Em suma, não se fotografa o que se come, come-se para fotografar.
Opinião
» 2019-02-21
» José Ricardo Costa
Por estranho que pareça, houve um tempo em que se ia ao restaurante sobretudo para comer. Sim, também para conviver, comemorar, fazer negócios, mas sempre com o prazer da boa mesa como alvo. Nós, portugueses, para além de comer adoramos falar sobre o que comemos, nem que seja para lembrar, com a expressão lúbrica do lobo dos desenhos animados, o maravilhoso cabrito com grelos que comemos há 20 anos. Já ouvi estrangeiros a desabafar por causa do tempo que passamos a falar de comida, tendo eu de enfiar a carapuça por fazer parte do rol. Mas soubessem eles um bocadinho de Filosofia e calavam-se.
Um filósofo inglês escreveu um livro chamado How To Do Things Words para explicar precisamente que as palavras servem para dizer mas também podem servir para praticar acções. É verdade que deixou de fora conversas sobre comida mas isso explica-se por ele ser inglês e a gastronomia inglesa, ao contrário de tantas coisas boas que há por lá, que certamente não incluem o Boris Johnson, ser a tristeza que se sabe. Mas faria todo o sentido. Há momentos em que não podemos comer o que mais gostamos, o que acontece sobretudo depois de morrermos. Mas também porque nem sempre a comida está à mão de semear como acontece quando se está em Torres Novas e de repente se tem o desejo de uns rojões com papas de sarrabulho, ou porque são dez da manhã e não é a hora mais indicada para um ensopado de borrego como o da semana anterior. Mas cá está: quando três portuguese estão diante de um pires de tremoços a filosofar, recordando com salivar lascívia os rojões com papas de sarrabulho que os encheu de felicidade há oito anos em Ponte de Lima, ocorre um processo bioquímico no cérebro que induz um prazer gastronómico equivalente. E se dez da manhã não é hora para ensopadas ousadias, o enorme prazer em falar delas é reconfortante placebo cuja digestão enleva o espírito sem destrambelhar a tripa.
E não é por acaso. Outro filósofo, neste caso escocês, lembra que as sensações e as ideias têm o mesmo conteúdo, o que ajuda a explicar o que sinto quando falo daqueles doces escandalosamente enjoativos como a Coroa de Abadessa da pastelaria Alcoa ou as trouxas de ovos ali da Chamusca. Eu juro que estou a escrever isto e a sentir a água a crescer-me na boca mas como as ideias não enjoam fico livre para continuar com inócuas volúpias e poder passar longos e felizes momentos a falar sobre o assunto. Estamos pois entendidos no que diz respeito à mais do que legítima relação entre a linguagem e a comida.
Mas parece que estamos em vias de mudar de paradigma na relação entre comensal e comida, assistindo-se ao que Kant, noutro contexto, chamou “Revolução Copernicana”. Há tempos, recebi um mail do TripAdvisor que dizia: «José, estes 14 restaurantes são ótimos para postar no Instagram”. Fiquei estarrecido. Não por não ter Instagram mas por acontecer o mesmo que em tempos com a Astronomia quando passou de um modelo geocêntrico para um outro heliocêntrico. Agora, sim, entendo por que razão passei a ver com frequência pessoas que em vez de estarem regaladas a comer, estão regaladas a fotografar o que comem ou regaladas também a fotografarem-se a comer o que estão a fotografar. Em suma, não se fotografa o que se come, come-se para fotografar.
Perdoem-me a pureza patriótica mas esta gente não pode ser considerada verdadeiramente portuguesa, filhos de um país que deu ao mundo tantos maravilhosos pratos mas também com tanto português que lhes faz justiça, mimando o paladar ou ainda dissertando sobre eles em amena e gulosa cavaqueira. Tudo o resto é pura vaidade pós-moderna, conceito que há muito deixou de ter significado mas também é verdade que há coisas cujo significado mais vale querer esquecer. Neste caso, aproveitando a onda: comer para esquecer. Dizia-se que há as pessoas que comem para viver e outras que vivem para comer. Acrescente-se agora uma terceira espécie: as que comem para serem vistas a comer. Mal empregada comida, nozes dadas por Deus a quem não tem dentes: só olho e polegares.
