• SOCIEDADE-  • CULTURA  • DESPORTO  • OPINIÃO
  Terça, 20 Outubro 2020    |      Directora: Inês Vidal    |      Estatuto Editorial    |      História do JT
   Pesquisar...
Sex.
 19° / 12°
Céu nublado com chuva fraca
Qui.
 19° / 12°
Céu nublado com chuva fraca
Qua.
 19° / 14°
Céu nublado com chuva fraca
Torres Novas
Hoje  20° / 15°
Céu muito nublado com chuva moderada
       #Alcanena    #Entroncamento    #Golega    #Barquinha    #Constancia 

É lidar

Opinião  »  2020-07-03  »  Margarida Trindade

"O excesso de informação tolda-nos o pensamento. É preciso tempo para ler, para analisar e para digerir e depurar"

Sou constantemente assaltada pela dúvida. Sofro deste desconforto constante. Bem sei que mais felizes são os que nunca têm dúvidas e os que raramente se enganam e que dizer isto pode parecer uma banalidade, mas é a mais pura das verdades.

Onde hei-de posicionar-me? Que hei-de pensar das notícias? Que conclusões se me afiguram? Terei de fazer fé nas deduções imediatas? Poderei acreditar logo nos meus juízos de valor? Estarei até em condições de fazer esses juízos de valor? O que é que estará certo e o que é que estará errado? Será o meu ponto de vista apenas uma miséria de pensamento mal assente, mal fundamentado, cheio de lacunas de conhecimento ou será que posso contribuir com algumas achegas para que o caminho se vá construindo em vez de se desmoronar?

Dou por mim a ler toda a espécie de notícias e hoje, com a facilidade com que respiramos, estamos rodeados de opiniões. Não é que isso seja bom, nem mau. Pior seria haver só uma, poucas ou nenhuma; o que seria a mesma coisa. Salve-se a pluralidade e a democracia. Sempre.

Porém, seja onde for que nos posicionemos perante a informação, factos, notícias ou a realidade que nos circunda, a consciência de que é preciso filtrar tem de estar bem desperta. Aceitar como válido tudo o que nos é infundido pelas redes sociais, comunicação social ou pela voz do povo, ou por um comentador avençado, é um exercício de ingenuidade. Ou de burrice, se quisermos dizer assim.

A construção de uma opinião é algo que exige de nós alguma maturação, Não é um arroto involuntário que damos depois de ingerir as couves, as batatas, as cenouras, os enchidos, a carne de vaca e a carne de porco de um farto cozido à portuguesa. Ou uma sopa que tem os legumes todos misturados e que se engole em dois ou três sorvos.

Comecemos pela distância. É que a perspetiva aqui importa, e muito. Construir opinião significa perceber que não vamos apenas reproduzir o que outros já reproduziram. Isso não é opinião, é repetição, é ressonância. Muitas vezes, é desonestidade.

Depois, o tempo. O excesso de informação tolda-nos o pensamento. É preciso tempo para ler, para analisar e para digerir e depurar. E, acima de tudo é preciso saber que é preciso saber depurar. Não se pode chegar a todo o lado. Costumo dizer que quem está em todo o lado não está em lado nenhum, assim como quem quer fazer tudo não consegue fazer quase nada. Portanto, fazer escolhas é essencial. Perceber ao que vale mesmo a pena dar atenção e o que merece análise. Essa é uma prática fundamental e aconselhável a quem queira construir uma opinião que traga novos contributos, que seja produto de algum pensamento próprio.
E ler, repito, é preciso ler. Ler diversos autores, várias correntes, ler os vivos e os mortos. As bibliotecas públicas, pilares da democracia, dão aqui uma ajuda inestimável. As leituras são gratuitas, os empréstimos também. Ainda bem que que as há e que as estimamos.

Depois, num exercício de humildade imprescindível, conhecer variadas propostas, ler o direito e o avesso, ler o texto e o seu contraditório. É essa aprendizagem na multiplicidade que desperta o espírito crítico. O leitor saberá separar o trigo do joio, bastar-lhe-á continuidade e práxis.
Voltemos ao início, e levemos em conta a dúvida. A dúvida é o início e o fim, a demonstração de inteligência e de sabedoria. A dúvida é o motor, a alavanca do conhecimento e do progresso. Estar fechado a uma só versão dos factos invalida a produção de o que quer que seja credível ao nível do pensamento. Os dogmas, por norma, são pensamento estagnado. E qualquer coisa que estagna acaba por perder a validade, logo não é saudável para consumo.

Mas tudo isto não é cómodo. Dá trabalho, exige que façamos pausas, silêncio, reflexão, exige que dediquemos umas horas por semana a leituras indispensáveis, toma-nos tempo, obriga-nos a um olhar crítico sobre a realidade, valorizado sobretudo se construtivo e comprometido com a boa-fé. E é de se lhe dar cada vez mais valor, mesmo que — inevitável e assumidamente, — esse olhar seja inevitavelmente contaminado pelas circunstâncias individuais de cada um ao exercitar o verbo e a análise.
Todavia, e tomemos isto em consideração, há sempre uma coisa a não esquecer: é que esse olhar, por vezes, traz-nos inimigos. Mas, contra isso, fazer o quê? Como diz o outro, é lidar.

