• SOCIEDADE-  • CULTURA  • DESPORTO  • OPINIÃO
  Segunda, 25 Maio 2020    |      Directora: Inês Vidal    |      Estatuto Editorial    |      História do JT
   Pesquisar...
Qui.
 34° / 19°
Céu limpo
Qua.
 33° / 20°
Céu limpo
Ter.
 32° / 20°
Períodos nublados
Torres Novas
Hoje  30° / 16°
Céu limpo
       #Alcanena    #Entroncamento    #Golega    #Barquinha    #Constancia 

25 de Abril Nunca Mais!

Opinião  »  2020-05-09  »  José Ricardo Costa

"O 25 de Abril é como o primeiro atleta de uma estafeta 4x400 metros. Arrancou, fez o melhor que pôde mas termina a sua prova mal passa o testemunho."

Sempre que o calendário faz regressar o 25 de Abril, é também o clássico “25 de Abril sempre!” que regressa. A frase é bonita e voluntariosa mas tem um problema: não dá que o 25 de Abril seja para sempre. Ao invés, será mesmo caso para dizer “25 de Abril nunca mais!”.
Claro que me lembro bem do 25 de Abril. Um dia cinzento mas que começou muito bem graças a um madrugador telefonema de um tio de Lisboa que fez com que não me deixassem ir à escola, passado o dia alegremente na cama a ler e a ouvir canções de intervenção que a rádio transmitiu todo o dia, algumas das quais já conhecidas lá de casa e que estranhei estar a ouvir por não ser o habitual na rádio ao longo daqueles pubescentes anos.
Só que o dia 25 de Abril não foi dia 25 de Abril nenhum. Nem para mim nem para ninguém. Como a Revolução Francesa não foi Revolução Francesa nenhuma para um francês de 1789, o Renascimento nada significa para um italiano do século XVI, nem um ateniense da Grécia Antiga sabe que está na Grécia Antiga e a viver antes de Cristo, não sabendo o próprio Cristo que nasceu antes de Cristo e morreu depois de Cristo. Só depois se começou a perceber melhor o que foi o dia 25 de Abril, formando-se a ideia de que não foi um dia desenxabido e sem história como um qualquer 22 de Novembro ou 15 de Fevereiro, mas que o 25 de Abril era o “25 de Abril”, como o 1 de Dezembro é “1 de Dezembro” e o 5 de Outubro “5 de Outubro”.
Daí não ser possível viver para sempre o tal dia inicial e limpo de que fala a poeta. Não se pode estar viver uma coisa e ao mesmo tempo a sentir a nostalgia que temos dela. Querer o 25 de Abril para sempre é como querer estar sempre a ouvir pela primeira vez o “Dark Side of the Moon”. Não dá. Até porque o próprio tempo, sendo um grande escultor, é também um vento que causa erosões nas paisagens históricas, separando as coisas da memória que temos delas.
Mas não é só por isso que o 25 de Abril é para ser nunca mais. É também “nunca mais” naquele sentido em que se está muito à espera de alguma coisa, por exemplo, as prendas de Natal, o primeiro dia de férias ou o Sporting ser campeão, levando o desespero a dizer “Fogo, nunca mais!”. No caso do 25 de Abril será “Fogo, nunca mais!” sobretudo para quem pede “25 de Abril sempre!”, uma vez que continuam à espera daquilo para que o 25 de Abril nunca serviu.
O 25 de Abril foi muito bom porque acabou com um regime que era um atraso de vida no seio de uma Europa que, à excepção da Espanha e da Grécia, era livre e arejada até à Cortina de Ferro, onde outras horríveis ditaduras esmagavam os seus povos. Foi mais ou menos assim como andar duas semanas com uma horrenda dor de dentes e tomar um antibiótico graças ao qual se acorda no dia seguinte sem dor. Dois ou três dias depois ainda vamos tendo uma memória vívida da dor de dentes, porém, meses depois, embora guardando a episódica memória da dor de dentes, os já muitos dias passados sem essa horrenda dor, afastam-nos cada vez mais dessa sensação.
Pronto, o 25 de Abril também é um bocadinho assim. Eu gosto da memória do 25 de Abril mas o facto de já termos quase tantos anos pós- 25 de Abril como os 48 da longa noite com dor de dentes, faz com que pensemos cada vez menos na dor dentes e menos ainda no antibiótico que acabou com a dor de dentes. E, hoje, estar sem dor de dentes, é o nosso normal: uma sociedade democrática, livre e aberta, a qual iria sempre surgir mais cedo ou mais tarde. Se não fosse no dia 25 de Abril de 1974 teria sido, mais coisa menos coisa, antes ou depois, como aconteceu logo com a Grécia e a Espanha e anos depois com o que estava para lá da Cortina de Ferro.
Mas para muitos o 25 de Abril não foi apenas isso. Houve dois 25 de Abril: um, que é o meu, para fazer um país simplesmente normal, com as suas virtudes e defeitos, outro para criação de uma utopia (eu diria distopia) à revelia do que à época já seria o mais elementar bom senso social, político, económico e até cultural. Daí que, para muitos, ainda falte “Cumprir Abril” ou as supostas “Conquistas de Abril” e, por isso mesmo, bem podem esperar a gritar “Abril nunca mais” pois é mesmo caso ser nunca mais.
O 25 de Abril é como o primeiro atleta de uma estafeta 4x400 metros. Arrancou, fez o melhor que pôde mas termina a sua prova mal passa o testemunho. O que Portugal tem hoje de mau e de bom, os seus vícios e virtudes, os problemas que conseguiu ou não resolver, já nada têm que ver com o 25 de Abril mas apenas com os méritos e deméritos de um secularíssimo pequeno país do canto ocidental da Europa e em relação ao que tem vindo a acontecer no mundo.
Há um pequeno conto de Borges chamado “O Último Homem” onde se fala de um último homem da história a ter um contacto com a cultura pagã numa cultura já completamente cristianizada. Também um dia irá morrer o último homem da história que ainda viveu o 25 de Abril, tornando-se este, assim, definitivamente nunca mais e definitivamente para sempre o que estava destinado a ser: uma importante personagem no panteão das históricas datas de Portugal. Nesse dia, então, cumpre-se o que disse o poeta alemão Hans Magnus Enzensberger sobre o 25 de Abril quando cá regressou em 1986: “Coisa inesquecível que já se esqueceu”.