© 2019 • www.jornaltorrejano.pt • jornal@jornaltorrejano.pt
Em suma, não se fotografa o que se come, come-se para fotografar.
Opinião
» 2019-02-21
» José Ricardo Costa
Por estranho que pareça, houve um tempo em que se ia ao restaurante sobretudo para comer. Sim, também para conviver, comemorar, fazer negócios, mas sempre com o prazer da boa mesa como alvo. Nós, portugueses, para além de comer adoramos falar sobre o que comemos, nem que seja para lembrar, com a expressão lúbrica do lobo dos desenhos animados, o maravilhoso cabrito com grelos que comemos há 20 anos. Já ouvi estrangeiros a desabafar por causa do tempo que passamos a falar de comida, tendo eu de enfiar a carapuça por fazer parte do rol. Mas soubessem eles um bocadinho de Filosofia e calavam-se.
Um filósofo inglês escreveu um livro chamado How To Do Things Words para explicar precisamente que as palavras servem para dizer mas também podem servir para praticar acções. É verdade que deixou de fora conversas sobre comida mas isso explica-se por ele ser inglês e a gastronomia inglesa, ao contrário de tantas coisas boas que há por lá, que certamente não incluem o Boris Johnson, ser a tristeza que se sabe. Mas faria todo o sentido. Há momentos em que não podemos comer o que mais gostamos, o que acontece sobretudo depois de morrermos. Mas também porque nem sempre a comida está à mão de semear como acontece quando se está em Torres Novas e de repente se tem o desejo de uns rojões com papas de sarrabulho, ou porque são dez da manhã e não é a hora mais indicada para um ensopado de borrego como o da semana anterior. Mas cá está: quando três portuguese estão diante de um pires de tremoços a filosofar, recordando com salivar lascívia os rojões com papas de sarrabulho que os encheu de felicidade há oito anos em Ponte de Lima, ocorre um processo bioquímico no cérebro que induz um prazer gastronómico equivalente. E se dez da manhã não é hora para ensopadas ousadias, o enorme prazer em falar delas é reconfortante placebo cuja digestão enleva o espírito sem destrambelhar a tripa.
E não é por acaso. Outro filósofo, neste caso escocês, lembra que as sensações e as ideias têm o mesmo conteúdo, o que ajuda a explicar o que sinto quando falo daqueles doces escandalosamente enjoativos como a Coroa de Abadessa da pastelaria Alcoa ou as trouxas de ovos ali da Chamusca. Eu juro que estou a escrever isto e a sentir a água a crescer-me na boca mas como as ideias não enjoam fico livre para continuar com inócuas volúpias e poder passar longos e felizes momentos a falar sobre o assunto. Estamos pois entendidos no que diz respeito à mais do que legítima relação entre a linguagem e a comida.
Mas parece que estamos em vias de mudar de paradigma na relação entre comensal e comida, assistindo-se ao que Kant, noutro contexto, chamou “Revolução Copernicana”. Há tempos, recebi um mail do TripAdvisor que dizia: «José, estes 14 restaurantes são ótimos para postar no Instagram”. Fiquei estarrecido. Não por não ter Instagram mas por acontecer o mesmo que em tempos com a Astronomia quando passou de um modelo geocêntrico para um outro heliocêntrico. Agora, sim, entendo por que razão passei a ver com frequência pessoas que em vez de estarem regaladas a comer, estão regaladas a fotografar o que comem ou regaladas também a fotografarem-se a comer o que estão a fotografar. Em suma, não se fotografa o que se come, come-se para fotografar.
