Ir ao dentista
Opinião
» 2018-04-04
» José Ricardo Costa
"No tempo em que ainda era uma pacata vila, havia quatro dentistas em Torres Novas: Silva Mendes, Faria, Aurelina e Orlando"
Na Idade Média, um italiano chamado Dante Alighieri escreveu uma obra chamada “Divina Comédia”, cuja primeira parte se chama “Inferno”. Sim, é muita chama para uma só frase mas vem a calhar pois bastou aquele ígneo título para o escritor ser promovido a padroeiro dos jornalistas-que-fazem-directos-durante-a-época-dos-incêndios, falando em “cenário dantesco” com a mesma naturalidade com que o Ronaldo marca golos, mas, no caso deste, sem a mesma volúpia literária, pois a caixa craniana com que se marcam os golos é menos dada à fineza intelectual dos clássicos do que o seu interior. Conta o poeta que o Inferno tem nove círculos, sendo verdade que em nenhum deles vamos encontrar dentistas. E nem podíamos encontrar, uma vez que nem o Quadrivium e muito menos o Trivium incluíam já o curso de Medicina Dentária. Mas no imaginário de grande parte das pessoas que sofreu o infortúnio de frequentar dentistas no século passado, bem se justificaria um décimo círculo só para eles.
No tempo em que ainda era uma pacata vila, havia quatro dentistas em Torres Novas: Silva Mendes, Faria, Aurelina e Orlando. Nomes, apenas nomes, mas que soavam aos quatro cavaleiros do Apocalipse. Não por acaso, uma das principais angústias dos torrejanos era tentar perceber, embora com versões contraditórias e muita contra-informação, qual deles seria o mais feroz ou o mais misericordioso. Atenção, não me refiro às pessoas. O meu dentista, Silva Mendes, era um homem gentil e de quem não tenho razões de queixa…fora do consultório. Mas pronto, eram dentistas e era o que bastava para olharmos para eles e ver o Peter Lorre de broca na mão dentro de um consultório que tanto faria lembrar o gabinete do dr. Caligari como o do dr. Mabuse.
Quem é velho como eu percebe-me. O dentista era possuidor de uma aura sinistra e ir a uma consulta transformava cada um de nós no Dustin Hoffman de boca aberta em «O Homem da Maratona». Uma tortura que, entretanto, começava antes de chegar à tétrica cadeira. Logo à entrada, com o tristemente famoso “cheiro a dentista”, que fazia logo aumentar os batimentos cardíacos e os níveis de stress no organismo e na psique. Depois, já na sala de espera, era o sinistro som da broca, vindo lá de dentro, intercalado com gritos de aflição, fazendo com que chegada a nossa vez lá chegássemos tão exangues como uma mulher que acabou de dar à luz. Conheço pessoas que desistiam enquanto esperavam e até quem deixasse apodrecer os dentes por se recusar sequer a marcar consulta. Compreende-se. Em Toledo, há um museu com instrumentos que eram usados pela Inquisição para tratar da saúde dos seus utentes. Se lá constasse a cadeira de um dentista com toda a sua horrenda parafernália, incluindo o cínico holofote, muitos nem dariam pelo anacronismo. Ora, é precisamente para evitar anacronismos e referências descontextualizadas que não posso falar em «cenário dantesco» como fazem os nossos repórteres. Mas se disser «cenário dentesco», consigo respeitar a verdade histórica e sem trair o seu mórbido significado.
Os tempos mudaram e ir hoje ao dentista é uma experiência nova, assim mais ou menos como chegar ao Evangelho, acabadinho de sair do Levítico. Nada de ameaça ou condenação. Os próprios consultórios são mais airosos e luminosos e os dentistas já não lembram o Peter Lorre, sendo antes uma mistura de José Carlos Malato e Sónia Araújo, de bata branca, sim, mas ar fofinho. Até porque quem é jovem vai ao dentista sobretudo para enfiar um aparelho nos dentes. Ou seja, um dentista já não é mais visto como furioso psicopata, um desventrador de bocas que arranca, broca, esburaca, destroça gengivas e olha para um dente arrancado como um tarado para um soutien, mas como esteticista que ilumina e embeleza sorrisos. Em suma, hoje vai-se ao dentista para, como na bela gastronomia italiana, ficar com a boca “al dente”. De novo a Itália mas já nada que ver com uma Itália dantesca.
