• SOCIEDADE-  • CULTURA  • DESPORTO  • OPINIÃO
  Sexta, 27 Novembro 2020    |      Directora: Inês Vidal    |      Estatuto Editorial    |      História do JT
   Pesquisar...
Seg.
 18° / 9°
Períodos nublados
Dom.
 16° / 7°
Períodos nublados com chuva fraca
Sáb.
 16° / 7°
Céu nublado com chuva moderada
Torres Novas
Hoje  17° / 8°
Períodos nublados
       #Alcanena    #Entroncamento    #Golega    #Barquinha    #Constancia 

V de Vingança

Opinião  »  2018-01-17  »  José Ricardo Costa

"O meu verdadeiro baptismo poético foi com um livro de António Ramos Rosa"

Como não entra nas contas um livro de Pablo Neruda que me ofereceram no Natal ainda eu mal sabia ler, o meu verdadeiro baptismo poético foi com um livro de António Ramos Rosa que comprei numa feira do livro do Cine-Clube de Torres Novas. Pouco depois veio o crisma com a Poesia Toda de Herberto Helder, numa feira do livro da Zona Alta, no edifício onde é hoje a GNR e que me custou 600 escudos (uma fortuna), mas que mal folheei percebi logo que não poderia não comprar. Hoje serei, vá, um razoável leitor de poesia, ao ponto de, até com certo orgulho, ser capaz de dizer à segunda ou terceira tentativa nomes de poetas que habitualmente só se consegue à quarta ou quinta, como Wislawa Szymborska, Marina Tsvetáieva ou Ryszard Kapuscinski, embora com aborrecidos efeitos secundários como atirar perdigotos à cara de quem tiver o azar de estar à minha frente.

Falo de livros mas a alvorada da minha sensibilidade poética começara antes. Não, não foi com João Villaret numa roufenha TV a preto e branco mas já em pleno período revolucionário numa parede da ladeira dos Canitos que eu fazia quatro vezes por dia entre casa e a escola. Nessa para mim hoje mítica parede repousou durante anos esta lustrosa pérola poética, digna herdeira do nosso Cancioneiro Medieval: Otelo Saraiva de Carvalho/Que lindo nome tens tu/Tira o v de Carvalho/E mete o resto no cu.

Ler quatro vezes por dia esta pérola numa idade tão importante na formação espiritual de um ser humano, só poderia ter um indelével impacto não só na minha sensibilidade literária como nos meus elevados valores. E teve. Graças àquele trecho literário percebi o que já sabia por via de uma esmerada educação mas sem disso ter consciência: poder exprimir, sem chã grosseria e ausência de pudor, o clássico desejo com que homens zangados ofendem a honra masculina dos seus interlocutores.

Uma ausência de pudor cada vez mais gritante (também em sentido literal) nos jovens de hoje que, por tudo e por nada, estejam onde estiverem e à frente de quem estiverem, invocam com grande estridência o apelido do Fidel Castro português mas já sem o dourado V que naquela parede funcionava como guardião do respeito e da ordem. Claro que dantes se diziam asneiras e os mais velhos continuam a dizê-las. Aliás, se elas existem é para serem ditas, sobretudo em momentos dramáticos da vida como entalar o dedo numa porta, riscar o carro ao sair da garagem ou acabar de saber que o Jonas se lesionou. Eu mesmo, homem polido, fraquejei há dias ao ver com um esgar de horror vir parar às minhas calças um gorduroso pedaço de lula que teimava em não sair da espetada. Mas também por saber onde estava e com quem estava. Estivesse noutro local e tendo na mesa ao lado duas simpáticas velhinhas da Conferência de S. Vicente de Paulo e o dique não teria aberto as suas comportas para libertar o catártico vernáculo que nos ajuda a libertar da dor de existir em certas ocasiões. Por isso, a imagem que me vem à cabeça quando oiço os nossos jovens a falar sem escrúpulos, seja onde for e ao pé de quem for, são ululantes bárbaros a destruir os civilizados e moralmente engenhosos diques romanos, para deixar passar as fétidas águas do vernáculo, uma espécie de Ribeira do Nicho para ouvidos limpos e educados que acabam assim também desgraçadamente empestados.

 

 

 Outras notícias - Opinião


Onde pára o PS? - josé mota pereira »  2020-11-21  »  José Mota Pereira

Vivi algum tempo nos Açores, onde contactei com uma realidade social e política muito diversa daquela a que estava habituado por estas paragens. Nesse período, a transição do poder político passava de Carlos César para o seu sucessor, Vasco Cordeiro, de forma absolutamente tranquila, com o PS exercendo uma maioria eleitoral que a toda a gente parecia vir a ser eterna.
(ler mais...)


