Feira de Março
Opinião
» 2018-03-24
» José Ricardo Costa
"Graças a Deus que nasci a tempo da mulher-serpente, em bikini, dentro de uma caixa de vidro"
Com a feira medieval é recriado, todos os anos, em Torres Novas, um mundo que se tornou algo exótico. É verdade que exotismo serve para invocar certas comidas, animais, paisagens, culturas ou até alguns políticos, mas também há épocas que a distância tornou exóticas. É só uma questão de trocar a sopa de ninho de pássaros, o tucano, a praia com coqueiros ou políticos como Trump ou Maduro, por jograis, truões, segréis, trovadores ou almocreves. Mesmo profissões mais recentes já passaram de vez para a twilight zone. Pensar hoje em palafreneiro, ardina ou até num polícia sinaleiro em cima de um pedestal no largo da Botica, soa tão excêntrico como um engraxador na floresta amazónica, um alfaiate numa tribo da Papua-Nova Guiné, um bolivarista na Casa Branca.
Março em Torres Novas continua a ser mês de feira de Março. Feira, como a dos frutos secos, num espaço e tempo reais, em ambiente real e pessoas reais em vez de figurantes. Mas se pegarmos numa mesa de pé de galo para chamarmos a alma da velha feira de Março no Rossio de S. Sebastião (“Largo da Feira” para os mais íntimos), o que veremos é já tão irreal como uma carroça a subir a rua Miguel Arnide. A sério, se eu fosse da câmara municipal, passaria a organizar duas feiras históricas: a medieval em Junho e a de Março em Março, dando aos jovens duas experiências históricas em vez de uma.
Mas uma feira de Março mesmo feira de Março, com figurantes a fazer de gente antiga e com o espaço do Rossio cheio como um ovo. Com o radical e tonitruante poço da morte cujo ponto mais alto era o motard vir cá acima de olhos vendados e sem mãos. Com o tenebroso comboio-fantasma, cheio de gritinhos femininos por tanto esqueleto e teia de aranha a roçar os cabelos. Cheia de Benficas-Sportings nos matraquilhos, com uma ou outra excepção para Porto, Belenenses e até Vitória de Setúbal. Com restaurantes e barracas de tiro para caçadores de garrafas de anis, ponche e Eduardinho, ou de finos e luxuosos maços de John Player Special e Dunhill para impressionar o sexo oposto que suspirava por galãs de fotonovela.
Com um carrossel ao som da “Namoradinha de um Amigo Meu”, aviões voando, não com Wagner mas com o “Black is Black” dos Los Bravos, carros de choque movidos a “48 Crash” (com adrenalina) da Suzy Quatro, cadeirinhas girando velozmente com um “Rayo de Sol”, de Los Diablos, também um clássico do Conjunto Niger. Um circo sempre cheio e abrilhantado com sua glamorosa orquestra. A máquina da bruxa para ler a sina, algodão doce, torrão de Alicante e fartura de pinhões para além das farturas propriamente ditas. Já não sou do tempo do Grand Guignol, do homem-elefante, da mulher barbuda, nem nunca cheguei a ver Gabriel Mondlane exposto numa tenda, versão feirante do científico gabinete de curiosidades.
Mas graças a Deus que nasci a tempo da mulher-serpente, em bikini, dentro de uma caixa de vidro, com cobras enormes e gordas, rodopiando com ofídica volúpia pelo seu corpo lascivo, isto num tempo em que o cabelo da Florbela Queiroz era o que mais se aproximava de uma sensualidade cosmopolita e europeia. Deve ter sido nesse dia, com 7 ou 8 anos, que decidi ser heterossexual, como agora se diz. Enfim, uma feira de Março com colheres de pau, Salazares e tantos outros artigos, imprescindíveis numa casa portuguesa com certeza, e que era na feira que se compravam.
Há muito de medieval na feira de Março, não pela feira em si, mas por um impacto social que ficou retido no tempo. Hoje vai-se aos destroços que restam da feira para pôr o menino a dar uma voltinha no carrossel e assim descansar um bocadinho os olhos do gadget, mas houve um tempo em que a feira de Março era um acontecimento social que mobilizava milhares de pessoas, de todas as classes e idades, que aguardavam por ela para se divertirem de uma maneira que só na feira de Março seria possível e que enchia esta pacata vila de luz e de Graça.
