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Missão comprida e cumprida!

Opinião  »  2015-02-12  »  Adelino Pires

Hoje, são cada vez mais os testemunhos que nos chegam das mais variadas formas, de gente que, no fim de uma vida de trabalho, ou ao cabo de muitos anos de luta e labuta se viu, por isto ou por aquilo, obrigada a baixar os braços, depor as armas, mudar o rumo. De exemplos mais próximos a outros anónimos, todos conhecemos alguém que passou ou passa ainda por circunstâncias similares.

Hoje escrevo sobre todos aqueles que cumpriram a missão possível. Mesmo que a caravana continue a passar. Escolhi um testemunho facebookiano de alguém que, apesar de familiar e amiga, não faz parte do meu convívio diário, permitindo-me assim ter o distanciamento e isenção necessários para que o seu exemplo nos faça reflectir no país que estamos a (des)construir:

«Tinha 29 anos e acabava de chegar ao novo Centro de Saúde. Feliz por, finalmente, poder estar junto da família e animada pelo desejo de, também ali, ser profissionalmente útil. O acolhimento, respeito e estima que recebi logo de início contribuíram para que, recusando propostas ”melhores”, ali permanecesse até ao fim da carreira na função pública. Este era também o começo da minha história, numa vila do Centro de Portugal... 10 de Fevereiro de 1986. O meu primeiro dia como médica em Poiares...

Completam-se agora 29 anos que aqui ‘cheguei’. Dei 26 deles ao serviço da comunidade. E senti-me plenamente gratificada, profissionalmente. Desses 26, 13 foram como Directora (além da actividade clínica e do serviço de urgências).

Na época, as competências e responsabilidades dessa função eram muito alargadas e exigentes.

No concelho mais pequeno do distrito (de Coimbra), contribuí para que acontecesse um programa de intervenção comunitária, pioneiro em Portugal.

Que deu que falar no país e fora dele. Publicaram-se livros de que fui co-autora.

Percorri os vários graus e cheguei ao topo da minha carreira.

Sem redes de apoio. À custa do meu trabalho e do meu esforço.

Nada me foi dado, a não ser o apreço e o carinho dos que me julgaram merecedora.

Aposentei-me com um sentimento de missão cumprida.

Recordo os meus doentes de muitos anos como se fossem uma extensão da minha família. Esqueci alguns nomes, mas tenho na memória os rostos, as suas histórias e, em muitos casos, os números dos seus processos.

Tenho gravados gestos de gratidão, palavras e sorrisos.

E guardo no coração pessoas com quem trabalhei, no Centro de Saúde e noutras instituições. Elas sabem quem são...

Num tempo em que o mundo parece virar-se do avesso, em que a corrupção e o compadrio se tornam prática corrente, em que me desconcerto (de forma crescente) com o que vejo fazer ao ‘meu’ SNS... preciso de reflectir no meu percurso, para me certificar de que fiz o que devia, usei as minhas capacidades tanto quanto pude, trabalhei, vivi, resisti, ultrapassei adversidades e conservei a auto estima e os valores que trouxe da família de origem e posso continuar a dizer ‘yo soy yo y mi circunstancia’ », (Filomena Correia, médica)

Decerto, muitos outros bons exemplos como este haverá por aí. No público e no privado. Na saúde, no ensino, na justiça. Nas grandes e pequenas empresas. Na indústria, no comércio e nos serviços. Em todo o lado.

Infelizmente, o problema de hoje, não é já o das missões compridas, mais ou menos já cumpridas. O problema é que, cada vez mais, sobram missionários para as missões cá do reino, que são cada vez menores e mais curtas. E que cada vez mais é menor o espírito de missão e maior o de demissão. E as verdadeiras missões ficarão eternamente por cumprir. Como as promessas eleitorais que se avizinham.

 

 

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