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A Queda dum Anjo

Opinião  »  2015-10-01  »  Adelino Pires

Calisto Elói de Barbuda! Não sei a quantas de vós, duzentas e trinta alminhas caridosas que a partir de agora terão assento em São Bento, este nome dirá alguma coisa.
Dizendo de outro modo, não sei quantos de vós terão lido Camilo. Não vou ao ponto de julgar que nunca terão ouvido falar dele. Do seu Amor de Perdição, das suas Memórias do Cárcerce ou mesmo dos Doze Casamentos Felizes.

Camilo terá sido um mestre. Pecador e provocador. Da crónica à novela, da tradução ao romance, retratou magistralmente a sociedade da época. Alfinetando aqui, beliscando acolá, da sua pena sairam alguns dos mais memoráveis trechos da literatura portuguesa.
Ah fosse eu ministro da cultura e não um mero alfarrabista e camiliano confesso, e “A Queda dum Anjo” entraria de imediato no “Plano de Leitura Prévia para Novos Deputados”.

Livro notável, escrito há cento e cinquenta anos mas sempre tão actual, bem poderemos substituir o boticário, o mestre-escola e os lavradores de então pelos homens do aparelho e comentadores de hoje. Poderemos até mudar o traje das pantalonas transmontanas de Calisto Elói, com polainas abotoadas em madrepérola, pelo look mais ajustado dos actuais consultores de imagem. Sim, poderemos substituir isto, mudar aquilo, mas o espírito da coisa está lá todo e por lá continua.
Só que, não se tratando das 50 sombras de alguma coisa, do Eu Sei Lá, ou do Manual Político para Políticos Indiscretos, perdoem-me que tenha algumas dúvidas que o tal livrinho tenha passado pelas leituras de alguns de vós.

Talvez por isso, senhores deputados, mesmo que o não consigam ler atempadamente, seja porque os vossos afazeres o não permitam, seja porque duzentas e tal páginas é pedir demais, sempre podem, numa qualquer sessão parlamentar, ler uma página cada um, e confio que, pelo menos alguns, acabarão por se sentir verdadeiros “Elóis de Barbuda”.
Imagino o sorriso de Camilo, cofiando o bigode.

(Adelino Correia-Pires, Outubro 2015)

 

 

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