Relembrando Joaquim Rodrigues Bicho - antónio mário santos
Opinião
» 2023-07-08
» António Mário Santos
"A Torres Novas Factory socialista é um emplastro histriónico à seriedade histórica"
Quando este fim de semana, soube que o Partido Socialista votara, na última Assembleia Municipal, contra a denominação toponímica “Fábrica Grande”, proposta pelo Bloco de Esquerda - mantendo Torres Novas Factory – para o espaço onde se situava a Fábrica de Fiação e Tecidos de Torres Novas, alegando ainda não ser tempo de definição do espaço, confesso que, como munícipe deste concelho, me senti ofendido. Que querem? Faço parte duma história concelhia em que Torres Novas estruturara a sua vida industrial, no século XX, no qual, do século XIX, se identificavam, como elementos centrais, a Fábrica Grande (1845) e a fábrica de Fundição e Serralharia Mecânica de José da Costa Nery (1855), entre uma multidão de lojas de artífices, indústria familiar, promovendo um comércio que ia paulatinamente em crescendo, a partir do prolongamento da circulação ferroviária para o distrito de Santarém, num concelho predominantemente agrário.
Daí que – siga-se a diversa imprensa dos século XIX e 1ª República, até à fascização do regime e à monopolização informativa de O Almonda –, a industrialização se renove, a partir da década de vinte, com a pequena e média indústria metalúrgica, a tecelagem, mas também o papel (já com tentativas do século XIX), a tinturaria, a moagem, as de origem agrícola, como a do tomate, a aguardente de figo, o álcool, os transportes rodoviários, as telecomunicações.
Mas, simbólicas, a Nery e a Fábrica Grande.
Quem, como eu, privilegiado estudante do Colégio Andrade Corvo, passou a sua adolescência a encontrar, diário, no seu caminho, o fato macaco operário, a conviver com muitos desses trabalhadores, nas ruas, tabernas e cafés da vila, frequentar, na fase adolescente, os bailes na sede da Banda Operária Torrejana, e mais tarde, como professor da Escola Industrial e Comercial, a conviver com os futuros técnicos, dificilmente aceita essa opção da política contemporânea de cedência à língua inglesa para definição da realidade nacional. Por três ordens de razões. Uma, histórica: a colonização inglesa, a que Portugal se sujeitou durante séculos, minimizou e secundarizou o nativo luso, transformado em colonizado servil. A segunda, política. Por orgulho ideólogico de tradição familiar, assente no 31 de Janeiro de 1891, data da primeira revolta republicana lusa contra o imperialismo inglês. Terceiro, por defesa da língua e cultura portuguesa. Nunca vi ou soube de vocabulário português adoptado pela Inglaterra, na sua toponímia ou no seu quotidiano, com excepção da nostalgia lusa do emigrante a relembrar a origem do seu fado.
O inglês médio considera-se orgulhosamente acima da balbúrdia etno-linguística europeia. É um colonizador, não se mistura. É um director, um chefe, nunca um subordinado. O exemplo recente da corte com a União Europeia bem o demonstra. Os menus dos restaurantes e hotéis no Algarve colonizado o assinalam.
A universalidade da língua inglesa no mundo contemporâneo não monopoliza o diverso da mentalidade das sociedades humanas. O mal estar que me invadiu, pela negação socialista do topónimo “Fábrica Grande”, só por ser apresentado pelo Bloco de Esquerda, breve se dissipou. Raciocinando, com frieza, não poderia a reacção do actual PS ser outra. Pouco ou nada herdou do PS dum Pena do Reis, dum Agostinho, dum Pedro Natal da Luz. Não sei mesmo se os vereadores socialistas com quem convivi e partilhei a oposição municipal, durante quase oito anos, aprovariam tal opção. A culpa, a meu ver, foi (é-o ainda) do Dr. Mário Soares. Em vida, encerrou o socialismo numa gaveta. Quando morreu, ninguém conseguiu descobrir qual o armário, e a gaveta guardadora. E mesmo que o descobrissem, a chave parece ter desaparecido. Daí que os socialistas coevos errem entre os caminhos tortuosos. Mas gratificantes, do capitalismo monopolista e o liberalismo beato do conservadorismo humanista, que a maçonaria e a Opus Dei disputam em tudo quanto é órgão de tutela ou de informação.
Aos senhores deputados municipais e respectivos presidentes de junta, actualmente eleitos, aconselho, para compreenderem o acerto da proposta do Bloco de Esquerda, a leitura do livro do insuspeito Joaquim Rodrigues Bicho, A Fábrica Grande, Subsídios para a História da Companhia de Torres Novas, publicado pela insuspeita Câmara Municipal Socialista concelhia, em Maio de 1997.
Joaquim Bicho encerra o seu livro (pg.191): «A Cidade tem uma fábrica que lhe deu topónimos e diariamente a desperta com um apito a vapor. O seu silvo que, no passado, distinguia a Fábrica Grande das outras, é hoje um símbolo que não nos resignaríamos a perder.»
