos quinze dias em casa a fazer de ponte entre seus filhos, uma escola fechada e uma resma de aulas online que mais parecia trabalhos forçados.
(ler mais...)


Uma comunidade de seres racionais »  2020-04-04  »  Jorge Carreira Maia

A senhora Thatcher terá escrito, num livro de memórias sobre o tempo em que foi primeira-ministra, que “não existe essa coisa de sociedade, o que há e sempre haverá são indivíduos”.
(ler mais...)


Três efeitos virais »  2020-03-20  »  Jorge Carreira Maia

POLÍTICA E ECONOMIA. De um momento para o outro todo um modo de compreender a política se alterou. Por influência das duas principais constelações ideológicas nascidas do Iluminismo – o liberalismo e o marxismo – a política tinha, paulatinamente, sucumbido aos imperativos da economia.
(ler mais...)

 Mais lidas - Opinião (últimos 30 dias)
»  2020-03-09  »  Rui Anastácio Carso, por Rui Anastácio
»  2020-03-19  »  Rui Anastácio Extraordinário
»  2020-03-20  »  Jorge Carreira Maia Três efeitos virais
»  2020-04-05  »  Inês Vidal Um arco-íris em tons de cinza, por Inês Vidal
»  2020-04-05  »  Maria Augusta Torcato Não há fartura que não dê em fome