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O carvão e o Baião

Opinião  »  2015-02-26  »  Adelino Pires

Tive uns dias agitados.

No domingo, do museu Carlos Reis, diziam-me que iriam desvendar o enigma do meu retrato, salvo seja. Do retrato que sendo meu, porque o adquiri, é também do Carlos Reis porque o pintou. O tal belo carvão, cujo retratado muitos alvitres foi tendo, mas ninguém ousou acertar: seria o próprio, ele mesmo? Alguém do «Grupo de Leão», com quem o pintor privava? Ou mesmo o escultor Alberto Nunes, seu mestre em Belas Artes e que eu próprio quase me convencera que talvez fosse?

Afinal, havia outro e quem sabe da tenda é o tendeiro. E aqui, o mérito vai inteirinho para a equipa do Museu Municipal Carlos Reis, particularmente para as suas técnicas Teresa Lopes e Ana Maria Marques a quem agradeço a brilhante apresentação no Shot de Arte do passado dia 22 de Fevereiro.

Quem assistiu ficou a saber quem é o retratado e quais as pistas seguidas para se lá chegar. Foi uma apresentação envolvente e interessantíssima, provando que um Museu pode ser muito mais que um espaço estático, mudo e quedo, mas antes algo que devolve à comunidade algo que de outro modo ficaria perdido nos baús da memória.

Já agora, desvendado o mistério, para quem o quiser apreciar, estará disponível aqui na livraria alfarrabista, o belíssimo carvão do mestre Carlos Reis, retratando nem mais nem menos, Alfredo Bensaúde. Dedicado à sua filha Mathilde.

Alfredo Bensaúde, esse mesmo, o fundador do Instituto Superior Técnico, académico emérito e um apaixonado pela construção e restauro de violinos. De origem judaica, a família Bensaúde instalou-se nos Açores no início do Séc. XIX, tendo desde logo assumido um papel de relevo na região.

De eterno enigma, o carvão ganhou outra dimensão, embora o espaço que ocupa seja o mesmo.

Na segunda feira, num inesperado e improvável convite da SIC, estive no programa do João Baião. Se me dissessem que alguma vez lá iria, não imaginava. Mas fui e devo dizer que foram inexcedíveis.

A televisão tem destas coisas. Consegue mostrar, em pouco tempo, aquilo que, de outra forma, demora anos a conseguir. Falei de livros, manuscritos e alfarrábios. E de Torres Novas e do seu centro histórico. Fiz o que pude porque lá o tempo voa, ao contrário daqui, na livraria, onde me posso ir espreguiçando devagar, devagarinho, com todo o tempo do mundo.

Apesar de tudo, entre a pacatez de uma tarde de domingo no Museu e a lufa-lufa de uma tarde num estúdio de televisão, preferirei continuar a manter-me no pó dos livros, daqui de onde vos escrevo.

 

 

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