Perdoem-me a pureza patriótica mas esta gente não pode ser considerada verdadeiramente portuguesa, filhos de um país que deu ao mundo tantos maravilhosos pratos mas também com tanto português que lhes faz justiça, mimando o paladar ou ainda dissertando sobre eles em amena e gulosa cavaqueira. Tudo o resto é pura vaidade pós-moderna, conceito que há muito deixou de ter significado mas também é verdade que há coisas cujo significado mais vale querer esquecer. Neste caso, aproveitando a onda: comer para esquecer. Dizia-se que há as pessoas que comem para viver e outras que vivem para comer. Acrescente-se agora uma terceira espécie: as que comem para serem vistas a comer. Mal empregada comida, nozes dadas por Deus a quem não tem dentes: só olho e polegares.
Brasil, China, Entre-os-Rios e Novo Banco
» 2019-03-09
» Jorge Carreira Maia
1. A DOENÇA DO BRASIL. Apesar de sermos latinos e de permitirmos coisas inaceitáveis nos países do centro e do norte da Europa, ainda é difícil para os portugueses compreender a doença que ataca com virulência inusitada o Brasil. |
Remodelação, Bloco, Greves e Exames
» 2019-02-22
» Jorge Carreira Maia
1. REMODELAÇÃO DO GOVERNO. A importância da remodelação do governo ocorrida no início da semana é, do ponto de vista da orientação política, tendencialmente nula. |
Mulher
» 2019-02-21
» Margarida Oliveira
Se é adquirido que com o 25 de Abril de 1974, as mulheres alcançaram o reconhecimento dos seus direitos mais fundamentais, exigindo a igualdade na vida, entre mulheres e homens, certo é, que fora o que seria obrigatório conceder, com o objectivo de serenar os ânimos reivindicativos femininos, praticamente tudo continua por fazer. |
Aero… coisa, mas muito séria
» 2019-02-21
» António Gomes
A noticia teve origem na informação prestada em reunião de câmara pelo vice-presidente da mesma: aeroporto internacional, 4 Kms de pista, 160 voos/dia, 200 milhões de investimento, etc.. E foi apresentada com pompa e circunstância, uma grande mais valia para Torres Novas e arredores. |
Opções
» 2019-02-21
» Anabela Santos
E de repente, quando somos agradavelmente surpreendidos por um montante razoável em euros de que não estávamos à espera, a reação é de espanto e de alegria. Faz falta, é sempre bem vindo. A partir do momento em que recebemos tão agradável notícia, impõe-se um pensamento … o que fazer com todo o dinheiro recebido? |
Para quê tanto vermelho?
» 2019-02-21
» Ana Sentieiro
O Dia de São Valentim é, à semelhança do Carnaval, do Dia da Mulher, do Dia da Aproximação do Pi ou do próprio Dia do Pi, uma celebração à qual não foi atribuída o estatuto de feriado e, como tal, não é respeitada no agregado de festividades. |
Beija o chão e abraça a humilhação
» 2019-02-15
» Ana Sentieiro
Olá! O meu nome é Ana, mas podes tratar-me por “caloira” num tom agressivo e um tanto incomodativo ou, se preferires, “besta”, acompanhado com “Enche vinte!” entoado de um modo pouco sugestivo. |
Caixa, Marcelo, Venezuela e Papa
» 2019-02-08
» Jorge Carreira Maia
1. CAIXA GERAL DE DEPÓSITOS. O que se tem vindo a saber da Caixa Geral de Depósitos dá razão aos que, na União Europeia, julgam ser necessário impor uma espécie de protectorado aos países do sul da Europa. |
Lisboetas?
» 2019-02-07
» Inês Vidal
Tento fazer este exercício: o que é que as pessoas que não conhecem Torres Novas ficaram a saber sobre o nosso concelho, depois de lerem o artigo publicitário disfarçado de reportagem, que saiu no sábado numa alegada revista, de um honrado semanário nacional? Ora bem. |
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» 2019-02-22
» Jorge Carreira Maia
Remodelação, Bloco, Greves e Exames |
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» 2019-02-21
» Anabela Santos
Opções |
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» 2019-02-21
» António Gomes
Aero… coisa, mas muito séria |
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» 2019-02-21
» José Ricardo Costa
Em suma, não se fotografa o que se come, come-se para fotografar. |
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» 2019-02-21
» Margarida Oliveira
Mulher |