© 2019 • www.jornaltorrejano.pt • jornal@jornaltorrejano.pt
Feira de Março
Opinião
» 2018-03-24
» José Ricardo Costa
Graças a Deus que nasci a tempo da mulher-serpente, em bikini, dentro de uma caixa de vidro
Com a feira medieval é recriado, todos os anos, em Torres Novas, um mundo que se tornou algo exótico. É verdade que exotismo serve para invocar certas comidas, animais, paisagens, culturas ou até alguns políticos, mas também há épocas que a distância tornou exóticas. É só uma questão de trocar a sopa de ninho de pássaros, o tucano, a praia com coqueiros ou políticos como Trump ou Maduro, por jograis, truões, segréis, trovadores ou almocreves. Mesmo profissões mais recentes já passaram de vez para a twilight zone. Pensar hoje em palafreneiro, ardina ou até num polícia sinaleiro em cima de um pedestal no largo da Botica, soa tão excêntrico como um engraxador na floresta amazónica, um alfaiate numa tribo da Papua-Nova Guiné, um bolivarista na Casa Branca.
Março em Torres Novas continua a ser mês de feira de Março. Feira, como a dos frutos secos, num espaço e tempo reais, em ambiente real e pessoas reais em vez de figurantes. Mas se pegarmos numa mesa de pé de galo para chamarmos a alma da velha feira de Março no Rossio de S. Sebastião (“Largo da Feira” para os mais íntimos), o que veremos é já tão irreal como uma carroça a subir a rua Miguel Arnide. A sério, se eu fosse da câmara municipal, passaria a organizar duas feiras históricas: a medieval em Junho e a de Março em Março, dando aos jovens duas experiências históricas em vez de uma.
Mas uma feira de Março mesmo feira de Março, com figurantes a fazer de gente antiga e com o espaço do Rossio cheio como um ovo. Com o radical e tonitruante poço da morte cujo ponto mais alto era o motard vir cá acima de olhos vendados e sem mãos. Com o tenebroso comboio-fantasma, cheio de gritinhos femininos por tanto esqueleto e teia de aranha a roçar os cabelos. Cheia de Benficas-Sportings nos matraquilhos, com uma ou outra excepção para Porto, Belenenses e até Vitória de Setúbal. Com restaurantes e barracas de tiro para caçadores de garrafas de anis, ponche e Eduardinho, ou de finos e luxuosos maços de John Player Special e Dunhill para impressionar o sexo oposto que suspirava por galãs de fotonovela.
Com um carrossel ao som da “Namoradinha de um Amigo Meu”, aviões voando, não com Wagner mas com o “Black is Black” dos Los Bravos, carros de choque movidos a “48 Crash” (com adrenalina) da Suzy Quatro, cadeirinhas girando velozmente com um “Rayo de Sol”, de Los Diablos, também um clássico do Conjunto Niger. Um circo sempre cheio e abrilhantado com sua glamorosa orquestra. A máquina da bruxa para ler a sina, algodão doce, torrão de Alicante e fartura de pinhões para além das farturas propriamente ditas. Já não sou do tempo do Grand Guignol, do homem-elefante, da mulher barbuda, nem nunca cheguei a ver Gabriel Mondlane exposto numa tenda, versão feirante do científico gabinete de curiosidades.
Mas graças a Deus que nasci a tempo da mulher-serpente, em bikini, dentro de uma caixa de vidro, com cobras enormes e gordas, rodopiando com ofídica volúpia pelo seu corpo lascivo, isto num tempo em que o cabelo da Florbela Queiroz era o que mais se aproximava de uma sensualidade cosmopolita e europeia. Deve ter sido nesse dia, com 7 ou 8 anos, que decidi ser heterossexual, como agora se diz. Enfim, uma feira de Março com colheres de pau, Salazares e tantos outros artigos, imprescindíveis numa casa portuguesa com certeza, e que era na feira que se compravam.
Há muito de medieval na feira de Março, não pela feira em si, mas por um impacto social que ficou retido no tempo. Hoje vai-se aos destroços que restam da feira para pôr o menino a dar uma voltinha no carrossel e assim descansar um bocadinho os olhos do gadget, mas houve um tempo em que a feira de Março era um acontecimento social que mobilizava milhares de pessoas, de todas as classes e idades, que aguardavam por ela para se divertirem de uma maneira que só na feira de Março seria possível e que enchia esta pacata vila de luz e de Graça.
