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Milhões

Opinião  »  2016-11-02  »  João Carlos Lopes

"Este capitalismo financeiro não é o fim da história nem o seu destino"

Não, não é uma brincadeira. É coisa séria dizer-se que o orçamento municipal de um concelho de 35 mil habitantes é, grosso modo, o ordenado-base mais os prémios de jogo de seis meses do Ronaldo no Real Madrid. Soa bem? Não, não soa nada bem.

Como não soa bem que o director de um banco público se prepare para ir ganhar mais de 300 vezes do ganham milhares de reformados que não chegam a receber 200 euros de reforma por mês. Também é surpreendente que a Califórnia, um único estado americano, seria a sétima economia do mundo. Por nele existirem várias “empresas globais”que, cada uma por si, vale mais do que o PIB de muitos e muitos países do mundo.

Como parece impossível que se tenha chegado ao ponto a que chegámos, em que os fluxos financeiros que comandam, suportam, viciam e manipulam a economia do mundo só correspondam a cerca de 20 ou 30 por cento de dinheiro, dinheiro mesmo. Números que escondem sempre assimetrias e disparidades, desigualdades, roubos e iniquidades. Quer isto dizer que, caso uma borboleta bata as asas em Hong Kong, ou na China, para actualizar o ditado, isto rebenta tudo de um dia para o outro como um baralho de cartas.

A diferentes níveis e escalas, realidades e contextos, a loucura dos números, que se reproduzem a eles mesmos em imparável desvario, representa o estado actual da deriva humana para um caminho sem retorno. Não, este capitalismo financeiro não é o fim da história nem o seu destino. Não tem viabilidade, pura e sim­plesmente. Por mais que eles digam o contrário.

 

 

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