• SOCIEDADE-  • CULTURA  • DESPORTO  • OPINIÃO
  Segunda, 06 Julho 2020    |      Directora: Inês Vidal    |      Estatuto Editorial    |      História do JT
   Pesquisar...
Qui.
 37° / 16°
Céu limpo
Qua.
 32° / 16°
Céu limpo
Ter.
 38° / 17°
Céu limpo
Torres Novas
Hoje  39° / 18°
Céu limpo
       #Alcanena    #Entroncamento    #Golega    #Barquinha    #Constancia 

Panificação em tempo de pandemia - miguel sentieiro

Opinião  »  2020-06-18  »  Miguel Sentieiro

"Felizmente que ao fim de 3 meses esta loucura profiláctica já lá vai"

Depois de 3 meses com o cérebro enclausurado, decidi desconfinar e escrever finalmente sobre esta fase isolamento forçado. Aproveitando a loucura geral da libertação da malta que, de súbito, decidiu invadir esplanadas, praias e praças, também eu comecei meter a cabeça de fora. Vê-se que o portuga não foi feito para grandes tempos de apneia; isso é tarefa para os mergulhadores de ostras do Golfo Pérsico. Cá nós, aguentamos um bocadinho a suster o ar, mas quando nos dizem que podemos subir devagar para garantir a descompressão equilibrada, saímos a toda a gáspia em busca do oxigénio perdido sem tempo para essas mariquices.
Mas olha, que parece que a malta continua a falecer… Eu quero é que se lixe, pá! Já estava a ficar roxo de tanto ensino à distância! Eu preciso é de vitamina D em barda; parece que reforça o sistema imunitário. E sempre posso levar o iphone para o Baleal e, antes de me banhar nas águas do oceano, ou de beber umas jolas, marco presença na aula de Matemática.
Mas comecemos pela fase inicial da pandemia, em que o vírus mortal nos perseguia de forma voraz por via aérea ou terrestre. Uma das constatações mais enigmáticas dessa fase para mim, foi a pá da padaria do Lidl! Eu sei que parece estúpido, mas terão de me dar um desconto, afinal estive sem oxigenar o encéfalo durante muito tempo. Saímos de casa, munidos de todo o material de protecção, até aquele gel desinfectante viscoso que comprámos por 15 euros. Assamos dentro do carro com os vidros fechados, porque nos iremos cruzar no caminho com o camionista contaminado que veio com produtos alimentares de Itália. Chegamos ao Lidl, cruzamo-nos com um tipo que tem olhos de chinês (vê-se logo que fugiu da província de Wuhan para nos tentar fazer a folha), sustemos a respiração não vá a bicheza entrar. Vamos para a secção do pão. Esperamos que a senhora, que parece querer levar pão para armazenar durante 3 meses no seu bunker, saia da frente dos sacos de papel e vá para a secção do papel higiénico, para podermos passar ao ataque.
A senhora saiu, calçamos a luva, pegamos no saco e seguramos radiantes na pá. Dizem-nos que o Covid gosta de esperar por mãos desprotegidas nas superfícies metálicas e de plástico e o que é que os alemães criadores do Lidl inventaram? Uma pá metálica com uma pega de plástico onde o vírus pulula de alegria. Então os tipos criam a Mercedes, a Volkswagen, a BMW, a Siemens e depois enterram-se com esta deprimente pá recolhedora de pão ? Pegamos na pá com a luva e tentamos “pescar” o pão certo com um refinado trabalho de pulso ao nível dos melhores praticantes de matraquilhos. Lembramo-nos das máquinas da feira com aquela garra para apontarmos e tentar apanhar o ursinho que nunca vem e nos engole o euro. Aqui o processo é inverso, a colherada agarra sempre mais 3 paposecos do que os desejados. Seguramos no saco com a mão e vamos buscar o pão desejado mais os três extra. Chiça! Peguei no pão com a mão com que tinha segurado na pega de plástico cheia de vírus! Não memorizei bem o procedimento complexo associado àquele momento. Volto atrás, ou opto pelo “que se lixe”? A minha veia anti-desperdício e a pressão do homem que está com o ombro encostado ao meu em busca dos croissants de manteiga, levam-me a optar pelo “que se lixe” e a fugir com os paposecos contaminados na sacola.

As compras restantes são feitas em passo de corrida, a arrastar o fardo na consciência por não ter tido a concentração necessária na secção do pão, nem o trabalho prévio para que os passos da anti-contaminação batessem certo. Chego extenuado à caixa de pagamento e tenho dificuldade em estabelecer comunicação com a funcionária (que ainda não usa máscara obedecendo ao conselho inicial da senhora da DGS) pelos 4 metros de distância e o olhar enviesado para evitar inalar espilros mais enérgicos da funcionária que já tinha dado troco ao chinês de Wuhan. Depois de decifrar a frase “já pode pôr o cartão na ranhura”, teria a tarefa de tentar realizar esse desígnio, cumprindo uma distância de segurança com a solícita senhora, que teimava em manter acesa uma inadequada conversa de circunstância em tempo viral. Chego ao carro, despejo uma quantidade generosa de gel por tudo o que é epiderme e volto para casa com a segurança proporcionada pelo hermético e ardente veículo.