Perdemos. A Fábrica. Mas não o símbolo. A Torres Novas Factory socialista é um emplastro histriónico à seriedade histórica duma comunidade operária concelhia.
Como estudioso da história local, como munícipe, em defesa do património municipal, estou com a afirmação de Joaquim Rodrigues Bicho e a proposta do Bloco de Esquerda.
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Relembrando Joaquim Rodrigues Bicho - antónio mário santos
Opinião
» 2023-07-08
» António Mário Santos
A Torres Novas Factory socialista é um emplastro histriónico à seriedade histórica
Quando este fim de semana, soube que o Partido Socialista votara, na última Assembleia Municipal, contra a denominação toponímica “Fábrica Grande”, proposta pelo Bloco de Esquerda - mantendo Torres Novas Factory – para o espaço onde se situava a Fábrica de Fiação e Tecidos de Torres Novas, alegando ainda não ser tempo de definição do espaço, confesso que, como munícipe deste concelho, me senti ofendido. Que querem? Faço parte duma história concelhia em que Torres Novas estruturara a sua vida industrial, no século XX, no qual, do século XIX, se identificavam, como elementos centrais, a Fábrica Grande (1845) e a fábrica de Fundição e Serralharia Mecânica de José da Costa Nery (1855), entre uma multidão de lojas de artífices, indústria familiar, promovendo um comércio que ia paulatinamente em crescendo, a partir do prolongamento da circulação ferroviária para o distrito de Santarém, num concelho predominantemente agrário.
Daí que – siga-se a diversa imprensa dos século XIX e 1ª República, até à fascização do regime e à monopolização informativa de O Almonda –, a industrialização se renove, a partir da década de vinte, com a pequena e média indústria metalúrgica, a tecelagem, mas também o papel (já com tentativas do século XIX), a tinturaria, a moagem, as de origem agrícola, como a do tomate, a aguardente de figo, o álcool, os transportes rodoviários, as telecomunicações.
Mas, simbólicas, a Nery e a Fábrica Grande.
Quem, como eu, privilegiado estudante do Colégio Andrade Corvo, passou a sua adolescência a encontrar, diário, no seu caminho, o fato macaco operário, a conviver com muitos desses trabalhadores, nas ruas, tabernas e cafés da vila, frequentar, na fase adolescente, os bailes na sede da Banda Operária Torrejana, e mais tarde, como professor da Escola Industrial e Comercial, a conviver com os futuros técnicos, dificilmente aceita essa opção da política contemporânea de cedência à língua inglesa para definição da realidade nacional. Por três ordens de razões. Uma, histórica: a colonização inglesa, a que Portugal se sujeitou durante séculos, minimizou e secundarizou o nativo luso, transformado em colonizado servil. A segunda, política. Por orgulho ideólogico de tradição familiar, assente no 31 de Janeiro de 1891, data da primeira revolta republicana lusa contra o imperialismo inglês. Terceiro, por defesa da língua e cultura portuguesa. Nunca vi ou soube de vocabulário português adoptado pela Inglaterra, na sua toponímia ou no seu quotidiano, com excepção da nostalgia lusa do emigrante a relembrar a origem do seu fado.
O inglês médio considera-se orgulhosamente acima da balbúrdia etno-linguística europeia. É um colonizador, não se mistura. É um director, um chefe, nunca um subordinado. O exemplo recente da corte com a União Europeia bem o demonstra. Os menus dos restaurantes e hotéis no Algarve colonizado o assinalam.
A universalidade da língua inglesa no mundo contemporâneo não monopoliza o diverso da mentalidade das sociedades humanas. O mal estar que me invadiu, pela negação socialista do topónimo “Fábrica Grande”, só por ser apresentado pelo Bloco de Esquerda, breve se dissipou. Raciocinando, com frieza, não poderia a reacção do actual PS ser outra. Pouco ou nada herdou do PS dum Pena do Reis, dum Agostinho, dum Pedro Natal da Luz. Não sei mesmo se os vereadores socialistas com quem convivi e partilhei a oposição municipal, durante quase oito anos, aprovariam tal opção. A culpa, a meu ver, foi (é-o ainda) do Dr. Mário Soares. Em vida, encerrou o socialismo numa gaveta. Quando morreu, ninguém conseguiu descobrir qual o armário, e a gaveta guardadora. E mesmo que o descobrissem, a chave parece ter desaparecido. Daí que os socialistas coevos errem entre os caminhos tortuosos. Mas gratificantes, do capitalismo monopolista e o liberalismo beato do conservadorismo humanista, que a maçonaria e a Opus Dei disputam em tudo quanto é órgão de tutela ou de informação.
Aos senhores deputados municipais e respectivos presidentes de junta, actualmente eleitos, aconselho, para compreenderem o acerto da proposta do Bloco de Esquerda, a leitura do livro do insuspeito Joaquim Rodrigues Bicho, A Fábrica Grande, Subsídios para a História da Companhia de Torres Novas, publicado pela insuspeita Câmara Municipal Socialista concelhia, em Maio de 1997.
