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O João

Opinião  »  2020-01-30  »  Rui Anastácio

"Esta rapaziada roubou ao país, só nos últimos anos, um valor correspondente a algumas dezenas de orçamentos anuais para a saúde"

“O João é gente boa! Sabe o que acontece? A cabeça dele é que não funciona na hora certa.”
O sotaque era brasileiro, pintor de fachadas e alguma sabedoria tolerante na voz, trazidas certamente por uma longa e dura vida pendurada em andaimes.
Sinto frequentemente que Portugal é como a cabeça do João.

Portugal não colocou na prisão os banqueiros sem vergonha na hora certa. Portugal não colocou na prisão os empresários sem vergonha na hora certa (PT e EDP só para dar 2 exemplos). Portugal não colocou na prisão os políticos sem vergonha na hora certa.
E já agora, se me permitem, Portugal também não colocou na prisão os magistrados sem vergonha na hora certa. Enquanto isso, ao que parece, a Islândia aquando da crise bancária colocou 130 na prisão num abrir e fechar de olhos.

A Islândia tem 362 mil habitantes e muito frio quase todo o ano. Sabendo nós que as temperaturas mais frias tendem a prejudicar o desenvolvimento de “rapaziada da boa”, vulgarmente conhecidos por corruptos sem vergonha, basta fazer uma proporção aritmética e rapidamente nos apercebemos que as contas não batem certo.
O nosso caldo cultural não ajuda, é certo. Mas que diabo, não podemos ser mais interventivos enquanto sociedade. Já este ano contaram-me, na primeira pessoa, a interessante história dos investimentos “falhados” de Roquette e companhia no Alqueva. Foram mais alguns milhões do nosso bolso.

Esta rapaziada roubou ao país, só nos últimos anos, um valor correspondente a algumas dezenas de orçamentos anuais para a saúde (por ano Portugal gasta com saúde cerca de 10 mil milhões de euros). Todos nós sabemos disto.

Só da Isabelinha é que ninguém fazia a menor ideia, quando tudo fazia parecer que todos aqueles milhões resultavam de uma longa vida de trabalho árduo, eis que de repente surge algo que nos deixou a todos embasbacados.
A Ana de Timor é mesmo uma rapariga muito à frente. Ou será simplesmente corajosa?
Fazendo de Professor Marcelo, aconselho o livro do meu saudoso professor, Luís Campos: “Como viver sem trabalhar num país à beira mar”.

 

 

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