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Ir ao dentista
Opinião
» 2018-04-04
» José Ricardo Costa
No tempo em que ainda era uma pacata vila, havia quatro dentistas em Torres Novas: Silva Mendes, Faria, Aurelina e Orlando
Na Idade Média, um italiano chamado Dante Alighieri escreveu uma obra chamada “Divina Comédia”, cuja primeira parte se chama “Inferno”. Sim, é muita chama para uma só frase mas vem a calhar pois bastou aquele ígneo título para o escritor ser promovido a padroeiro dos jornalistas-que-fazem-directos-durante-a-época-dos-incêndios, falando em “cenário dantesco” com a mesma naturalidade com que o Ronaldo marca golos, mas, no caso deste, sem a mesma volúpia literária, pois a caixa craniana com que se marcam os golos é menos dada à fineza intelectual dos clássicos do que o seu interior. Conta o poeta que o Inferno tem nove círculos, sendo verdade que em nenhum deles vamos encontrar dentistas. E nem podíamos encontrar, uma vez que nem o Quadrivium e muito menos o Trivium incluíam já o curso de Medicina Dentária. Mas no imaginário de grande parte das pessoas que sofreu o infortúnio de frequentar dentistas no século passado, bem se justificaria um décimo círculo só para eles.
No tempo em que ainda era uma pacata vila, havia quatro dentistas em Torres Novas: Silva Mendes, Faria, Aurelina e Orlando. Nomes, apenas nomes, mas que soavam aos quatro cavaleiros do Apocalipse. Não por acaso, uma das principais angústias dos torrejanos era tentar perceber, embora com versões contraditórias e muita contra-informação, qual deles seria o mais feroz ou o mais misericordioso. Atenção, não me refiro às pessoas. O meu dentista, Silva Mendes, era um homem gentil e de quem não tenho razões de queixa…fora do consultório. Mas pronto, eram dentistas e era o que bastava para olharmos para eles e ver o Peter Lorre de broca na mão dentro de um consultório que tanto faria lembrar o gabinete do dr. Caligari como o do dr. Mabuse.
Quem é velho como eu percebe-me. O dentista era possuidor de uma aura sinistra e ir a uma consulta transformava cada um de nós no Dustin Hoffman de boca aberta em «O Homem da Maratona». Uma tortura que, entretanto, começava antes de chegar à tétrica cadeira. Logo à entrada, com o tristemente famoso “cheiro a dentista”, que fazia logo aumentar os batimentos cardíacos e os níveis de stress no organismo e na psique. Depois, já na sala de espera, era o sinistro som da broca, vindo lá de dentro, intercalado com gritos de aflição, fazendo com que chegada a nossa vez lá chegássemos tão exangues como uma mulher que acabou de dar à luz. Conheço pessoas que desistiam enquanto esperavam e até quem deixasse apodrecer os dentes por se recusar sequer a marcar consulta. Compreende-se. Em Toledo, há um museu com instrumentos que eram usados pela Inquisição para tratar da saúde dos seus utentes. Se lá constasse a cadeira de um dentista com toda a sua horrenda parafernália, incluindo o cínico holofote, muitos nem dariam pelo anacronismo. Ora, é precisamente para evitar anacronismos e referências descontextualizadas que não posso falar em «cenário dantesco» como fazem os nossos repórteres. Mas se disser «cenário dentesco», consigo respeitar a verdade histórica e sem trair o seu mórbido significado.
Os tempos mudaram e ir hoje ao dentista é uma experiência nova, assim mais ou menos como chegar ao Evangelho, acabadinho de sair do Levítico. Nada de ameaça ou condenação. Os próprios consultórios são mais airosos e luminosos e os dentistas já não lembram o Peter Lorre, sendo antes uma mistura de José Carlos Malato e Sónia Araújo, de bata branca, sim, mas ar fofinho. Até porque quem é jovem vai ao dentista sobretudo para enfiar um aparelho nos dentes. Ou seja, um dentista já não é mais visto como furioso psicopata, um desventrador de bocas que arranca, broca, esburaca, destroça gengivas e olha para um dente arrancado como um tarado para um soutien, mas como esteticista que ilumina e embeleza sorrisos. Em suma, hoje vai-se ao dentista para, como na bela gastronomia italiana, ficar com a boca “al dente”. De novo a Itália mas já nada que ver com uma Itália dantesca.
