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Aventurazinha no Comboio Fantasma - miguel sentieiro

Opinião  »  2020-09-12  »  Miguel Sentieiro

"Agora, percebo a razão pela qual a maioria das valências cirúrgicas fugiu de Torres Novas para os vanguardistas do hospital de Abrantes. "

Hoje apetece-me escrever uma história baseada em factos verídicos com algumas notas ficcionadas para se conseguir tornar a narrativa menos densa e nauseabunda. Um indivíduo com 80 anos entra na urgência do Hospital de Torres Novas com fortes dores abdominais. O acompanhante tem de ficar de fora. “Por causa do covid, Sabe…”.
“Não tem tosse ou falta de ar?” – Nada disso, só fortes dores abdominais, o que no caso de um transplantado hepático poderia sugerir alguma preocupação. “Não vem de nenhum daqueles lares onde está tudo infectado com covid, pois não?” O doente abana a cabeça negando essa possibilidade e aponta para a barriga dizendo: “Tem é de me resolver esta dor insuportável”.
A urgência estava calma. Poucos doentes, pouco movimento. Voltam a inquirir o senhor sobre os sintomas, desta vez em voz alta. Pode falar mais baixo, que o doente apesar dos 80 anos, ouve, vê e pensa na perfeição. A falta de perfeição está ao nível da sua zona abdominal. Às 4 da manhã chamam uma ambulância para o levar para Abrantes. É lá a especialidade. Parece que a especialidade do Hospital de Torres Novas é enviar doentes, mesmo doentes, para outros hospitais com especialidades a sério. Tornou-se numa espécie de estafeta “recebe e entrega”. Só falta trocar a ambulância por uma motoreta e um tipo com uma mochila térmica às costas que pergunta se quer massa alta e fofa ou fina e estaladiça.
Temos um edifício grande e glamouroso, acessos esplêndidos, uma porta de urgência e tudo, mas se for algo muito especializado (a partir de uma amigdalite já vale), teremos de o levar aos especialistas ali em Abrantes, cidade com um acesso privilegiado nos confins do distrito. Se o senhor tivesse menos de 18 anos, já tínhamos aqui um médico pediatra para o ver com atenção; agora com 80 anos não se safa.
O tipo lá vai a caminho de Abrantes, sem saber o que tem; o diagnóstico é assunto tabu; só pode ser dado por um médico especialista. O familiar acompanhante não o pode acompanhar. “Por causa do covid, sabe…” Em Abrantes as perguntas sobre a tosse e a falta de ar continuam. O paciente explica que já lhe começa a faltar o ar com as dores na barriga que nunca mais aliviam. “Disse falta de ar?...esteve em contacto com muita gente?” Passou a noite e a manhã num corredor vagueando de forma imaginária pelos possíveis cenários: crise de gases, úlcera, gastrite, pancreatite, tumor, indigestão por causa de uma pizza de massa alta e fofa.
Cá fora, os familiares preocupados por não poderem ir lá dentro “por causa do covid, sabe…”, multiplicam-se em esforços para saber alguma coisa. Depois de muita volta, conseguem conquistar um número de telefone; uma espécie de Santo Graal hospitalar: “Este é o número para o qual podem ir ligando e tentar que vos dêem informações.” O “tentar” caracteriza logo a facilidade que se adivinha para falar com alguém do outro lado da linha, num único número de telemóvel para atender todos os familiares de todos os doentes do hospital. Tentaram várias vezes e lá conseguiram ligar. “O doente está a ser acompanhado e já está no serviço de cirurgia.” “Cirurgia!? Mas vai ser operado a quê?...”; “Isso não lhe posso dizer! Só o médico, que não está disponível. Tente ligar mais tarde.”
Então mas que porra de santo Graal é este? Um tipo consegue o feito de ouvir a voz do outro lado, e quando a ouve, ela não diz nada que possa apaziguar ansiedades. Percebendo o logro deste Graal telefónico, seria hora de passar ao Graal do choradinho. Entra-se na urgência e explica-se de forma pedinte que não se sabe nada do familiar, apelando ao lado humano da pessoa que nos recebe. Vem a enfermeira da cirurgia explicar que o doente terá de ser operado em Lisboa. O diagnóstico? “Só o médico pode dizer, mas já o comunicou com certeza ao doente”. Então e a família não pode saber de nada? A enfermeira encolheu os ombros.
Percebendo que o Santo Graal do choradinho não resultou em pleno, a família mergulhou de cabeça no Santo Graal da cunha. Uns telefonemas depois e o diagnóstico foi conseguido nos meandros das travessas mais ocultas. O doente foi para Lisboa. Um familiar conseguiu vislumbrá-lo na breve passagem entre a porta do hospital e a ambulância, afogado no meio de tubos metidos pelo nariz e muita aparelhagem ligada.
Depois da chegada, percebeu-se que ninguém em Abrantes tinha revelado o diagnóstico ao paciente. Ficou a saber o que tinha, em primeira mão, pelos serviços secretos da cunha. Em Lisboa tudo correu bem. Recebeu finalmente o diagnóstico oficial e foi operado com sucesso por uma equipa competente e disponível. No rescaldo deste desafio superado, fica a estratégia do corpo clínico de Abrantes na utilização de uma terapia de choque inovadora à imagem do comboio fantasma da feira popular. Metemos o tipo na ambulância na total escuridão e ele vai a imaginar, no meio do aparato electrónico e abanões, que a sua maleita será muito mais grave do que o diagnóstico real que nós sonegámos. Quando a viagem chegar ao fim e lhe disserem que, afinal, as teias de aranha e os sustos dos mortos vivos do caminho não tinham razão de ser, será um alívio e funcionará como um poderoso antídoto. Agora, percebo a razão pela qual a maioria das valências cirúrgicas fugiu de Torres Novas para os vanguardistas do hospital de Abrantes.
Hoje , em conversa com o meu pai, pessoa de 80 anos que sobreviveu a duas campanhas na guerra do Ultramar, a um grave acidente de viação, a um transplante de fígado e a uma cirurgia em Lisboa, quando lhe falei nesse método terapêutico do comboio-fantasma, na sua lucidez, respondeu-me: Sabes, onde é que eles podem meter o comboio fantasma?… Pergunta só se querem com massa alta e fofa ou fina e estaladiça…

 

 

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