Pés e cabeça - josé ricardo costa
Opinião
» 2023-09-04
» José Ricardo Costa
Ainda garoto, meti na cabeça que era anarquista só porque pensava e dizia umas coisas subversivas. Graças a Deus, que nesse tempo era Bakunine, depressa percebi que estava apenas a ser parvo. Cheguei mesmo a ver como se faziam cocktails Molotov, mas devido à Físico-Química ser a minha pior disciplina e a uma tremenda inépcia manual, eu seria sempre a primeira vítima da minha subversão. E quanto aos Molotov, a minha preferência ia mais para aqueles com doce de ovos, bem menos perigosos, excepto se armadilhados com salmonelas.
Também parvoíce, e da catedrática, há-de ter sido o que levou à decapitação do S. António ali na rotunda. Antes ficassem os terroristas sossegados a tentarem ser poetas malditos ante um copo de absinto, a ler os clássicos russos, ou se isso for pedir muito, a entreterem-se com umas imperais e tremoços enquanto dizem mal da religião e da igreja, caso a parvoíce tivesse motivação ideológica.
Acontece que a minha costela hegeliana, sempre de olho na força da negatividade, levou-me a uma leitura mais generosa deste crime de lesa-santo. Santo que sempre me deixou indiferente, o mesmo já não podendo dizer da estátua pela angustiante fatalidade de ter de passar por ela várias vezes ao dia, como se não bastasse já o restante filme de terror que, com honrosas excepções, é a arte pública em Torres Novas.
Angústia que começou logo na primeira vez que me deparei com a estátua, ao ver dela emanar o fétido bafo do mau gosto que logo me causou uma convulsão visual que me envesgou o olhar e revirou as entranhas mentais. Apesar de nesse dia a estátua ter ainda a cabeça tão assente nos ombros como os pés no chão, logo a considerei artisticamente sem «pés nem cabeça», descendo ao subterrâneo nível da Cova da Iria, embora não, infelizmente, do museu de cera, para que assim derretesse mal chegasse o Verão. Não pude assim deixar de apreciar, alguns dias depois, a figura do santo já despojado da sua cabeça, bem mais arejada e de acordo com padrões estéticos e artísticos contemporâneos.
Mesmo que sejamos conservadores, apreciando uma escultura mais clássica, a rigidez bizantina e anémica lividez da estátua oferecem-nos a sugestão de uma peça grega ou romana. Aceitando-se a sugestão, haverá então coisa mais bela, misteriosa e romântica do que uma estátua incompleta? A Vénus de Milo teria hoje o mesmo encanto com os braços? Ou a Vitória de Samotrácia com a cabeça? Como teria Rilke escrito o belo poema sobre o arcaico torso de Apolo se lá estivesse a cabeça? Não por acaso, desde o século XVIII que há um fascínio pela incompletude das ruínas, sendo mesmo construídas de raiz como acontece em Monserrate, uma folly, é verdade, mas belo e fértil alimento para os olhos.
Mas também é bom lembrar que estamos no século XXI e que existe arte do Gótico para a frente. Daí que, se Torres Novas quer estar também no centro do progresso artístico, mais apropriado do que ver o santo e o menino como se estivessem a posar para uma fotografia dos anos 20 do século passado, será exibir a verdadeira essência do santo, em consonância com os mais ousados cânones da arte moderna, segundo os quais um rosto não tem de ter boca ou nariz, ou a boca pode estar para um lado e o nariz para o outro e outras coisas assim do género.
A qualquer artista contemporâneo pararia a digestão se depois de almoço visse a estátua ainda com cabeça, por saber bem, como dizia Picasso, que a arte é para manifestar o que se pensa, não o que se vê, o que não implica nada contra as cabeças, como acontece com a de D. Sancho em frente ao castelo. E no que pensa o povo quando confrontado com a figura do santo? Durante as suas festas, passará pela cabeça de algum católico com uma perna de frango numa mão e uma mini na outra, a ideia do popular santo como Pater Scientia? A alguém que vai na procissão, passará pela sua católica consciência uma devoção ao Malleus Hereticorum? Algum casal que canta na marcha faz ideia de quem foi o Doctor Veritatis que impressionou a Europa intelectual do seu tempo?
Por isso, se o artista contemporâneo visse a estátua já sem a cabeça, em vez de parar a digestão, activaria a cabeça, a sua, claro, para reflectir no verdadeiro significado da obra, ocorrendo-lhe então pensar que o que os devotos católicos veneram não é o intelectual, disposição que por inerência não dispensaria a cabeça numa estátua de Aristóteles ou Nuno Rogeiro, mas o homem santo, bom e milagreiro, tudo coisas que vêm do coração, ou de um órgão místico bem arredado da caixa craniana.
Daí que um S. António sem cabeça consiga o verdadeiro milagre de conciliar uma linguagem artística contemporânea, a qual desvaloriza toda e qualquer rigidez mimética, com a verdadeira essência do santo, para o povo que dança e canta na marcha, se atira à sardinha na festa e que o venera no silêncio da procissão.
