• SOCIEDADE-  • CULTURA  • DESPORTO  • OPINIÃO
  Sexta, 17 Janeiro 2020    |      Directora: Inês Vidal    |      Estatuto Editorial    |      História do JT
   Pesquisar...
Seg.
 12° / 4°
Céu limpo
Dom.
 15° / 6°
Céu limpo
Sáb.
 18° / 11°
Céu nublado com chuva moderada
Torres Novas
Hoje  16° / 8°
Céu nublado com chuva fraca
       #Alcanena    #Entroncamento    #Golega    #Barquinha    #Constancia 

Os phones são outro fenómeno que revolucionou o modo como experienciamos a música

Opinião  »  2019-03-22  »  Ana Sentieiro

É com alguma indignação entrelaçada com revolta que exponho um assunto secundário numa panóplia de assuntos, dos quais, o salário do Ronaldo agarra o protagonismo e leva-o de férias para a Grécia no seu jato privado, com direito a champanhe e não espumante! Parece que ninguém está interessado em dar relevo à falta de cultura musical dos millennials.

É importante referir que pertenço orgulhosamente a este grupo geracional destinado à mediocridade das notas musicais. Porém, fui forçada a crescer num ambiente poluído pois os meus pais fumavam solos de guitarra dos Pink Floyd, agudos do Prince, batidas dos AC/DC, snifavam qualquer coisa com Rolling Stones, Foreigner ou The Police e mantinham a janela fechada para evitar qualquer interferência exterior na pura loucura que a música despertava.

Hoje entro no carro, ligo a rádio e salto de estação em estação ao ritmo de Led Zepplin à procura de fugir ao Diogo Piçarra, Fernando Daniel ou Annita. Entro no bar e tenho o Kevinho a servir bebidas, Shawn Mendes a limpar as casas de banho e Katy Perry a beijar o moreno atraente. A discoteca abarrota de animação e fracos passos de dança. O pessoal escorrega em letras intelectualmente pensadas e harmonias trabalhadas com exaustão. Será que as metáforas entraram em vias de extinção e os cantores ficaram restringidos a uma por álbum?

São cinco da manhã, o DJ quer encerrar a loja, a clientela já não sabe distinguir um brócolo de um alho francês: é altura de tocar I want to break free dos Queen e expulsar esta malta, com falta de gosto musical, daqui para fora!

Confesso que me entristece o sentido da corrente cultural, ao sabor da qual, todos nós, millennials, abanamos a cabeça e batemos o pé inconsciente. Sinto vergonha da herança que deixaremos às gerações futuras: pouca e má! Deixamos uma garrafinha de vinho barato, possivelmente um pouco azedo... Mas era entre isso ou um candeeiro fundido do ikea.

Não me parece justo! O universo deveria distribuir os prodígios musicais ao longo das gerações. Ao invés, fez chover um aglomerado deles entre os anos 60 e 80, deixando os restantes numa seca aborrecida e um pouco dolorosa. A culpa foi das Spice Girls! Os outfits coloridos e sensuais distraíram os músicos. Redefiniram o conceito de espetáculo, introduzindo dois novos instrumentos (glitter e padrão tigresa) e colocando os primogénitos de cordas, sopro e percussão no background, onde a luz é suave e a visibilidade não atrapalha as acrobáticas coreografias.

O engraçado é que nós, millennials, vestimos t-shirts com a icónica língua, a cara de Freddie Mercury, o emoji deformado com cruzes nos olhos e língua de fora, quatro tipos a passar na passadeira e o cabelo com condicionador do Kurt Cobain, e não sabemos conjugá-las com um casaco de soul, umas calças de groove ou um par de blues.
Penso que a própria materialidade da música influencia a sua criação e posterior absorção. Conto pelos dedos, o número de álbuns que tenho e que dormem sossegados na penúltima gaveta do móvel do meu quarto. Os meus pais, pelo contrário, decoram a parede do escritório com álbuns: originais, live e acústicos. Para eles, a música ouve-se no toque pois está no estado sólido: podem aquecer-se com ela, abraçá-la, atirá-la à cabeça do amigo estúpido ou polvilhar o arroz com ela. A música que oiço está na net: é um sistema prático e individualizado, no entanto, encontra-se no estado gasoso. O ponto de ebulição, neste caso, atingiu-se à temperatura Bill Gates.

Os phones são outro fenómeno que revolucionou o modo como experienciamos a música: coloco-os e ninguém repudiará a minha playlist, porque não a ouvem. Na época dos meus pais, a música ouvia-se alto e com total transparência. Estavam sujeitos ao julgamento social e, como tal, elevavam o seu nível musical, transformando-se em mestres versáteis e confiantes da área.