 

 

 Outras notícias - Opinião


Nos ecos da festa do Avante! - josé alves pereira »  2020-10-09  »  José Alves Pereira

Falemos da festa do Avante!, agora que a poeira assentou e o aranzel antidemocrático cessou, transferindo-se para outros acontecimentos. Não é tanto do evento em si mesmo, mas do contexto em que ele este ano se construiu e realizou.
(ler mais...)


O pau da República - josé mota pereira »  2020-10-09  »  José Mota Pereira

Na manhã outonal do 5 de Outubro de 2020, erguia-se majestoso no topo da praça o vigoroso mastro aguardando a bandeira republicana que deveria ter vindo. Vão longe os tempos da praça, que ainda antes ser deste dia de Outubro tinha o nome do último Bragança e recebia a visita do jovem rei dom Manuel, entre os aplausos da multidão que acenando ao ilustre lhe atirava "viva o rei dom manelinho que é tão bom e bonitinho" – pelo menos assim contou aos seus descendentes, mais palavra, menos palavra, uma antepassada minha que não conheci.
(ler mais...)


A bicicleta - rui anastácio »  2020-10-09  »  Rui Anastácio

No meu concelho há uma terra onde tenho alguns bons amigos. Essa terra chama-se Vila Moreira. Foi lá que encontrei o meu primeiro trabalho. Tinha então 15 anos e uma bicicleta amarela que me levava a quase todos os sítios onde queria ir.
(ler mais...)


Ler os nossos escritores - jorge carreira maia »  2020-10-09  »  Jorge Carreira Maia

É possível que a maioria esmagadora dos portugueses tenha ouvido o nome de Almeida Garrett, Alexandre Herculano, Camilo Castelo Branco, Júlio Dinis e Eça de Queiroz. São eles o fundamento a partir do qual se foi construindo a literatura de ficção nacional e que teve o seu grande momento de reconhecimento com a atribuição do Nobel a José Saramago.
(ler mais...)


Está tudo mal. Tudo. - carlos paiva »  2020-10-09  »  Carlos Paiva

Em amena cavaqueira entre amigos, a discutir o desempenho autárquico, ou a falta dele, surgiu a frase: “…criticar a Câmara Municipal é fácil…”. Concordei de imediato. Aliás, reforcei que é O MAIS fácil.
(ler mais...)


IMI 2021: pensam que enganam quem? - antónio gomes »  2020-10-09  »  António Gomes

O ano que atravessamos, e com toda a certeza também o próximo, são anos de excepção, anos particularmente difíceis para muitas famílias. Os rendimentos são menores, em alguns casos muito menores, muitos negócios fecharam ou estiveram fechados vários meses, o que aí vem ainda não se sabe, mas advinha-se, infelizmente.
(ler mais...)


Crónicas de Timor I - Vida em isolamento - anabela santos »  2020-10-09  »  AnabelaSantos

Este texto será o relato de uma quarentena ou de uma solidão imposta, sem floreamento ou qualquer romantismo pela razão óbvia: é um isolamento e é imposto.
Depois da clausura de vinte e oito horas dentro de um avião que me leva até Timor e que, mesmo fazendo escala no Dubai e na Malásia, não abriu as suas portas para, pelo menos, desentorpecer as pernas e arejar um pouco.
(ler mais...)


A falta de cidadania de quem a recusa - ana lúcia cláudio »  2020-10-09  »  Ana Lúcia Cláudio

Os primeiros dias de regresso às aulas têm sido marcados por dois grandes assuntos. O primeiro, o que nos assola a todos desde Março e que obrigou os responsáveis das escolas a definir e adaptar estratégias e formas de prevenção do coronavírus, na sequência das directrizes definidas pela Direcção-Geral de Saúde.
(ler mais...)


A roleta russa - jorge carreira maia »  2020-09-28  »  Jorge Carreira Maia

A questão do novo coronavírus tornou-se uma espécie de roleta russa em dois momentos. No primeiro, o tambor da pistola roda para descobrirmos se somos ou não contaminados. Caso sejamos, ele torna a rodar, agora de forma decisiva.
(ler mais...)


Boys - rui anastácio »  2020-09-28  »  Rui Anastácio

A palavra parece ser inglesa, mas é apenas aparência. É uma palavra portuguesa, com certeza. Foi proferida, pela primeira vez, nos idos anos 90 pelo actual secretário-geral das nações unidas. “No jobs for the boys”.
(ler mais...)

 Mais lidas - Opinião (últimos 30 dias)
»  2020-09-28  »  Maria Augusta Torcato Ironia do destino ou lei do retorno? - maria augusta torcato
»  2020-10-09  »  Carlos Paiva Está tudo mal. Tudo. - carlos paiva
»  2020-10-09  »  António Gomes IMI 2021: pensam que enganam quem? - antónio gomes
»  2020-10-09  »  Jorge Carreira Maia Ler os nossos escritores - jorge carreira maia
»  2020-10-09  »  Rui Anastácio A bicicleta - rui anastácio