• SOCIEDADE-  • CULTURA  • DESPORTO  • OPINIÃO
  Segunda, 20 Maio 2019    |      Directora: Inês Vidal    |      Estatuto Editorial    |      História do JT
   Pesquisar...
Qui.
 26° / 12°
Períodos nublados
Qua.
 27° / 12°
Períodos nublados
Ter.
 24° / 11°
Céu nublado
Torres Novas
Hoje  23° / 10°
Períodos nublados
       #Alcanena    #Entroncamento    #Golega    #Barquinha    #Constancia 

Em suma, não se fotografa o que se come, come-se para fotografar.

Opinião  »  2019-02-21  »  José Ricardo Costa

Por estranho que pareça, houve um tempo em que se ia ao restaurante sobretudo para comer. Sim, também para conviver, comemorar, fazer negócios, mas sempre com o prazer da boa mesa como alvo. Nós, portugueses, para além de comer adoramos falar sobre o que comemos, nem que seja para lembrar, com a expressão lúbrica do lobo dos desenhos animados, o maravilhoso cabrito com grelos que comemos há 20 anos. Já ouvi estrangeiros a desabafar por causa do tempo que passamos a falar de comida, tendo eu de enfiar a carapuça por fazer parte do rol. Mas soubessem eles um bocadinho de Filosofia e calavam-se.

Um filósofo inglês escreveu um livro chamado How To Do Things Words para explicar precisamente que as palavras servem para dizer mas também podem servir para praticar acções. É verdade que deixou de fora conversas sobre comida mas isso explica-se por ele ser inglês e a gastronomia inglesa, ao contrário de tantas coisas boas que há por lá, que certamente não incluem o Boris Johnson, ser a tristeza que se sabe. Mas faria todo o sentido. Há momentos em que não podemos comer o que mais gostamos, o que acontece sobretudo depois de morrermos. Mas também porque nem sempre a comida está à mão de semear como acontece quando se está em Torres Novas e de repente se tem o desejo de uns rojões com papas de sarrabulho, ou porque são dez da manhã e não é a hora mais indicada para um ensopado de borrego como o da semana anterior. Mas cá está: quando três portuguese estão diante de um pires de tremoços a filosofar, recordando com salivar lascívia os rojões com papas de sarrabulho que os encheu de felicidade há oito anos em Ponte de Lima, ocorre um processo bioquímico no cérebro que induz um prazer gastronómico equivalente. E se dez da manhã não é hora para ensopadas ousadias, o enorme prazer em falar delas é reconfortante placebo cuja digestão enleva o espírito sem destrambelhar a tripa.

E não é por acaso. Outro filósofo, neste caso escocês, lembra que as sensações e as ideias têm o mesmo conteúdo, o que ajuda a explicar o que sinto quando falo daqueles doces escandalosamente enjoativos como a Coroa de Abadessa da pastelaria Alcoa ou as trouxas de ovos ali da Chamusca. Eu juro que estou a escrever isto e a sentir a água a crescer-me na boca mas como as ideias não enjoam fico livre para continuar com inócuas volúpias e poder passar longos e felizes momentos a falar sobre o assunto. Estamos pois entendidos no que diz respeito à mais do que legítima relação entre a linguagem e a comida.

Mas parece que estamos em vias de mudar de paradigma na relação entre comensal e comida, assistindo-se ao que Kant, noutro contexto, chamou “Revolução Copernicana”. Há tempos, recebi um mail do TripAdvisor que dizia: «José, estes 14 restaurantes são ótimos para postar no Instagram”. Fiquei estarrecido. Não por não ter Instagram mas por acontecer o mesmo que em tempos com a Astronomia quando passou de um modelo geocêntrico para um outro heliocêntrico. Agora, sim, entendo por que razão passei a ver com frequência pessoas que em vez de estarem regaladas a comer, estão regaladas a fotografar o que comem ou regaladas também a fotografarem-se a comer o que estão a fotografar. Em suma, não se fotografa o que se come, come-se para fotografar.

Perdoem-me a pureza patriótica mas esta gente não pode ser considerada verdadeiramente portuguesa, filhos de um país que deu ao mundo tantos maravilhosos pratos mas também com tanto português que lhes faz justiça, mimando o paladar ou ainda dissertando sobre eles em amena e gulosa cavaqueira. Tudo o resto é pura vaidade pós-moderna, conceito que há muito deixou de ter significado mas também é verdade que há coisas cujo significado mais vale querer esquecer. Neste caso, aproveitando a onda: comer para esquecer. Dizia-se que há as pessoas que comem para viver e outras que vivem para comer. Acrescente-se agora uma terceira espécie: as que comem para serem vistas a comer. Mal empregada comida, nozes dadas por Deus a quem não tem dentes: só olho e polegares.