 

 

 

 Outras notícias - Opinião


A Igreja e a pandemia em Portugal »  2020-05-09  »  Jorge Carreira Maia

Em todo o processo ligado à pandemia provocada pelo coronavírus, a Igreja Católica em geral, e a portuguesa em particular, teve uma atitude que merece louvor. A Igreja portuguesa, e é nela que centro este artigo, mostrou que não é apenas uma instituição guardiã da fé e tradição apostólicas, mas ainda um factor de razoabilidade dos comportamentos sociais, exercendo uma influência muito importante na atitude de muitos portugueses, o que ajudou a minimizar os efeitos da pandemia.
(ler mais...)


Pela janela, por Inês Vidal »  2020-05-09  »  Inês Vidal

Comprei um bilhete de avião para ir visitar o meu primo João, que está na Suécia, por alturas do casamento dele, em Abril. Crescemos juntos, apesar da diferença de idades. Queria dar-lhe um abraço, desejar-lhe que fosse feliz - comigo aqui relativamente perto, de preferência - ao mesmo tempo que nos perguntaria como é que era possível estarmos ali, se ainda no outro dia andei com ele ao colo.
(ler mais...)


2 beijos »  2020-05-09  »  Rui Anastácio

Peúgas escuras, peúgas brancas, peúgas escuras. Um beijo, 2 beijos, um beijo vs 2 beijos.
Tinha três anos no dia 25 de Abril de 1974.

Sou um amante da liberdade e um amante incondicional da liberdade de expressão.
(ler mais...)


O meu pai de fato azul escuro e gravata e um bem visível cravo vermelho. Naquele momento. senti-me compensado pela espera de 22 anos desde o negro Abril de 1953. »  2020-05-09  »  José Alves Pereira

De quantos Abris se faz uma vida que já vai longa? Cada um contará os seus, aqueles que não se medem pelo calendário, mas são marcos de destaque e lembrança. É o caso do 25 de Abril, data fronteira entre o antes e o depois; um antes que se vai escoando com a memória dos que o viveram e vão desaparecendo, e um depois que o não pode olvidar.
(ler mais...)


Onde estavas no 25 de Abril de 2020? »  2020-05-09  »  Jorge Salgado Simões

Já se pode falar do 25 de Abril? Já podemos falar do 25 de Abril sem se ser acusado de arreigado comunista ou perigoso fascista? É que isto este ano foi mesmo mau demais para ser verdade.

Eu sou dos que ainda cá não estava em 1974.
(ler mais...)


Não sou digno de ti »  2020-05-09  »  Carlos Tomé

Não foi “E depois do adeus” nem a “Grândola” que me adormeceram nessa noite, mas sim “Non son degno di te” (“Não sou digno de ti”) de Gianni Morandi, suplicada por alguém depois de dizer a frase ao telefone da rádio, o romantismo italiano adocicando-me os ouvidos, embalando-me o sono num colchão renovado com a renovação das camisas de milho.
(ler mais...)


E o futuro? »  2020-05-09  »  AnabelaSantos

Não é o futuro depois da pandemia, é o futuro simplesmente.
Vamos deixar, hoje, de lado este campo lexical que tanto nos tem atormentado e que ocupa as vinte e quatro horas do nosso dia: Covid-19, pandemia, confinamento, desconfinamento, estado de emergência, estado de calamidade, vírus, coronavírus, número de mortos, curados e infetados… Vamos descansar!
Mas, se falo em tormento por causa da situação actual, penso que o meu tema de hoje não será muito mais leve.
(ler mais...)


25 de Abril de 2020 »  2020-04-28  »  Jorge Carreira Maia

A celebração do 25 de Abril deste ano foi, do ponto de vista simbólico, a mais importante de sempre. Tem múltiplos aspectos a merecer realce. Em primeiro lugar a controvérsia lançada por quem, do ponto de vista político, queria que as celebrações não se realizassem.
(ler mais...)


E agora? por João Carlos Lopes »  2020-04-21  »  João Carlos Lopes

Depois de loucos 20 anos e de centenas e centenas de milhões de euros de investimento em escolas, piscinas, bibliotecas, centros escolares, pavilhões, centro de congressos, hospitais e centros de saúde, estradas e centros culturais, mercados e jardins, parques e viadutos, rotundas e avenidas, temos um território em perda de densidade, temos o “interior” já aqui, a 50 km do mar em linha recta e a 50 minutos de Lisboa.
(ler mais...)

 Mais lidas - Opinião (últimos 30 dias)
»  2020-04-28  »  Jorge Carreira Maia 25 de Abril de 2020
»  2020-05-09  »  Rui Anastácio 2 beijos
»  2020-05-09  »  Jorge Carreira Maia A Igreja e a pandemia em Portugal
»  2020-05-09  »  Inês Vidal Pela janela, por Inês Vidal
»  2020-05-09  »  José Ricardo Costa 25 de Abril Nunca Mais!