• SOCIEDADE-  • CULTURA  • DESPORTO  • OPINIÃO
  Sábado, 02 Julho 2022    |      Directora: Inês Vidal    |      Estatuto Editorial    |      História do JT
   Pesquisar...
Ter.
 34° / 16°
Céu limpo
Seg.
 33° / 15°
Períodos nublados
Dom.
 32° / 16°
Períodos nublados com aguaceiros e trovoadas
Torres Novas
Hoje  34° / 15°
Períodos nublados
       #Alcanena    #Entroncamento    #Golega    #Barquinha    #Constancia 

Dannazione! - josé ricardo costa

Opinião  »  2022-05-09  »  José Ricardo Costa

"“Dou por mim a ler coisas tristíssimas, surpreendentes, repulsivas, revoltantes ou assustadoras que deixariam uma pessoa normal deprimida em dez segundos"

Rigoletto é bobo no palácio do duque de Mântua, ou seja, existe para fazer rir. Mas apagam-se as luzes da ribalta e eis que surge um outro homem: sensível, pai extremoso, chorando ainda a morte da única mulher que o amou. Rigoletto é vítima de uma condenação: ter que rir quando a vontade é tanta como a de André Ventura de adoptar duas criancinhas ciganas. Um triste destino, bem expresso na ária Pari Siamo, que o barítono faz alternar entre o lúgubre e o triste: Ó homens, ó natureza!/ Num vil celerado me tornastes!/ Que raiva, ser disforme!/ Que raiva, ser um bobo!/Não dever, não poder nada fazer senão rir!/ É-me vedado o privilégio de qualquer homem: o pranto!/ O meu amo, jovem, alegre,/ tão poderoso e belo,/meio adormecido me diz: bobo, faz-me rir!/ Tenho de me esforçar e consegui-lo!/ Ó Condenação [Dannazione]

Rigoletto ri para matar a fome. Percebo bem pois também tenho de fazer coisas que não me apetecia para matar a fome em vez de ser ela a matar-me a mim. O que já me faz alguma espécie é um mundo em que rimos porque das duas uma, ou andamos com uma botija de gás hilariante escondida no bolso ou padecemos de afecção pseudobulbar. Dizia o outro que se há coisa que dá vontade de chorar é ver um português a rir. Olhando à minha volta, generalizaria o espirituoso dito à cada vez mais imensa parte da humanidade que parece vítima de uma descontrolada sequência de risos múltiplos, alternando com a outra parte da humanidade que, não tendo grandes razões para rir, sofre de frigidez hilariante, o que não tem gracinha nenhuma.

O humor é uma coisa muito boa e até digo que antes queria morrer a rir no sofá a ver um filme dos Monty Phyton do que sozinho numa cama de hospital às três da manhã de olhar perdido num canal de televendas. De acordo com a vibrante psicologia cor-de-rosa que nos enche a mind dos pirolitos, rir é mesmo terapêutico e faz-nos viver mais anos, o que é simpático excepto naqueles casos em que se morre aos 30 ou 40 para ser só enterrado aos 80 ou 90. E todos sabemos, pelo senso comum, ou filosoficamente, como é o caso de Espinosa, que a alegria é preferível à tristeza e o que queremos é ver as pessoas de quem mais gostamos com razões para rir em vez de chorar.

De resto, a alegria é mesmo uma emoção básica do ser humano. Mas também existem outras cinco, tristeza, medo, nojo, surpresa e a raiva, todas elas importantes ou mesmo vitais, tendo cada uma delas a sua natural expressão facial. Mas dá-se o caso de andar tudo meio destrambelhado. Dou por mim a ler coisas tristíssimas, surpreendentes, repulsivas, revoltantes ou assustadoras que deixariam uma pessoa normal deprimida em dez segundos mas ditas por pessoas cuja única expressão que vemos chapada nos seus rostos é a de quem parece ter colada à cara uma daquelas máscaras do teatro grego com a boca virada para cima como se sofressem de paralisia facial.

Vejamos estas imagens - podiam ser dezenas – capturadas em pouco tempo no ecrã do meu telefone. Christina Lamb escreve um livro sobre vítimas de violação em conflitos e conta que todas as mulheres lhe disseram que preferiam ter morrido. Corrêa de Barros esteve na Ucrânia, falando do que por lá viu e Janis Kluge assume que tudo aponta para que a guerra vá continuar. Entretanto, Marci Shore, professora em Yale, teme que a Terceira Guerra Mundial já tenha começado e ainda de acordo com Sofia Santos, faltam milésimos de segundo para o mundo, neste caso, por razões ambientais, esticar o pernil. Só para variar um pouco o tema, embora não na tristeza, um casal sénior ilustra um artigo sobre uma terrível doença, o mieloma múltiplo

Pronto, uma pessoa lê isto e fica como se tivesse acabado de passar doze horas fechado na Cinemateca a ver filmes do Ingmar Bergman num dia de chuva. Já não aparece é ninguém, como dantes acontecia, a antever o fim do capitalismo, confirmando-se por esta amostra a velha ideia de que é mais fácil imaginar o fim do mundo do que o fim do capitalismo, o que também não é propriamente animador para o capitalismo, uma vez que se não houver mundo também não haverá lei da oferta e da procura, deixando-se assim de ir ao McDonald’s e à Zara.

