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Os três poderes e a regra dos três cês

Opinião  »  2014-11-28  »  Adelino Pires

Entendo há muito que na vida, como nas empresas, um dos princípios basilares é a regra dos três cês: competência, carácter e confiança. Se a competência gera confiança profissional, o carácter gera confiança pessoal. Quando os três factores se conjugam, temos o triângulo perfeito. Só que a competência pode ir sendo adquirida e o carácter ou se tem ou não se compra.

Penso mesmo que um dos maiores problemas nos círculos do poder passa pela ausência desta regra. Em muitos casos grassa a incompetência, abunda a falta de carácter, geram-se confianças pervertidas.

Não sou daqueles que festeja com champagne a prisão de Sócrates, como não deitei foguetes na detenção de Ricardo Salgado. São situações que, ao contrário do que parece, retratam a degradação da nossa débil democracia e, mais do que isso, a pré-falência de um sistema e de um regime que, aparentemente, tinha tudo para dar certo.

A mistura explosiva entre os três poderes (económico, político e judicial) faz deste molotov de interesses um regime com pés de barro. A catadupa de casos mediáticos, de investigações axn, de informação e contra-informação, poderão querer mostrar que a justiça vai mexendo. Mas não prova que funcione. Como bem sabemos, direito não é justiça.

Começa, aliás, a ser preocupante a impotência com que se assiste a tudo o que se ouve, se vê e se comunica. Na forma e no conteúdo. Alguma comunicação social, assim como quem não quer a coisa e beneficiando de clínicas fugas de informação, vai preparando a opinião pública e pressionando os decisores judiciais. Alguns escritórios de advogados esfregam as mãos, contabilizando já os horários compridos e honorários chorudos que, nos tempos que se avizinham, lhes correrão pelas contas bancárias. Alguns políticos, mestres e doutorados nos jogos de poder, vão tirando o cavalinho da chuva, assobiando para o lado, quais virgens imaculadas e ingénuas, de véu branco, mãos postas e olhos no céu.

Entretanto, o super-juiz lá continua, sábados, domingos e feriados, não dando nem tendo descanso. Ah, se cada um de nós tivesse a super-produtividade do super-juiz, seríamos um super país...

O poder corrompe? Pelos vistos, sim. Mas todos os partidos que o exerceram, todos eles, esbanjaram ao longo de décadas a oportunidade de o fazerem de uma forma digna, credível e acima de qualquer suspeita. Seja a nível autárquico, seja no poder central, haverá certamente muita gente boa e bem formada. Mas também muito se usou e abusou dos poderes obtidos, promovendo uma desenfreada promiscuidade entre a política e os negócios.

Agora, com o caso Sócrates, dará jeito a muita gente aproveitar o maior dos bodes expiatórios para que tudo o resto se esqueça e se faça de conta que nada de mais errado existe. Mas não podem os três poderes serem gémeos siameses quando lhes convém e apregoar a sua separação quando uns aos outros se incomodam.

Pilatos não faria melhor e a regra dos três cês muito disto evitaria.

 

 

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