 

 

 Outras notícias - Opinião


Crise, Professores, Brexit e Venezuela »  2019-05-11  »  Jorge Carreira Maia

1. CRISE POLÍTICA. A questão da contagem do tempo de serviço congelado dos professores foi uma bênção caída do céu para os socialistas. Deu-lhes oportunidade de se mostrarem responsáveis, e mostrou uma oposição de direita desorientada, perdida entre o eleitoralismo puro e duro e, quando confrontada com a reacção de António Costa, em recuo humilhante perante a opinião pública.
(ler mais...)


Sondagens, Marcelo, Anos Sessenta e Notre-Dame »  2019-04-20  »  Jorge Carreira Maia

AS SONDAGENS E AS FAMÍLIAS. As sondagens reflectem já o desgaste que os socialistas estão a sofrer devido à trapalhada em que se meteram com as ligações familiares na governação.
(ler mais...)


O porco »  2019-04-20  »  Inês Vidal

Sentei-me no café a tentar escrever este “vinte”. Erro. A ideia que trazia, rapidamente se confundiu com a voz que esganiçada me ecoava repetidamente ao ouvido, vinda de uma televisão em altos berros, a história do terror – muito terror – de um jovem, um homem e um cão.
(ler mais...)


A FALTA DE ÉTICA QUE ANDA POR AÍ »  2019-04-20  »  João Lérias

Com os recentes casos das nomeações de pais e filhas, maridos e mulheres, primos e sei lá que mais, o país parece ter acordado para uma nova realidade que, não sendo nova, desta vez, sobretudo pela sua dimensão, é censurável.
(ler mais...)


A vitória do Chile »  2019-04-20  »  José Ricardo Costa

Torres Novas é uma terra cheia de ruínas, o que dá uma enorme tristeza e uma espécie de infelicidade urbana para a qual não conheço palavra. Ruínas não deveriam ser onde vivem pessoas mas em Pompeia, castelos na Escócia, abadias em Inglaterra ou anfiteatros na Grécia, onde apenas vivem fantasmas pacificamente misturados com turistas que chegam e logo partem.
(ler mais...)


A transparência das águas »  2019-04-20  »  António Gomes

Neste novo ano entrou em vigor um novo tarifário: pode-se mesmo dizer um novo e radical tarifário da empresa “Águas do Ribatejo”. A Águas do Ribatejo é uma empresa pública detida a 100% por 7 municípios do Ribatejo e que tem vindo a reerguer os sistemas de abastecimento de água e de saneamento que se encontravam na generalidade dos casos em péssimas condições.
(ler mais...)


Amor, vamos dar um tempo »  2019-04-20  »  Ana Sentieiro

Puberdade, temo que interpretes as minhas palavras de modo leviano, mas penso que chegámos àquele momento da relação em que já não faz sentido continuar. Desculpa, não tenciono desvalorizar o teu impacto em mim ou na minha vida nestes últimos anos que tivemos juntos, aliás, qualquer pessoa perceberia, ao olhar para a minha cara, iluminada por um tímido sorriso, que a tua presença era constante, quase como se fossemos um só.
(ler mais...)


Legislativas, Rui Rio, Refundações e Turquia »  2019-04-06  »  Jorge Carreira Maia

ELEIÇÕES LEGISLATIVAS. Ainda há que passar pelas eleições para o Parlamento Europeu, mas o acto político decisivo só chega com as legislativas. Aquilo que até aqui parecia inevitável, uma vitória com maioria relativa do PS e uma derrota da direita, não estará completamente seguro.
(ler mais...)


A família socialista, a democracia comunista, a transferência centrista e o terrorismo »  2019-03-23  »  Jorge Carreira Maia

A FAMÍLIA SOCIALISTA. O governo parece um lugar de convívio de famílias amigas. Não bastava já haver um casal de ministros e um ministro pai e uma ministra filha desse pai, agora a mulher de um outro ministro foi nomeada chefe de gabinete do Secretário de Estado Adjunto e dos Assuntos Parlamentares, cargo ocupado anteriormente pelo marido.
(ler mais...)


Como dantes não se falava, também não se dava por ela. »  2019-03-22  »  José Ricardo Costa


Qualquer pessoa normal é contra a violência doméstica. Acontece que não gosto da expressão “violência doméstica”, demasiado sociológica, urbana, abstracta, mera etiqueta que não faz jus ao tipo de aberração que pretende traduzir.
(ler mais...)

 Mais lidas - Opinião (últimos 30 dias)
»  2019-04-20  »  Jorge Carreira Maia Sondagens, Marcelo, Anos Sessenta e Notre-Dame
»  2019-04-20  »  José Ricardo Costa A vitória do Chile
»  2019-04-20  »  Ana Sentieiro Amor, vamos dar um tempo
»  2019-04-20  »  António Gomes A transparência das águas
»  2019-04-20  »  Inês Vidal O porco