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O mundo a seus pés

Opinião  »  2019-12-18  »  José Ricardo Costa

"De cigarro na mão, tão descontraído como se estivesse à porta do café ou à espera de transporte, este homem faz nascer um estádio."

Não faço ideia se esta fotografia, que quase enche a capa do último JT, foi feita com a intenção de se tornar no que é: um extraordinário objecto fotográfico. Se não foi, torna-se assim um daqueles acasos que nos aparecem como se possuíssem a sua própria racionalidade.

Eu já vi esta fotografia, embora como pintura, tendo outras personagens: Infante D. Henrique contemplando o infinito oceano, Marquês do Pombal diante Lisboa, Napoleão Bonaparte sobre o campo de batalha. Imagens em que o olhar de um herói diante da paisagem reflecte a dimensão do seu poder. Neste caso o impacto é ainda maior, não só pela completa descontinuidade nas escalas, fazendo Fernando Cunha subjugar a paisagem como Gulliver em Lilliput mas também pela separação entre os dois níveis de realidade, mostrando-o como uma espécie de Artífice platónico de cuja inteligência depende a existência das coisas materiais.

Mas há ainda um pormenor (apoiando-me em Roland Barthes chamar-lhe-ei o punctum desta imagem) que não pode ser desprezado: o cigarro na mão. Quando as figuras que referi anteriormente foram pintadas, a ideia seria sugerir, graças a uma engenhosa retórica visual, uma espécie de aura sobrenatural de alguém que, sendo humano, estaria para lá da humanidade. Ora, este cigarro, se por um lado, humaniza a personagem, tornando-o um de nós, retirando-lhe, desse modo, a aura de pureza e de super-homem associada aos grandes estadistas que alimentam uma relação paternalista com os seus povos, ao criar esse efeito íntimo enquanto olha para a obra que vai brotando dos seus olhos e dos seus pés, torna-o ainda mais eloquente. Porquê?

Porque, de cigarro na mão, tão descontraído como se estivesse à porta do café ou à espera de transporte, este homem faz nascer um estádio. Uma relação natural e não épica, ao contrário do que sucede com a imagem dos ditadores ou dos heróis mistificados. Tal como um deus, seja pagão ou o judaico-cristão, a obra nasce naturalmente, sem esforço, enquanto fuma um dos vulgaríssimos cigarros que fumará ao longo do dia.

A sua solidão, uma solidão quase romântica (reforçada pelo cigarro), no limite direito da imagem, e que faz dele uma mistura de cowboy da Marlboro e de Citizen Kane, transforma ainda mais esta imagem numa emanação directa da sua vontade ou da sua imaginação criadora: tal como na Criação do Mundo, olhamos para a direita e vemos o criador, olhamos para a esquerda e vemos a criatura. Hegel, um filósofo alemão do século XIX e do qual já pouco se fala, dizia que Cristo reunia numa só figura o transcendente e o imanente. Esta imagem consegue o mesmo efeito. Pela escala, pela pose, pelo ar contemplativo, cria-se a sugestão de estarmos perante alguém que não é um de nós. Mas, com um cigarro na mão, vemos um homem que foi ali com o espírito de “Vou ali e já venho” e que olha para uma grande obra como se esta fosse exalada naturalmente pela sua própria respiração enquanto deita o fumo pela boca e pelo nariz, pouco antes de esmagar o cigarro com o pé e se voltar para ir então à sua vida.

 

 

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