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Confissões de um cronista bem-disposto

Opinião  »  2014-09-25  »  José Ricardo Costa

Um dia, o João Carlos Lopes apanha-me na rua e pergunta-me se eu alinho em escrever para o JT. Senti-me a gravar uma cena de um filme cómico, pois a ideia de escrever num jornal pareceu-me tão parva como ser sócio do Sporting ou concorrer ao Preço Certo.

A razão é simples. O meu pai era um devorador de jornais, tendo por isso crescido no meio deles. Do Diário de Lisboa, que tantas vezes ele me mandou comprar com 15 tostões no bolso. Do República, que eu próprio tirava todos os dias da caixa do correio à hora de almoço e folheava depois sentado na sanita, ritual de anos, apesar dos editoriais de Raul Rêgo serem menos emocionantes do que as coelhinhas da Playboy. Ainda antes do 25 de Abril, começou a aparecer o Expresso. Mais tarde, a azáfama do PREC transformou o República n’A Luta e, mais tarde ainda, passei a conviver com o Jornal Novo e O Jornal. Sem esquecer o mais esporádico Notícias da Amadora.

Daí achar uma parvoíce a ideia de escrever num jornal. Um jornal era uma coisa intelectualmente séria e eu sempre tive alguma dificuldade em me levar a sério. Foi pois com uma mistura de pessimismo schopenhauriano e hilaridade circense que aceitei. O meu problema era saber o que podia acontecer assim de vagamente excitante na minha encrustada cabeça que pudesse interessar ao menino jesus, ainda que aureolado por uma evangélica indulgência face ao clube dos pobres de espírito, cuja camisola rota e cheia de nódoas eu vestia.

Tinha também pela frente um desafio hercúleo, como diria um plumitivo novecentista: fingir que o que escrevesse podia ter algum interesse ou, pior ainda, tentar ser compreendido. Eu tinha feito o curso de Filosofia, tendo por isso desenvolvido com enorme sucesso a arte de ser incompreendido.

Para grande alívio, percebi que, ao contrário do que se pensa quando se escreve pela primeira vez num jornal, o mundo continua a ser o mesmo e é possível continuar a sair à rua sem que a rua dê pela nossa existência. O que escrevemos não tem, felizmente, qualquer importância, e o seu fim no contentor do lixo com os restos do jantar é uma poética imagem do seu valor. Escrever num jornal acaba mesmo por favorecer um saudável cepticismo, uma vez que contribui para a consciência deste imenso turbilhão que é a realidade. Quanto mais olhamos para ela, melhor percebemos as suas contingências e que tudo está sujeito ao aveludado pântano da dúvida.

Um problema com que me deparei foi o do estilo. Eu precisava de um estilo, pois, a começar no cabelo do CR7, tudo tem de ter um estilo. Anos depois, dizia-me a dona Dina Borges Simão que eu andava a perder a graça, enfim, que já não era o Zé Ricardo de outros tempos, que já não tinha o mesmo sentido de humor. Confesso ter sentido algum desconforto com a ideia de eu ser uma espécie de humorista, coisa que jamais me passaria pela cabeça. Como pode alguém ser humorista depois de ter lido o Cioran? O Woody Allen conseguiu, mas tinha a vantagem de não ser português e de nunca ter visto as conferências de imprensa de Jorge Jesus. Agora, uma coisa é ser humorista, outra é estar bem-disposto. Se alguma vez escrevi alguma coisa que vagamente sugerisse sentido de humor, foi apenas por estar bem-disposto e não por razões de estilo, embora quanto mais escrevesse mais ia percebendo que o que escrevia era risível. Por isso, se alguma vez cheguei a ter um estilo foi o da boa disposição, o qual incluiu uma boa relação com o erro, um luxo dentro do próprio jornal, que não pode ser feito de erros. Errar é outra maneira de estar vivo e sempre disponível para a mudança e de ser alérgico a minerais imobilismos. É por isso que a secção de opinião está nos antípodas da secção de necrologia, sendo por isso, felizmente, a que é para ser levada menos a sério. Uf!

 

 

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