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Marcelo Rebelo da Nóvoa

Opinião  »  2016-01-14  »  Adelino Pires

Ao fim de décadas de cátedra e audiências de topo em horário nobre, o Professor, mestre do improviso, falando como respira e dançando em qualquer palco, há muito que dispensara cábulas, calculadoras e outras aplicações.

Depois de fazer de conta que contas não fazia, foi magistralmente anulando, um a um, todo e qualquer putativo candidato da área natural de direita, secando, qual eucalipto, todo o espaço à sua volta. E até mesmo Passos, teve que engolir o catavento com que o alcunhou. Ao longo do tempo, o Professor desanimou Durão, misericordiou Santana e secou Rui Rio. À direita, tudo perfeito.

Agora, seria preciso tratar do outro lado da estrada. Em Setembro, um abraço inesperado aos camaradas do Avante. Depois, era aguardar pelos resultados de Outubro e, sobretudo, que Guterres não se lembrasse de voltar à sua santa terrinha. Seria o bONUs decisivo para avançar. Analista brilhante, tudo correu como previra!

E então, tendo tudo preparado para aquela que parecia ser mais uma aula de anfiteatro cheio, o Professor avançou. Avançou, mas tropeçou.
Ao despir a bata de professor e de analista, não conseguiu que lhe servisse a farpela de candidato. E vai daí, pouco dado a frente a frentes que lhe fizessem frente e não olhinhos, o Professor tropeçou no Reitor.

Na sua análise intuitiva, inteligente e calculista, habituara-se a analisar políticos e factos políticos, jogadas e jogadores de “poker”, mas esquecera-se que, por vezes, como diria o Torga “o universal é o local menos os muros”. E, desta vez, aparecera-lhe alguém de mente aberta e vasto conhecimento, fora das lógicas puramente partidárias, com um pensamento estruturado, culto e igualmente inteligente.

O Professor menoprezara o Reitor. E aos poucos, Nóvoa foi saindo da névoa, foi-se fazendo ouvir sem que tivesse que falar alto. Foi-se mostrando, sem se pôr em bicos dos pés.

E agora, que o final da aula se aproxima, a sensação que se tem é como a daqueles jogos em que a equipa dos milhões e claramente favorita se vê de repente a jogar à defesa, esperando que o árbitro apite e que o jogo acabe, antes que haja uma surpresa.

E o Professor, analista brilhante, que começou a aula com o anfiteatro cheio, vendo aos poucos cada vez menos alunos na sala, sabe melhor que ninguém que, se a aula durasse mais tempo, corria o risco de ficar a falar para si próprio. E, mesmo que goste tanto de se ouvir, não foi bem para isto que (não) se preparou.


(Adelino Correia-Pires, Janeiro 2016)

 

 

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