Por isso, embora algo paradoxal, uma estátua do S. António sem cabeça é a que terá verdadeiramente mais pés e cabeça, devendo assim ficar para sempre, embora, ideal, ideal, ideal, tenho que admitir, seria ficarem só mesmo os ciprestes.
FOTO: Cemitério Dorotheenstädtischer II, Berlim
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Pés e cabeça - josé ricardo costa
Opinião
» 2023-09-04
» José Ricardo Costa
Ainda garoto, meti na cabeça que era anarquista só porque pensava e dizia umas coisas subversivas. Graças a Deus, que nesse tempo era Bakunine, depressa percebi que estava apenas a ser parvo. Cheguei mesmo a ver como se faziam cocktails Molotov, mas devido à Físico-Química ser a minha pior disciplina e a uma tremenda inépcia manual, eu seria sempre a primeira vítima da minha subversão. E quanto aos Molotov, a minha preferência ia mais para aqueles com doce de ovos, bem menos perigosos, excepto se armadilhados com salmonelas.
Também parvoíce, e da catedrática, há-de ter sido o que levou à decapitação do S. António ali na rotunda. Antes ficassem os terroristas sossegados a tentarem ser poetas malditos ante um copo de absinto, a ler os clássicos russos, ou se isso for pedir muito, a entreterem-se com umas imperais e tremoços enquanto dizem mal da religião e da igreja, caso a parvoíce tivesse motivação ideológica.
Acontece que a minha costela hegeliana, sempre de olho na força da negatividade, levou-me a uma leitura mais generosa deste crime de lesa-santo. Santo que sempre me deixou indiferente, o mesmo já não podendo dizer da estátua pela angustiante fatalidade de ter de passar por ela várias vezes ao dia, como se não bastasse já o restante filme de terror que, com honrosas excepções, é a arte pública em Torres Novas.
Angústia que começou logo na primeira vez que me deparei com a estátua, ao ver dela emanar o fétido bafo do mau gosto que logo me causou uma convulsão visual que me envesgou o olhar e revirou as entranhas mentais. Apesar de nesse dia a estátua ter ainda a cabeça tão assente nos ombros como os pés no chão, logo a considerei artisticamente sem «pés nem cabeça», descendo ao subterrâneo nível da Cova da Iria, embora não, infelizmente, do museu de cera, para que assim derretesse mal chegasse o Verão. Não pude assim deixar de apreciar, alguns dias depois, a figura do santo já despojado da sua cabeça, bem mais arejada e de acordo com padrões estéticos e artísticos contemporâneos.
Mesmo que sejamos conservadores, apreciando uma escultura mais clássica, a rigidez bizantina e anémica lividez da estátua oferecem-nos a sugestão de uma peça grega ou romana. Aceitando-se a sugestão, haverá então coisa mais bela, misteriosa e romântica do que uma estátua incompleta? A Vénus de Milo teria hoje o mesmo encanto com os braços? Ou a Vitória de Samotrácia com a cabeça? Como teria Rilke escrito o belo poema sobre o arcaico torso de Apolo se lá estivesse a cabeça? Não por acaso, desde o século XVIII que há um fascínio pela incompletude das ruínas, sendo mesmo construídas de raiz como acontece em Monserrate, uma folly, é verdade, mas belo e fértil alimento para os olhos.
Mas também é bom lembrar que estamos no século XXI e que existe arte do Gótico para a frente. Daí que, se Torres Novas quer estar também no centro do progresso artístico, mais apropriado do que ver o santo e o menino como se estivessem a posar para uma fotografia dos anos 20 do século passado, será exibir a verdadeira essência do santo, em consonância com os mais ousados cânones da arte moderna, segundo os quais um rosto não tem de ter boca ou nariz, ou a boca pode estar para um lado e o nariz para o outro e outras coisas assim do género.
A qualquer artista contemporâneo pararia a digestão se depois de almoço visse a estátua ainda com cabeça, por saber bem, como dizia Picasso, que a arte é para manifestar o que se pensa, não o que se vê, o que não implica nada contra as cabeças, como acontece com a de D. Sancho em frente ao castelo. E no que pensa o povo quando confrontado com a figura do santo? Durante as suas festas, passará pela cabeça de algum católico com uma perna de frango numa mão e uma mini na outra, a ideia do popular santo como Pater Scientia? A alguém que vai na procissão, passará pela sua católica consciência uma devoção ao Malleus Hereticorum? Algum casal que canta na marcha faz ideia de quem foi o Doctor Veritatis que impressionou a Europa intelectual do seu tempo?
Por isso, se o artista contemporâneo visse a estátua já sem a cabeça, em vez de parar a digestão, activaria a cabeça, a sua, claro, para reflectir no verdadeiro significado da obra, ocorrendo-lhe então pensar que o que os devotos católicos veneram não é o intelectual, disposição que por inerência não dispensaria a cabeça numa estátua de Aristóteles ou Nuno Rogeiro, mas o homem santo, bom e milagreiro, tudo coisas que vêm do coração, ou de um órgão místico bem arredado da caixa craniana.
