• SOCIEDADE-  • CULTURA  • DESPORTO  • OPINIÃO
  Quarta, 29 Janeiro 2020    |      Directora: Inês Vidal    |      Estatuto Editorial    |      História do JT
   Pesquisar...
Sáb.
 18° / 10°
Céu nublado
Sex.
 17° / 13°
Céu muito nublado com chuva fraca
Qui.
 16° / 11°
Céu nublado com chuva fraca
Torres Novas
Hoje  16° / 11°
Céu nublado com chuva fraca
       #Alcanena    #Entroncamento    #Golega    #Barquinha    #Constancia 

Confissões de um cronista bem-disposto

Opinião  »  2014-09-25  »  José Ricardo Costa

Um dia, o João Carlos Lopes apanha-me na rua e pergunta-me se eu alinho em escrever para o JT. Senti-me a gravar uma cena de um filme cómico, pois a ideia de escrever num jornal pareceu-me tão parva como ser sócio do Sporting ou concorrer ao Preço Certo.

A razão é simples. O meu pai era um devorador de jornais, tendo por isso crescido no meio deles. Do Diário de Lisboa, que tantas vezes ele me mandou comprar com 15 tostões no bolso. Do República, que eu próprio tirava todos os dias da caixa do correio à hora de almoço e folheava depois sentado na sanita, ritual de anos, apesar dos editoriais de Raul Rêgo serem menos emocionantes do que as coelhinhas da Playboy. Ainda antes do 25 de Abril, começou a aparecer o Expresso. Mais tarde, a azáfama do PREC transformou o República n’A Luta e, mais tarde ainda, passei a conviver com o Jornal Novo e O Jornal. Sem esquecer o mais esporádico Notícias da Amadora.

Daí achar uma parvoíce a ideia de escrever num jornal. Um jornal era uma coisa intelectualmente séria e eu sempre tive alguma dificuldade em me levar a sério. Foi pois com uma mistura de pessimismo schopenhauriano e hilaridade circense que aceitei. O meu problema era saber o que podia acontecer assim de vagamente excitante na minha encrustada cabeça que pudesse interessar ao menino jesus, ainda que aureolado por uma evangélica indulgência face ao clube dos pobres de espírito, cuja camisola rota e cheia de nódoas eu vestia.

Tinha também pela frente um desafio hercúleo, como diria um plumitivo novecentista: fingir que o que escrevesse podia ter algum interesse ou, pior ainda, tentar ser compreendido. Eu tinha feito o curso de Filosofia, tendo por isso desenvolvido com enorme sucesso a arte de ser incompreendido.

Para grande alívio, percebi que, ao contrário do que se pensa quando se escreve pela primeira vez num jornal, o mundo continua a ser o mesmo e é possível continuar a sair à rua sem que a rua dê pela nossa existência. O que escrevemos não tem, felizmente, qualquer importância, e o seu fim no contentor do lixo com os restos do jantar é uma poética imagem do seu valor. Escrever num jornal acaba mesmo por favorecer um saudável cepticismo, uma vez que contribui para a consciência deste imenso turbilhão que é a realidade. Quanto mais olhamos para ela, melhor percebemos as suas contingências e que tudo está sujeito ao aveludado pântano da dúvida.

Um problema com que me deparei foi o do estilo. Eu precisava de um estilo, pois, a começar no cabelo do CR7, tudo tem de ter um estilo. Anos depois, dizia-me a dona Dina Borges Simão que eu andava a perder a graça, enfim, que já não era o Zé Ricardo de outros tempos, que já não tinha o mesmo sentido de humor. Confesso ter sentido algum desconforto com a ideia de eu ser uma espécie de humorista, coisa que jamais me passaria pela cabeça. Como pode alguém ser humorista depois de ter lido o Cioran? O Woody Allen conseguiu, mas tinha a vantagem de não ser português e de nunca ter visto as conferências de imprensa de Jorge Jesus. Agora, uma coisa é ser humorista, outra é estar bem-disposto. Se alguma vez escrevi alguma coisa que vagamente sugerisse sentido de humor, foi apenas por estar bem-disposto e não por razões de estilo, embora quanto mais escrevesse mais ia percebendo que o que escrevia era risível. Por isso, se alguma vez cheguei a ter um estilo foi o da boa disposição, o qual incluiu uma boa relação com o erro, um luxo dentro do próprio jornal, que não pode ser feito de erros. Errar é outra maneira de estar vivo e sempre disponível para a mudança e de ser alérgico a minerais imobilismos. É por isso que a secção de opinião está nos antípodas da secção de necrologia, sendo por isso, felizmente, a que é para ser levada menos a sério. Uf!