Felizmente que ao fim de 3 meses esta loucura profiláctica já lá vai. Eu sei que temos de continuar a ter de levar com a senhora da DGS todos os dias, mas o panorama está claramente no desconfinamento à grande. Os comboios da Amadora voltam a abarrotar, as manifestações anti-racismo juntam milhares nas ruas, os espectáculos com 2000 espectadores na plateia são partilhados pelos chefes de estado, a água do mar já convida muita malta ao mergulho e até o ministro Centeno se decidiu desconfinar dos cargos das finanças que vão dar pouco trabalho nesta fase. Ainda bem que o número de infectados por covid desceu de uma maneira abrupta e já podemos fazer a “fiesta”…Ai não?....o número continua igual?.... Então, pá!? Parece que já passámos para a fase do “que se lixe”…a falta de ar e de sol. Acho bem, até porque já não aguento a sauna do habitáculo do meu carro com os vidros fechados. Já agora e aproveitando a embalagem, será possível nesta fase, desconfinarmos o ensino à distância e pararmos de fingir que este método educativo funciona melhor do que a pá que tenta tirar o pão na padaria do Lidl?

 

 

 Outras notícias - Opinião


Os municípios e as respostas locais e excepcionais a uma situação de excepção »  2020-07-03  »  Ana Lúcia Cláudio

Lisboa e Porto são, naturalmente, as cidades portuguesas mais viradas para o turismo. Por isso mesmo, são também elas as mais penalizadas com os respectivos danos colaterais nas vidas de todos os que aí vivem e trabalham.
(ler mais...)


Tudo vale a pena se a alma não é pequena - anabela santos »  2020-07-03  »  AnabelaSantos

Tanto empenho, tanto sofrimento, tantos sacrifícios, tanta luta para alcançar objectivos e pergunta Fernando Pessoa se terá valido a pena, ao que o poeta responde: sim. Se a alma não é pequena, isto é, se é dotada de um espírito bravo, forte e sonhador, nada do que se faz é em vão.
(ler mais...)


Cada um escolhe os seus amigos - antónio gomes »  2020-07-03  »  António Gomes

A proposta do Bloco para apoio ao comércio local foi rejeitada. O PS mostrou insensibilidade e ignorância com este sector da economia local. O PS não quer saber das dificuldades de quem teve de encerrar os negócios durante três meses e por isso não conseguiu realizar dinheiro, apesar de manter os compromissos regulares como as rendas, entre outros.
(ler mais...)


A justa distância - jorge carreira maia »  2020-07-03  »  Jorge Carreira Maia

Começamos a descobrir que eram exorbitantes as expectativas de que a pandemia fosse um pesadelo que passaria na manhã seguinte. Quando se confinou, a esperança era que tudo voltasse ao habitual passadas duas semanas, talvez quatro.
(ler mais...)


SEQUESTRADOS - josé mota pereira »  2020-07-03  »  José Mota Pereira

Parece inevitável que no próximo ano, ano e meio, possamos desconfinar mais do que estamos. A surgirem alterações, será sempre no sentido do aumento do confinamento e não o seu contrário. Sem prazo à vista para que nos libertemos disto.
(ler mais...)


É lidar »  2020-07-03  »  Margarida Trindade

Sou constantemente assaltada pela dúvida. Sofro deste desconforto constante. Bem sei que mais felizes são os que nunca têm dúvidas e os que raramente se enganam e que dizer isto pode parecer uma banalidade, mas é a mais pura das verdades.
(ler mais...)


Capitalismo e saúde mental - mariana varela »  2020-07-03  »  Mariana Varela

Num mundo onde os problemas mentais se alastram, em que domina a ansiedade diária, o stress, a depressão, em que a prescrição de medicação como os ansiolíticos e antidepressivos tem vindo a aumentar, urge detetar as raízes desta verdadeira crise de saúde mental, ao invés de nos restringirmos ao tratamento de sintomas.
(ler mais...)


São Pedro, o Ferreira, pesando as almas - joão carlos lopes »  2020-06-19  »  João Carlos Lopes

Na reunião camarária do passado dia 2 de Junho, a respeito de mais uma trapalhada relacionada com o apoio unilateral da maioria socialista ao jornal “O Almonda”, uma vereadora dizia que se sentia enganada e mais disse que o PS, que tinha votado a favor, também devia sentir-se enganado.
(ler mais...)


Carta aberta a bom entendedor - inês vidal »  2020-06-18  »  Inês Vidal

Tenho mau feitio, quem me conhece sabe. Uma característica que nasceu comigo, mas que nitidamente vai piorando à medida que os anos passam, a vida corre, as experiências se sucedem...

Não deixa de ter graça que simultaneamente, mas num sentido inversamente proporcional, cresça a minha tolerância para com uma série de outras coisas que outrora me custava entender.
(ler mais...)


Radicais e moderados - jorge carreira maia »  2020-06-18  »  Jorge Carreira Maia

Na segunda-feira passada, o Presidente da República fez uma intervenção na televisão sobre a vandalização da estátua do Padre António Vieira. Chamou a atenção para que nenhum dos verdadeiros problemas da pobreza, da discriminação e do racismo se resolve com estas acções.
(ler mais...)

 Mais lidas - Opinião (últimos 30 dias)
»  2020-06-18  »  Inês Vidal Carta aberta a bom entendedor - inês vidal
»  2020-06-19  »  João Carlos Lopes São Pedro, o Ferreira, pesando as almas - joão carlos lopes
»  2020-06-07  »  Margarida Trindade Sabiam - margarida trindade
»  2020-06-07  »  Rui Anastácio Roçadora - rui anastácio
»  2020-06-18  »  José Mota Pereira Dois mitos do desenvolvimento em Torres Novas - josé mota pereira