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A biblioteca no mercado semanal

Opinião  »  2019-12-05  »  António Gomes

"Este mercado é vítima das grandes superfícies comerciais."

A Biblioteca Municipal Gustavo Pinto Lopes mudou-se para o mercado, literalmente. Às terças, quinzenalmente, é lá que se encontra.

Misturar as couves, as cebolas, o pão, o queijo, as flores e as pessoas com os livros é uma ideia que deve ser valorizada e apreciada. As grandes superfícies comerciais têm lá isto tudo (pagando) mas não estão misturados. Passar da banca do pão para a banca do queijo ou da hortaliça e pelo caminho encontrar a banca dos livros é de uma frescura tocante.

Esta coisa de ir ao mercado comprar/vender hortaliça e levantar livros, ou simplesmente olhar para os livros, é um contributo enorme do ponto de vista cultural para o povo do concelho. É muito mais que uma extensão do edifício da biblioteca, é ouvir aqueles e aquelas que nunca foram ou alguma vez irão a uma biblioteca, é receber as histórias das pessoas que finalizados os estudos obrigatórios se afastaram, sem o perceberem, desta parte da vida que é o contacto com os livros.

Agora, nos encontros de terça-feira, para além do negócio, da apanha da azeitona ou do figo, do filho ou neta que nasceu, do parente ou vizinho que nos deixou, acrescenta-se à conversa a banca dos livros.

Este mercado é vítima das grandes superfícies comerciais. Os vendedores e vendedeiras que ali ganham a sua vida e um número reduzido de frequentadores e compradores são os heróis daquele espaço. Têm-no mantido de portas abertas, contra a inércia do poder político instalado nos paços do concelho.

O mercado encontra-se degradado, não tem capacidade de atracção, não tem condições de trabalho, há muito que ouvimos falar de um projecto de renovação. De tempos a tempos lá vem o lembrete, vai haver obras. Podem não proceder à reparação das caixas de correio existentes logo à entrada: então retirem-nas simplesmente e já estão a fazer alguma coisa para retirar o ar de abandono àquele espaço.

Quem agora vai ao mercado, pode levar livros de forma gratuita para casa. Estou certo que quem levar os livros leva mais calor para casa, como diz a canção, a propósito das castanhas.

 

 

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