Gatos »  2020-11-21  »  Rui Anastácio

A “Rosa dos Gatos” foi uma das personagens que habitou a minha infância. Na verdade a minha infância foi habitada por uma miríade de personagens. Escolhi a Rosa não sei bem porquê.

A Rosa alimentava vinte gatos, tinha muito mau feitio para as crianças mas um imenso amor pelos gatos.
(ler mais...)


[Breve ensaio para uma carta ao futuro] - margarida trindade »  2020-11-21  »  Margarida Trindade

Aquele era o tempo do contágio. O tempo em que da ordem nasceu a desordem. O tempo da separação e da angústia. O tempo asséptico. O tempo final. O tempo do medo. O tempo da rebelião e de todos os perigos latentes.
(ler mais...)


Ser Torrejano - josé ricardo costa »  2020-11-21  »  José Ricardo Costa

Desço a rua dos Anjos quando o meu cérebro é de repente apoquentado por uma radical e inquietante questão. Não o pavor diante do silêncio e escuridão do espaço cósmico ou por não saber se quando esticar o pernil irei dar com a Audrey Hepburn a cantar o Moon River numa matiné de domingo no Virgínia ou com um cenário de Bosch.
(ler mais...)


Pandemia e a vantagem do meio termo - jorge carreira maia »  2020-11-21  »  Jorge Carreira Maia

Depois de uma pequena acalmia, a pandemia de COVID-19 escalou. Contágios, internamentos, utilização de cuidados intensivos e mortes, tudo isso apresenta números que são já assustadores. É fácil criticar os governos, difícil, porém, é ter, com os recursos existentes e com os conhecimentos disponíveis, respostas que agradem a todos ao mesmo tempo.
(ler mais...)


Generalizar, apontar, julgar - inês vidal »  2020-11-21  »  Inês Vidal

Digo isto com frequência. Quem melhor me conhece, já o ouviu dezenas de vezes. Ainda hoje, ao jantar, dizia à minha filha que não podemos viver no preconceito. A vida não é a preto e branco, tem antes milhares de nuances.
(ler mais...)


Mais rápido que a própria sombra - carlos paiva »  2020-11-21  »  Carlos Paiva

As árvores, além de produzirem oxigénio e servirem de lar para uma série de bicharada, têm num dos efeitos colaterais à sua existência, o arrefecimento do ar. Onde há árvores, fica mais fresquinho.
(ler mais...)


Água - antónio gomes »  2020-11-21  »  António Gomes

A água é um recurso escasso, não é infinito e não podemos viver sem ela. O acesso à água é um direito humano.
Muito se tem escrito e muito se vai continuar a escrever sobre a exploração e utilização da água, mas medidas concretas para rentabilizar a sua utilização são ainda são escassas e decisões políticas são a excepção.
(ler mais...)


Voltemos ao comércio local - antónio gomes »  2020-11-06  »  António Gomes

A situação de pandemia agrava-se aos olhos de toda a gente e as consequências desta situação são evidentes: no emprego/desemprego, na actividade económica, na transacção de mercadorias, em particular no comércio local.
(ler mais...)


FUI LÁ ATRÁS, VOLTO JÁ - josé mota pereira »  2020-11-06  »  José Mota Pereira

Passados três meses da sua aquisição, o smartphone decidiu entregar a alma ao criador, pelo que o cronista teve que o substituir temporariamente, aguardando a devida recuperação do paciente tecnológico. Sendo a doença temporária e recuperável no prazo razoável de três semanas, decidiu o cronista investir a modesta quantia de cerca de vinte moedas de euros na aquisição de um aparelho telefónico portátil, a que dantes chamávamos telemóvel, para permitir o seu contacto com os outros humanos do Mundo.
(ler mais...)

 Mais lidas - Opinião (últimos 30 dias)
»  2020-11-21  »  José Mota Pereira Onde pára o PS? - josé mota pereira
»  2020-11-21  »  José Ricardo Costa Ser Torrejano - josé ricardo costa
»  2020-11-06  »  Jorge Carreira Maia Hiperpolitização - jorge carreira maia
»  2020-11-21  »  Carlos Paiva Mais rápido que a própria sombra - carlos paiva
»  2020-11-06  »  José Mota Pereira FUI LÁ ATRÁS, VOLTO JÁ - josé mota pereira