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Caridade ou justiça social

Opinião  »  2019-02-07  »  Anabela Santos

"Temos de combater a hipocrisia. Vivemos rodeados de temas inúteis"

O “Gui” que não é Gui, torrejano que não é torrejano, miúdo que já não é miúdo, vagueia pela cidade durante o dia e noite absorvido pelos seus pensamentos, com um olhar vago, distante. O Gui não é uma personagem fictícia. Está ali, sempre ali.
– Boa tarde!

Não tenho direito a mais nada, mas o cumprimento sai sempre suave e educado.

O Gui não trabalha, não estuda, não socializa, não tem amigos, a família está distante, não tem objetivos, não tem presente e, se não houver uma grande mudança, não terá futuro. É uma alma perdida que confessa ser bipolar, que passa dias sem saber o que faz ou o que diz. Só sabe que o tempo passa. Aliás, nem sei se sabe o que é o tempo.
– Os pais do “Rui” (que não é Rui) ajudam-me muito. No final do dia, em troca de comida, ajudo a arrumar cadeiras, mesas, o que for preciso em alguns cafés. Vou vivendo de caridade. Queria arranjar trabalho, mas é difícil. Há pessoas que dizem que me ajudam, mas nunca acontece. Não sei que fazer. De que precisa este miúdo que já não é miúdo?

De caridade ou justiça social? A caridade é pouco, muito pouco para um caso como este.
Justiça social!!!! O Gui precisa de justiça social e esta é responsabilidade do Estado, que não pode deixar de exercer a função de garantir a coesão social. Não é solução atacar as consequências e não as causas . “Numa sociedade onde haja justiça social, os direitos humanos são respeitados e as classes sociais mais desfavorecidas contam com oportunidades de desenvolvimento.”

Temos de combater a hipocrisia. Vivemos rodeados de temas inúteis, “ajudas” inúteis, pensamentos inúteis, campanhas inúteis. Não podemos aceitar o que é inútil ou com pouco impacto social.

A verdade é que “quando a solidariedade é necessária, a justiça social é urgente” e o estado não se pode demitir das suas funções.

 

 

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