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A entrevista que ficou por escrever - inês vidal (texto integral)

Opinião  »  2020-12-03  »  Inês Vidal

Tenho o péssimo hábito (péssimo para mim, óptimo para quem me rodeia) de não poupar elogios, ao mesmo tempo que guardo para mim grande parte das críticas, num jeito conveniente de evitar o confronto que me incomoda, mas que é tantas vezes, se não sempre, fulcral em qualquer saudável relacionamento, seja ele de que cariz for.
Mas como dizia, não costumo poupar elogios. Tento não deixar nada de bom por dizer. Das poucas vezes em que tive consciência de que me estava a despedir de alguém, agradeci sempre, disse o quanto amava, beijei, abracei (naqueles tempos idos em que ainda o podíamos fazer), frisei o quanto me ensinaram e a tamanha falta que me iriam fazer. Consigo lembrar-me de umas tantas vezes que o fiz. Foi bom. Facilita a partida de quem vai, pelo menos para quem cá fica. Egoísmo, talvez.

Sinto, por tudo isso, um sufocante aperto no peito neste momento. A cabeça não pára quando a deito, as ideias correm num encadeamento alucinante. Sinto-me frustrada. Sinto que pela primeira vez, não me despedi de alguém, que deixei tudo por dizer, tanto por escrever...

Fernando Duque Simões, facilmente identificado pela maioria como proprietário da Fótica, mas muito mais do que apenas isso por quem o conheceu, morreu na passada semana. E eu não me despedi. Não lhe disse tudo o que gostava de lhe ter dito, o que ele merecia ter ouvido. Se, por um lado, não esperava que o fim chegasse tão cedo, por outro uma pandemia e um desprezível “afastamento social” roubaram-nos oito meses de partilha e convívio.

Sou uma privilegiada. Tenho tido a sorte de cair nas graças de pessoas geniais. Não sei se pelo meu lado arisco, às vezes, se pela ironia que carrego nos dias bons. Não sei porquê. A verdade é que tenho tido a sorte de me cruzar com pessoas com histórias de vida fantásticas, inteligentes, seres superiores que, gostando de mim, fazem questão de me transformar com as suas experiências, que absorvo como dogmas.

Foram várias as vezes que lhe pedi uma entrevista. Não queria que toda aquela história morresse ali. Para mim, as histórias são para ser contadas, partilhadas, para correr gerações... Nunca ma deu. Gostava de mim. Se o fizesse, faria-o comigo. Mas não o podia fazer. Os princípios de gente como já não se faz nos dias que correm, impediam-no. Tinha uma casa aberta ao público e não queria ferir susceptibilidades. A sua história era a sua, mas os clientes eram todos. Percebi. Respeitei. Mas nunca me perdoarei por não ter deixado escrita aquela história.

Eu e Fernando Duque Simões tínhamos um ritual. Ele entrava na farmácia, sentava-se no banco de braços cruzados, no seu casaco cinzento e, com um jeito de cabeça que eu já tão bem percebia, chamava-me para o seu lado. Era dos poucos sobreviventes do verdadeiro espírito do largo da botica: parar para colocar a conversa em dia.

Dizia-me sempre que anos antes também ali se sentava, mas com o meu avô. Agora, era a minha vez. E ali, durante uns minutos, que poderiam ser horas, discutíamos o mundo, olhávamos moribundos o nosso centro passado à história, riamo-nos das politiquices de trazer por casa que nos rodeavam. Ao ouvido, sussurrava-me que as minhas linhas andavam brandas de mais. Espicaçava-me. Não queria que me acomodasse a uma terra que era, no seu entender, pequena de mais para mim. Lutava comigo, insistia: “Inês, está sub-aproveitada aqui”. Queria que eu visse em mim o que ele conseguia ver.

São poucas as pessoas que se cruzam no nosso caminho, que realmente no vêem, nos conhecem e reconhecem... Eu já tive a sorte de me cruzar com duas ou três. E uma delas foi, sem sombra de dúvida, Fernando Duque Simões, que agora nos deixou. Não sei se lhe agradeci convenientemente o privilégio que tive em se ter cruzado no meu caminho, em ter sido meu amigo, em me ter visto com olhos de quem sabe ver. Espero, pelo menos, estar à altura de não deixar cair em vão os sonhos que tinha para mim.

A entrevista, essa, nunca a poderei escrever. Mas uma história assim não morre aqui.
Obrigada.

N.R. Por lapso, este texto foi publicado incompleto  inicialmente.

 

 

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