Joaquim Bicho encerra o seu livro (pg.191): «A Cidade tem uma fábrica que lhe deu topónimos e diariamente a desperta com um apito a vapor. O seu silvo que, no passado, distinguia a Fábrica Grande das outras, é hoje um símbolo que não nos resignaríamos a perder.»
Perdemos. A Fábrica. Mas não o símbolo. A Torres Novas Factory socialista é um emplastro histriónico à seriedade histórica duma comunidade operária concelhia.
Como estudioso da história local, como munícipe, em defesa do património municipal, estou com a afirmação de Joaquim Rodrigues Bicho e a proposta do Bloco de Esquerda.
Painéis fotovoltaicos da Renova: e um bocadinho de interesse municipal agora ao contrário? - joão carlos lopes
» 2025-12-10
Na recente reunião do executivo municipal em que foi debatida a questão dos painéis fotovoltaicos da Renova, o presidente da Câmara, José Trincão Marques, recordou o seu papel assertivo, então enquanto presidente da assembleia municipal, na polémica sobre o acesso à nascente do rio Almonda, que foi tema recorrente nestas páginas nos anos 2020/2023. |
Transparência ou opacidade, eis a questão! - antónio mário santos
» 2025-12-05
Uma nova geração (parte de, sejamos exactos) a dirigir o município, conforme citou na última sessão extraordinária o actual presidente do executivo camarário, José Manuel Trincão Marques. |
Presidenciais, o grau de ressentimento - jorge carreira maia
» 2025-12-05
» Jorge Carreira Maia
As próximas eleições presidenciais vão medir o grau de ressentimento político dos portugueses. Em teoria, há quatro candidatos que podem aspirar a passar à segunda volta. Para usar uma classificação de um amigo, temos duas rainhas de Inglaterra (Marques Mendes e António José Seguro) e dois caudilhos (Gouveia e Melo e André Ventura). |
Gente nova, poder novo. Caminho certo? - antónio mário santos
» 2025-11-22
» António Mário Santos
Ainda não assentou a poeira do espanto e da tristeza das eleições municipais e já a boataria fervilha nas redes sociais. Da reunião mal-esclarecida entre o recém presidente José Manuel Trincão Marques e o líder da oposição Tiago Ferreira, encontra-se uma descrição em O Mirante, que informa que este último quis fumar o cachimbo de paz com o presidente socialista, desde que este lhe cedesse três lugares a tempo inteiro na vereação, e a vice-presidência do executivo. |
Sal e azar - carlos paiva
» 2025-11-22
» Carlos Paiva
A geração de transição, a última a sacrificar a sua vida à ditadura, a que entregou a melhor fase da capacidade produtiva à guerra, à realidade do analfabetismo, iliteracia, mortalidade infantil ao nível do Terceiro Mundo (faziam-se dez filhos para sobreviverem dois), agricultura de subsistência, escravidão fabril, feudalismo empresarial e que concebeu os seus filhos pouco antes da queda do fascismo, está a desaparecer. |
Manuel Ribeiro (1878-1941) - jorge carreira maia
» 2025-11-22
» Jorge Carreira Maia
Como em todas as literaturas, também na portuguesa existe um cânone. No romance, Camilo Castelo Branco, Eça de Queirós, Agustina Bessa-Luís ou José Saramago pertencem, de forma permanente, ao cânone. Outras entrarão e sairão dele em conformidade com os humores do dia. |
É só fazer as contas - antónio gomes
» 2025-11-09
» António Gomes
Os resultados eleitorais são de todos conhecidos, assim como os vencedores e os vencidos. A democracia que dizem alguns, está doente e corre o risco de entrar em coma ditou para o concelho de Torres Novas o fim da maioria absoluta do PS, embora conservando a presidência da câmara por uma unha negra, tal como há 32 anos atrás, pouco mais de 80 votos. |
As esquerdas, as eleições municipais, o que se seguirá… -antónio mário santos
» 2025-11-09
» António Mário Santos
«o sectarismo, a característica mais tóxica da esquerda portuguesa, tem destas coisas. Leva quem não se olha ao espelho a ignorar o mundo ou, pior, a fingir que as dificuldades estão na casa do lado» - Francisco Louçã, Público, 3 de Novembro A esquerda portuguesa está em crise. |
Da evolução das espécies - carlos paiva
» 2025-11-09
» Carlos Paiva
No início dos anos noventa do século passado a Internet deu os primeiros passos em Portugal. Primeiro pela comunidade científica e académica, depois, muito rapidamente, expandiu-se às empresas e cidadãos comuns. |
Os três salazares - jorge carreira maia
» 2025-11-09
PRIMEIRO SALAZAR. Foi um ditador cinzento e manhoso. Tinha a virtude de odiar políticos histriónicos e espalhafatosos. Esse ódio virtuoso, porém, era acompanhado por outros ódios nada virtuosos. Odiava, antes de tudo, a liberdade. |