 

 

 Outras notícias - Opinião


Rui Rio faz o seu caminho »  2020-01-24  »  Jorge Carreira Maia

Rui Rio tornou a vencer as eleições internas do PSD. Isso terá contrariado muita gente à direita, gente despeitada e ansiosa de que se retorne à política de punição das classes populares imposta por Passos Coelho.
(ler mais...)


O discurso do rancor »  2020-01-10  »  Jorge Carreira Maia

Vivemos num país cordato e seguro, onde a violência é diminuta e o respeito pelos outros é significativo. Somos, ao mesmo tempo, medianamente ricos e medianamente pobres e, ao longo destes anos de democracia, temos sabido resolver os problemas com que nos deparámos.
(ler mais...)


As ciclovias e o debate público »  2020-01-09  »  João Quaresma

No último mês de Dezembro, em duas reuniões de câmara sucessivas, discutiu-se o programa base de uma rede de ciclovias para a cidade de Torres Novas, com cerca de 24 Km na sua totalidade, a construir por fases, bem como uma dessas fases na zona da Quinta da Silvã, com cerca de 6 Km, que será a primeira a ser realizada.
(ler mais...)


Saída de Emergência (uma crónica em atraso), por Maria Augusta Torcato »  2020-01-09  »  Maria Augusta Torcato

Madrugada. Janeiro, dia 4. De 2019.

O comboio deslizava nas linhas com o seu ritmo sereno, como se não tivesse pressa ou tivesse de respeitar passagem ou não quisesse, com brusquidão, ferir o ferro.
Há muito que não andava de comboio.
(ler mais...)


CONSIDERAÇÕES A PROPÓSITO DO BREXIT »  2020-01-09  »  José Alves Pereira

As eleições realizadas a 12 de Dezembro passado estão, tal como a situação na Grã-Bretanha, envoltas em tantas contradições que alinhavar comentários, com alguma linearidade e coerência, não é tarefa fácil.
(ler mais...)


O medo »  2020-01-09  »  António Gomes

Temos vindo a assistir, com alguma insistência por parte do presidente da câmara municipal de Torres Novas, ao anúncio da sua candidatura nas próximas eleições autárquicas. Devido à insistência, até parece que o presidente anda obcecado com tal objectivo.
(ler mais...)


A imprensa »  2020-01-09  »  Anabela Santos

Feliz Natal, boas festas, bom ano, foram os votos das últimas semanas do mês de Dezembro. Em ambiente de festa, de partilha e de solidariedade, cumpriu-se mais uma época festiva que iniciou lá para meados do mês e terminou no dia 1 de Janeiro.
(ler mais...)


Brio »  2020-01-09  »  Rui Anastácio


“Um café bem tirado e com bons modos.”
Fiquei com esta frase na cabeça. Foi dita em tom brincalhão por uma Senhora septuagenária, algures num quiosque à beira mar plantado. Uma forma simples e simpática de pedir competência e brio profissional.
(ler mais...)


Ano novo, Torres “Novas”? »  2020-01-09  »  Ana Lúcia Cláudio

Cada início de ano é, frequentemente, marcado pelo balanço das coisas que não fizemos nos 365 dias anteriores e que, consequentemente, se transformam, agora, em projectos para o novo ano. Nos primeiros dias de Janeiro, todos os anos se repete o mesmo ritual.
(ler mais...)


Serviços públicos, superavit, sistemas eleitorais e vergonha »  2019-12-20  »  Jorge Carreira Maia

DEGRADAÇÃO DOS SERVIÇOS PÚBLICOS. Existe a ideia de que a degradação dos serviços públicos se resolveria com uma melhor gestão. Qualquer partido a defende desde que esteja na oposição.
(ler mais...)

 Mais lidas - Opinião (últimos 30 dias)
»  2020-01-09  »  Maria Augusta Torcato Saída de Emergência (uma crónica em atraso), por Maria Augusta Torcato
»  2020-01-09  »  António Gomes O medo
»  2020-01-09  »  Rui Anastácio Brio
»  2020-01-09  »  Ana Lúcia Cláudio Ano novo, Torres “Novas”?
»  2020-01-10  »  Jorge Carreira Maia O discurso do rancor