Enfim, pessoas falando sobre dramáticos, terríveis ou mesmo apocalípticos problemas mas todas ligadas por um elemento comum: riem. Ou quando fotografadas para a entrevista, ou porque os jornais resolveram escolher fotografias em que estivessem a rir. E não, não me esqueci da fotografia com os dois divertidos secretários de estado norte-americanos de visita a Zelensky. Ambos riem todos contentes enquanto o presidente ucraniano, o único que ali é cómico, está sério. Num mundo cada vez mais condenado ao riso, conseguiu fugir à condenação do seu colega da ópera de Verdi, dispensando para os outros o papel de bobos. Não é coisa pouca.

 



 


 

 

 Outras notícias - Opinião


Tomatina - carlos paiva »  2022-06-18  »  Carlos Paiva

Até os mais distraídos na escola, fui um deles, se devem lembrar do princípio mais básico da física. Para qualquer acção, há uma reacção. Por incrível que pareça, por muito tosco que seja, é o princípio base que orienta e rege todo o método científico, até o de ponta.
(ler mais...)


A GRANDE PORTA DE KIEV - josé alves pererira »  2022-06-18  »  José Alves Pereira

O conflito em curso na Ucrânia veio dar maior visibilidade à sua capital e sede de governo, Kiev. Como todos os cidadãos, vejo com uma sensação de perda a destruição das estruturas materiais e das vidas, mas igualmente das irreparáveis, no curto prazo, fracturas nas relações humanas.
(ler mais...)


Escavar no romance português - jorge carreira maia »  2022-06-18  »  Jorge Carreira Maia

Está calor. Em vez de falar de política, como habitualmente, o melhor é derivar e falar de literatura. Não é que o assunto interesse mais aos portugueses do que a política. Não interessa, mas ajuda a suportar o calor e a inflação.
(ler mais...)


Fantoche... »  2022-06-17  »  Hélder Dias

Sim, dou licença - inês vidal »  2022-06-04 

Sempre quis ser espanhola. Gosto e invejo o ritual das cañas e pinchos, ao mesmo tempo que me questiono, intrigada, sobre onde enfiam as crianças para poderem passar os fins de tarde na esplanada. Adoro o conceito. Sempre quis ser espanhola.
(ler mais...)


Aquela máquina - carlos paiva »  2022-06-04 

Somos conhecidos no mundo inteiro como o povo do desenrasca. Não é pelo vinho do Porto, não é pelo CR7, não é pelos descobrimentos, não é pelo clima e pelas praias. É pelo desenrasca. Como testemunham os hábitos de leitura nacionais, temos uma facilidade nata em absorver conhecimento pela prática.
(ler mais...)


A fraternidade - jorge carreira maia »  2022-06-04  »  Jorge Carreira Maia

Dos três princípios da Revolução Francesa – Liberdade, Igualdade e Fraternidade – este último permaneceu sempre numa espécie de limbo. Os grandes debates e os grandes conflitos ideológicos estruturaram-se em torno dos outros dois.
(ler mais...)


Desafiamos a sorte e a tragédia - antónio gomes »  2022-06-04  »  António Gomes

Há longos anos que desafiamos a sorte com a tragédia logo ali à espreita no centro histórico de Torres Novas. As derrocadas das casas abandonadas sucedem-se, felizmente ainda ninguém foi apanhado. A última, na rua da Corrente, veio apenas confirmar a sorte que temos tido e a tragédia que está por perto.
(ler mais...)


Rei Carlos? »  2022-06-02  »  Hélder Dias

Zé Lensky... »  2022-06-01  »  Hélder Dias
 Mais lidas - Opinião (últimos 30 dias)
»  2022-06-17  »  Hélder Dias Fantoche...
»  2022-06-04  Sim, dou licença - inês vidal
»  2022-06-18  »  Jorge Carreira Maia Escavar no romance português - jorge carreira maia
»  2022-06-18  »  Carlos Paiva Tomatina - carlos paiva
»  2022-06-04  »  Jorge Carreira Maia A fraternidade - jorge carreira maia