Daí que um S. António sem cabeça consiga o verdadeiro milagre de conciliar uma linguagem artística contemporânea, a qual desvaloriza toda e qualquer rigidez mimética, com a verdadeira essência do santo, para o povo que dança e canta na marcha, se atira à sardinha na festa e que o venera no silêncio da procissão.
Por isso, embora algo paradoxal, uma estátua do S. António sem cabeça é a que terá verdadeiramente mais pés e cabeça, devendo assim ficar para sempre, embora, ideal, ideal, ideal, tenho que admitir, seria ficarem só mesmo os ciprestes.
FOTO: Cemitério Dorotheenstädtischer II, Berlim
Painéis fotovoltaicos da Renova: e um bocadinho de interesse municipal agora ao contrário? - joão carlos lopes
» 2025-12-10
Na recente reunião do executivo municipal em que foi debatida a questão dos painéis fotovoltaicos da Renova, o presidente da Câmara, José Trincão Marques, recordou o seu papel assertivo, então enquanto presidente da assembleia municipal, na polémica sobre o acesso à nascente do rio Almonda, que foi tema recorrente nestas páginas nos anos 2020/2023. |
Transparência ou opacidade, eis a questão! - antónio mário santos
» 2025-12-05
Uma nova geração (parte de, sejamos exactos) a dirigir o município, conforme citou na última sessão extraordinária o actual presidente do executivo camarário, José Manuel Trincão Marques. |
Presidenciais, o grau de ressentimento - jorge carreira maia
» 2025-12-05
» Jorge Carreira Maia
As próximas eleições presidenciais vão medir o grau de ressentimento político dos portugueses. Em teoria, há quatro candidatos que podem aspirar a passar à segunda volta. Para usar uma classificação de um amigo, temos duas rainhas de Inglaterra (Marques Mendes e António José Seguro) e dois caudilhos (Gouveia e Melo e André Ventura). |
Gente nova, poder novo. Caminho certo? - antónio mário santos
» 2025-11-22
» António Mário Santos
Ainda não assentou a poeira do espanto e da tristeza das eleições municipais e já a boataria fervilha nas redes sociais. Da reunião mal-esclarecida entre o recém presidente José Manuel Trincão Marques e o líder da oposição Tiago Ferreira, encontra-se uma descrição em O Mirante, que informa que este último quis fumar o cachimbo de paz com o presidente socialista, desde que este lhe cedesse três lugares a tempo inteiro na vereação, e a vice-presidência do executivo. |
Sal e azar - carlos paiva
» 2025-11-22
» Carlos Paiva
A geração de transição, a última a sacrificar a sua vida à ditadura, a que entregou a melhor fase da capacidade produtiva à guerra, à realidade do analfabetismo, iliteracia, mortalidade infantil ao nível do Terceiro Mundo (faziam-se dez filhos para sobreviverem dois), agricultura de subsistência, escravidão fabril, feudalismo empresarial e que concebeu os seus filhos pouco antes da queda do fascismo, está a desaparecer. |
Manuel Ribeiro (1878-1941) - jorge carreira maia
» 2025-11-22
» Jorge Carreira Maia
Como em todas as literaturas, também na portuguesa existe um cânone. No romance, Camilo Castelo Branco, Eça de Queirós, Agustina Bessa-Luís ou José Saramago pertencem, de forma permanente, ao cânone. Outras entrarão e sairão dele em conformidade com os humores do dia. |
É só fazer as contas - antónio gomes
» 2025-11-09
» António Gomes
Os resultados eleitorais são de todos conhecidos, assim como os vencedores e os vencidos. A democracia que dizem alguns, está doente e corre o risco de entrar em coma ditou para o concelho de Torres Novas o fim da maioria absoluta do PS, embora conservando a presidência da câmara por uma unha negra, tal como há 32 anos atrás, pouco mais de 80 votos. |
As esquerdas, as eleições municipais, o que se seguirá… -antónio mário santos
» 2025-11-09
» António Mário Santos
«o sectarismo, a característica mais tóxica da esquerda portuguesa, tem destas coisas. Leva quem não se olha ao espelho a ignorar o mundo ou, pior, a fingir que as dificuldades estão na casa do lado» - Francisco Louçã, Público, 3 de Novembro A esquerda portuguesa está em crise. |
Da evolução das espécies - carlos paiva
» 2025-11-09
» Carlos Paiva
No início dos anos noventa do século passado a Internet deu os primeiros passos em Portugal. Primeiro pela comunidade científica e académica, depois, muito rapidamente, expandiu-se às empresas e cidadãos comuns. |
Os três salazares - jorge carreira maia
» 2025-11-09
PRIMEIRO SALAZAR. Foi um ditador cinzento e manhoso. Tinha a virtude de odiar políticos histriónicos e espalhafatosos. Esse ódio virtuoso, porém, era acompanhado por outros ódios nada virtuosos. Odiava, antes de tudo, a liberdade. |