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Como dantes não se falava, também não se dava por ela.

Opinião  »  2019-03-22  »  José Ricardo Costa


Qualquer pessoa normal é contra a violência doméstica. Acontece que não gosto da expressão “violência doméstica”, demasiado sociológica, urbana, abstracta, mera etiqueta que não faz jus ao tipo de aberração que pretende traduzir.

Um homem que bate na mulher não é um homem violento: é um ogre com um cérebro reptiliano, uma besta quadrada, troglodita, brutamontes, grunho, alarve, javardo, bronco, cão raivoso, labrego, jagunço, cavalgadura, matarruano, monte de esterco humano, o que tudo somado dá um irrecomendável psicopata do qual nada se aproveita.
O grande jornalista Karl Kraus, que viveu em Viena num dos períodos culturalmente mais férteis da Europa, dizia que a linguagem é a mãe do pensamento, não a sua criada. Por isso temos de passar a chamar os verdadeiros nomes às coisas, evitando chavões que repetidos à exaustão nos jornais televisões, redes sociais, vão perdendo o seu significado.

É verdade que foi um passo importante ter-se passado a falar de violência doméstica. Como dantes não se falava, também não se dava por ela. Claro que não era por não se falar que deixava de existir, tendo razão o historiador francês Lucien Febvre que considerava que as coisas existem antes das palavras para elas serem inventadas. Mas o que acontecia era os homens darem e as mulheres apanharem, que não é violência doméstica mas apenas um homem a dar e a mulher a apanhar. Hoje, uma mulher que apanha diz-se vítima de violência doméstica mas quando a avó ou mãe apanharam do avô ou do pai, não se diziam vítimas de violência doméstica, apenas apanhavam ou levavam de um homem com “mau feitio”, “maus fígados”, “mau vinho”, com o qual casaram. Passar a dizer “violência doméstica” foi assim um passo civilizacional importante para perceber que um homem “a dar na mulher” é muito mais do que um homem “a dar na mulher”.

Mas ainda está longe de traduzir a realidade. Eu gosto de expressões antigas como “enxerto de porrada” ou “carga de cachaporra”, para neste caso me referir um homem que, um dia, de sorriso nos lábios, jurou amor eterno a uma jovem com um raminho de flores na mão. São expressões vernáculas que, infelizmente, estão a cair em desuso, consideradas demasiado grosseiras para os depurados padrões linguísticos de agora. Mas aí é que está! Sendo, de facto, expressões grosseiras, traduzem muito melhor do que qualquer etiqueta sociológica, o mais primário e grosseiro dos comportamentos. A besta, o ogre, até pode ser bom benfiquista e sentar-se a meu lado no Estádio da Luz. Mas a partir do momento em que chega a casa para dar cachaporra ou porrada, sejam ou não fúteis os seus motivos, deixa de fazer parte da espécie à qual pertenço, devendo o seu destino não ser a prisão mas o jardim zoológico para fazer companhia a animais cuja agressividade, todavia, está em perfeita consonância com a sua natureza selvagem.
Bater, bate leve, levemente, a neve, como quem chama por nós. O que um homem faz à mulher não é bater mas dar porrada ou cachaporra, palavras que baixam ao nível de quem a dá, envergonhando a espécie humana. Por isso, deixemos de falar em violências domésticas, chamando de uma vez por todas os bois pelos nomes: matarruanos que se comprazem a dar cachaporra ou valentes cargas de porrada nas mulheres só porque não se limitam a ser umas bonequinhas insufláveis que não respondem à vontade, necessidades e desejos do ogre de olhos vidrados e baba de ódio a escorrer pela boca. Para além de primário e grosseiro, animal mais fraco, inseguro, sem personalidade e dignidade é difícil conceber.

 

 

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