Brasil, China, Entre-os-Rios e Novo Banco
» 2019-03-09
» Jorge Carreira Maia
1. A DOENÇA DO BRASIL. Apesar de sermos latinos e de permitirmos coisas inaceitáveis nos países do centro e do norte da Europa, ainda é difícil para os portugueses compreender a doença que ataca com virulência inusitada o Brasil. |
Remodelação, Bloco, Greves e Exames
» 2019-02-22
» Jorge Carreira Maia
1. REMODELAÇÃO DO GOVERNO. A importância da remodelação do governo ocorrida no início da semana é, do ponto de vista da orientação política, tendencialmente nula. |
Mulher
» 2019-02-21
» Margarida Oliveira
Se é adquirido que com o 25 de Abril de 1974, as mulheres alcançaram o reconhecimento dos seus direitos mais fundamentais, exigindo a igualdade na vida, entre mulheres e homens, certo é, que fora o que seria obrigatório conceder, com o objectivo de serenar os ânimos reivindicativos femininos, praticamente tudo continua por fazer. |
Em suma, não se fotografa o que se come, come-se para fotografar.
» 2019-02-21
» José Ricardo Costa
Por estranho que pareça, houve um tempo em que se ia ao restaurante sobretudo para comer. Sim, também para conviver, comemorar, fazer negócios, mas sempre com o prazer da boa mesa como alvo. Nós, portugueses, para além de comer adoramos falar sobre o que comemos, nem que seja para lembrar, com a expressão lúbrica do lobo dos desenhos animados, o maravilhoso cabrito com grelos que comemos há 20 anos. |
Aero… coisa, mas muito séria
» 2019-02-21
» António Gomes
A noticia teve origem na informação prestada em reunião de câmara pelo vice-presidente da mesma: aeroporto internacional, 4 Kms de pista, 160 voos/dia, 200 milhões de investimento, etc.. E foi apresentada com pompa e circunstância, uma grande mais valia para Torres Novas e arredores. |
Opções
» 2019-02-21
» Anabela Santos
E de repente, quando somos agradavelmente surpreendidos por um montante razoável em euros de que não estávamos à espera, a reação é de espanto e de alegria. Faz falta, é sempre bem vindo. A partir do momento em que recebemos tão agradável notícia, impõe-se um pensamento … o que fazer com todo o dinheiro recebido? |
Para quê tanto vermelho?
» 2019-02-21
» Ana Sentieiro
O Dia de São Valentim é, à semelhança do Carnaval, do Dia da Mulher, do Dia da Aproximação do Pi ou do próprio Dia do Pi, uma celebração à qual não foi atribuída o estatuto de feriado e, como tal, não é respeitada no agregado de festividades. |
Beija o chão e abraça a humilhação
» 2019-02-15
» Ana Sentieiro
Olá! O meu nome é Ana, mas podes tratar-me por “caloira” num tom agressivo e um tanto incomodativo ou, se preferires, “besta”, acompanhado com “Enche vinte!” entoado de um modo pouco sugestivo. |
Caixa, Marcelo, Venezuela e Papa
» 2019-02-08
» Jorge Carreira Maia
1. CAIXA GERAL DE DEPÓSITOS. O que se tem vindo a saber da Caixa Geral de Depósitos dá razão aos que, na União Europeia, julgam ser necessário impor uma espécie de protectorado aos países do sul da Europa. |
Lisboetas?
» 2019-02-07
» Inês Vidal
Tento fazer este exercício: o que é que as pessoas que não conhecem Torres Novas ficaram a saber sobre o nosso concelho, depois de lerem o artigo publicitário disfarçado de reportagem, que saiu no sábado numa alegada revista, de um honrado semanário nacional? Ora bem. |
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» 2019-02-22
» Jorge Carreira Maia
Remodelação, Bloco, Greves e Exames |
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» 2019-02-21
» Anabela Santos
Opções |
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» 2019-02-21
» António Gomes
Aero… coisa, mas muito séria |
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» 2019-02-21
» José Ricardo Costa
Em suma, não se fotografa o que se come, come-se para fotografar. |
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» 2019-02-21
» Margarida Oliveira
Mulher |