A diferença entre a minha geração e a dos meus pais não é uma gap...é, na verdade, um calabouço, com a largura de um vale e a profundidade de um poema de Fernando Pessoa. A passagem entre ambas é violenta: como se nos atirássemos de um penhasco e caíssemos de chapa nas águas gélidas do Atlântico, que se encontram paradas, criando uma superfície brutamente flat. O ouvido ficará irreversivelmente danificado. O lado positivo é que poderão sair à rua com umas leggings padrão tigresa e glitter na cara e, posteriormente, tirar uma selfie e partilhar nas redes sociais, acompanhada com uma batata à espanhola...Ai, desculpem, uma balada à espanhola!

 

 

 Outras notícias - Opinião


O discurso do rancor »  2020-01-10  »  Jorge Carreira Maia

Vivemos num país cordato e seguro, onde a violência é diminuta e o respeito pelos outros é significativo. Somos, ao mesmo tempo, medianamente ricos e medianamente pobres e, ao longo destes anos de democracia, temos sabido resolver os problemas com que nos deparámos.
(ler mais...)


As ciclovias e o debate público »  2020-01-09  »  João Quaresma

No último mês de Dezembro, em duas reuniões de câmara sucessivas, discutiu-se o programa base de uma rede de ciclovias para a cidade de Torres Novas, com cerca de 24 Km na sua totalidade, a construir por fases, bem como uma dessas fases na zona da Quinta da Silvã, com cerca de 6 Km, que será a primeira a ser realizada.
(ler mais...)


Saída de Emergência (uma crónica em atraso), por Maria Augusta Torcato »  2020-01-09  »  Maria Augusta Torcato

Madrugada. Janeiro, dia 4. De 2019.

O comboio deslizava nas linhas com o seu ritmo sereno, como se não tivesse pressa ou tivesse de respeitar passagem ou não quisesse, com brusquidão, ferir o ferro.
Há muito que não andava de comboio.
(ler mais...)


CONSIDERAÇÕES A PROPÓSITO DO BREXIT »  2020-01-09  »  José Alves Pereira

As eleições realizadas a 12 de Dezembro passado estão, tal como a situação na Grã-Bretanha, envoltas em tantas contradições que alinhavar comentários, com alguma linearidade e coerência, não é tarefa fácil.
(ler mais...)


O medo »  2020-01-09  »  António Gomes

Temos vindo a assistir, com alguma insistência por parte do presidente da câmara municipal de Torres Novas, ao anúncio da sua candidatura nas próximas eleições autárquicas. Devido à insistência, até parece que o presidente anda obcecado com tal objectivo.
(ler mais...)


A imprensa »  2020-01-09  »  Anabela Santos

Feliz Natal, boas festas, bom ano, foram os votos das últimas semanas do mês de Dezembro. Em ambiente de festa, de partilha e de solidariedade, cumpriu-se mais uma época festiva que iniciou lá para meados do mês e terminou no dia 1 de Janeiro.
(ler mais...)


Brio »  2020-01-09  »  Rui Anastácio


“Um café bem tirado e com bons modos.”
Fiquei com esta frase na cabeça. Foi dita em tom brincalhão por uma Senhora septuagenária, algures num quiosque à beira mar plantado. Uma forma simples e simpática de pedir competência e brio profissional.
(ler mais...)


Ano novo, Torres “Novas”? »  2020-01-09  »  Ana Lúcia Cláudio

Cada início de ano é, frequentemente, marcado pelo balanço das coisas que não fizemos nos 365 dias anteriores e que, consequentemente, se transformam, agora, em projectos para o novo ano. Nos primeiros dias de Janeiro, todos os anos se repete o mesmo ritual.
(ler mais...)


Serviços públicos, superavit, sistemas eleitorais e vergonha »  2019-12-20  »  Jorge Carreira Maia

DEGRADAÇÃO DOS SERVIÇOS PÚBLICOS. Existe a ideia de que a degradação dos serviços públicos se resolveria com uma melhor gestão. Qualquer partido a defende desde que esteja na oposição.
(ler mais...)


O PDM e a sua revisão »  2019-12-20  »  António Gomes

Parece que é desta. Ao fim de dezoito anos, o processo de revisão do PDM de Torres Novas dá sinais. Foi preciso o governo ameaçar com cortes nas receitas às autarquias que não completarem a revisão deste importante instrumento de ordenamento do território em 2020, para se iniciar tão importante tarefa.
(ler mais...)

 Mais lidas - Opinião (últimos 30 dias)
»  2019-12-20  »  António Gomes O PDM e a sua revisão
»  2020-01-09  »  Maria Augusta Torcato Saída de Emergência (uma crónica em atraso), por Maria Augusta Torcato
»  2019-12-20  »  Jorge Carreira Maia Serviços públicos, superavit, sistemas eleitorais e vergonha
»  2019-12-18  »  José Ricardo Costa O mundo a seus pés
»  2019-12-18  »  José Alves Pereira Portugal e os novos Filipes