Brasil, China, Entre-os-Rios e Novo Banco
» 2019-03-09
» Jorge Carreira Maia
1. A DOENÇA DO BRASIL. Apesar de sermos latinos e de permitirmos coisas inaceitáveis nos países do centro e do norte da Europa, ainda é difícil para os portugueses compreender a doença que ataca com virulência inusitada o Brasil. |
Remodelação, Bloco, Greves e Exames
» 2019-02-22
» Jorge Carreira Maia
1. REMODELAÇÃO DO GOVERNO. A importância da remodelação do governo ocorrida no início da semana é, do ponto de vista da orientação política, tendencialmente nula. |
Mulher
» 2019-02-21
» Margarida Oliveira
Se é adquirido que com o 25 de Abril de 1974, as mulheres alcançaram o reconhecimento dos seus direitos mais fundamentais, exigindo a igualdade na vida, entre mulheres e homens, certo é, que fora o que seria obrigatório conceder, com o objectivo de serenar os ânimos reivindicativos femininos, praticamente tudo continua por fazer. |
Em suma, não se fotografa o que se come, come-se para fotografar.
» 2019-02-21
» José Ricardo Costa
Por estranho que pareça, houve um tempo em que se ia ao restaurante sobretudo para comer. Sim, também para conviver, comemorar, fazer negócios, mas sempre com o prazer da boa mesa como alvo. Nós, portugueses, para além de comer adoramos falar sobre o que comemos, nem que seja para lembrar, com a expressão lúbrica do lobo dos desenhos animados, o maravilhoso cabrito com grelos que comemos há 20 anos. |
Aero… coisa, mas muito séria
» 2019-02-21
» António Gomes
A noticia teve origem na informação prestada em reunião de câmara pelo vice-presidente da mesma: aeroporto internacional, 4 Kms de pista, 160 voos/dia, 200 milhões de investimento, etc.. E foi apresentada com pompa e circunstância, uma grande mais valia para Torres Novas e arredores. |
Opções
» 2019-02-21
» Anabela Santos
E de repente, quando somos agradavelmente surpreendidos por um montante razoável em euros de que não estávamos à espera, a reação é de espanto e de alegria. Faz falta, é sempre bem vindo. A partir do momento em que recebemos tão agradável notícia, impõe-se um pensamento … o que fazer com todo o dinheiro recebido? |
Para quê tanto vermelho?
» 2019-02-21
» Ana Sentieiro
O Dia de São Valentim é, à semelhança do Carnaval, do Dia da Mulher, do Dia da Aproximação do Pi ou do próprio Dia do Pi, uma celebração à qual não foi atribuída o estatuto de feriado e, como tal, não é respeitada no agregado de festividades. |
Beija o chão e abraça a humilhação
» 2019-02-15
» Ana Sentieiro
Olá! O meu nome é Ana, mas podes tratar-me por “caloira” num tom agressivo e um tanto incomodativo ou, se preferires, “besta”, acompanhado com “Enche vinte!” entoado de um modo pouco sugestivo. |
Caixa, Marcelo, Venezuela e Papa
» 2019-02-08
» Jorge Carreira Maia
1. CAIXA GERAL DE DEPÓSITOS. O que se tem vindo a saber da Caixa Geral de Depósitos dá razão aos que, na União Europeia, julgam ser necessário impor uma espécie de protectorado aos países do sul da Europa. |
Lisboetas?
» 2019-02-07
» Inês Vidal
Tento fazer este exercício: o que é que as pessoas que não conhecem Torres Novas ficaram a saber sobre o nosso concelho, depois de lerem o artigo publicitário disfarçado de reportagem, que saiu no sábado numa alegada revista, de um honrado semanário nacional? Ora bem. |
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» 2019-02-22
» Jorge Carreira Maia
Remodelação, Bloco, Greves e Exames |
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» 2019-02-21
» Anabela Santos
Opções |
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» 2019-02-21
» António Gomes
Aero… coisa, mas muito séria |
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» 2019-02-21
» José Ricardo Costa
Em suma, não se fotografa o que se come, come-se para fotografar. |
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» 2019-02-21
» Margarida Oliveira
Mulher |