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Opinião  »  2018-10-12  »  Inês Vidal

A Golegã auto intitula-se capital do cavalo. Veiga Maltez gostava de cavalos, havia cavalos na vila, sacou daquela da cartola e um dia disse: “cavalos são na Golegã”. A ideia pegou, vendeu e hoje já não é só o presidente que lhe chama assim. O Entroncamento nasceu da ferrovia. Não a inventou. Foi a ferrovia que inventou o Entroncamento. E em Portugal todos sabem onde fica, desde que tiveram que decorar as estações e apeadeiros virados de costas para o mapa de Portugal, de frente para o professor de vardasca em punho.

A Barquinha tem a lampreia e um rio que explora, o concelho de Alcanena, as peles. Azinhaga, não lhe bastava ser a aldeia mais portuguesa do Ribatejo, é também a terra onde nasceu Saramago. Minde tem um dialecto e gaba-se disso, Cem Soldos, de alguns anos para cá, tornou-se capital da música portuguesa. E há outros. Muitos outros. Cada vez mais, definir a política de uma aldeia, cidade, concelho ou região passa por criar ou aproveitar um pormenor e torná-lo bandeira. Exagerá-lo, levá-lo ao extremo, fingir que foi sempre tudo sobre ele, à volta dele, parte dele.

Definir um símbolo, criar um conceito, vender uma ideia. Torres Novas escolheu o figo. Ou o figo escolheu Torres Novas. Legítimo como em qualquer um dos outros casos. Tanto para dar certo, como para dar errado, como em qualquer um dos outros casos. Mas não basta dizer alto. É preciso acreditar e fazê-lo com uma convicção capaz de convencer quem nos ouve. Não basta sê-lo uma vez por ano. É preciso um plano, concertado. Se é para ser, que seja a sério. Torres Novas é, ou quer ser, a capital do fruto seco. Não sei se alguém por esse país sabe disso. Ou mesmo cá dentro. Eu, pelo menos, quando me apresento fora daqui, opto por dizer que vou da terra da Renova. A probabilidade de saberem de onde venho é bem maior.

 

 

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