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O outro somos nós - margarida trindade

Opinião  »  2020-09-01  »  Margarida Trindade

"O medo é um problema. Facto. Mas, nos dias que correm, o medo parece ser parte da solução."

Numa muito recente viagem de família, a dada altura e já próximos do destino, a fim de sabermos qual o caminho a tomar, parámos numa bomba de gasolina e baixados os vidros das janelas, lançámos às três pessoas sentadas na mesa da esplanada a demanda pela estrada a seguir.
Fitaram-nos em silêncio três pares de olhos desconfiados. Foi a resposta imediata que obtivemos. Tomamos logo consciência da presença nítida da ameaça que, forasteiros, representávamos e, depois, uns longos segundos depois, quando já não esperávamos qualquer palavra dita, uma mulher de máscara, a medo, lá soprou seca, é para a esquerda. A próxima povoação.
Agradecemos, sorrisos parvos quase a servirem de desculpa, virámos e tomámos o caminho, numa inquietação que se colou a nós o dia inteiro. Sentimo-nos mal-vindos, intrusos, os eventuais portadores de doença.
Na verdade, foram os únicos estranhos com quem nos cruzámos na rua, o que já não acrescentaria novidade em terras onde os homens dormem nas casas frescas a sesta que os guarda do sol ímpio de um Agosto que nos sufoca. Nem vivalma.
O medo é um problema. Facto. Mas, nos dias que correm, o medo parece ser parte da solução. É um sucesso garantido, o medo, para ser mais precisa.
E vive-se este paradoxo insano. É que parece haver uma qualquer conveniência, herdada de um passado nem por isso tão longínquo, de combater o medo com a mesma dose de intensidade com que o mesmo se propaga. E o que quer isto dizer? Quer dizer que o medo é o terreno fértil onde medram, em horizonte opaco e informação difusa, crenças, mitos, e onde, por mais contraditório que pareça, a ciência parece ter pouca aceitação.
Quem crê, é suposto ser mais feliz. Ou, pelo menos, tem mais hipóteses de o ser. É legítimo. Mas esta é a primeira premissa de uma certa ditadura. Desde o princípio dos tempos que os crentes buscam salvação e se agarram a entidades etéreas, que não conseguem alcançar. A outros e a outras que são, no fundo, eles mesmos. E nesses depositam os mais íntimos anseios, sonhos e confiança. E que a fé salva muita gente, não tenho dúvidas. Sendo que o contrário também é inegável.

Assim, e em simultâneo, o outro, de carne e osso, vindo de fora, é por sua vez uma ameaça. É o forasteiro. O que nos vem tirar trabalho. O que nos vem ocupar território. O que professa outra religião. O que traz a doença. O mal.
O outro é o que já não cabe onde o mito e as crenças ocuparam todos os lugares. Onde o medo vence, fecha portas, impõe o silêncio, paralisa o pensamento e nos domina debaixo de um torpor intelectual.
Aguentem-se os mais cépticos, sem remédios de alma maiores do que a teimosia de tentar procurar, dentro da aridez da compreensão racional, alimento para um contentamento bem mais difícil de alcançar. Mais contidos e sem grandes acessos de entusiasmo ou até de fé, que se conheça, diga-se. Uns tristes, que não se entregam à debandada geral para a felicidade que se vai impondo nestes dias.
É que o outro somos nós. E o medo é onde a esperança nos abandona à nossa pouca sorte.

 

 

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