• SOCIEDADE-  • CULTURA  • DESPORTO  • OPINIÃO
  Sexta, 27 Novembro 2020    |      Directora: Inês Vidal    |      Estatuto Editorial    |      História do JT
   Pesquisar...
Seg.
 18° / 9°
Períodos nublados
Dom.
 16° / 7°
Períodos nublados com chuva fraca
Sáb.
 16° / 7°
Céu nublado com chuva moderada
Torres Novas
Hoje  17° / 8°
Períodos nublados
       #Alcanena    #Entroncamento    #Golega    #Barquinha    #Constancia 

Como dantes não se falava, também não se dava por ela.

Opinião  »  2019-03-22  »  José Ricardo Costa


Qualquer pessoa normal é contra a violência doméstica. Acontece que não gosto da expressão “violência doméstica”, demasiado sociológica, urbana, abstracta, mera etiqueta que não faz jus ao tipo de aberração que pretende traduzir.

Um homem que bate na mulher não é um homem violento: é um ogre com um cérebro reptiliano, uma besta quadrada, troglodita, brutamontes, grunho, alarve, javardo, bronco, cão raivoso, labrego, jagunço, cavalgadura, matarruano, monte de esterco humano, o que tudo somado dá um irrecomendável psicopata do qual nada se aproveita.
O grande jornalista Karl Kraus, que viveu em Viena num dos períodos culturalmente mais férteis da Europa, dizia que a linguagem é a mãe do pensamento, não a sua criada. Por isso temos de passar a chamar os verdadeiros nomes às coisas, evitando chavões que repetidos à exaustão nos jornais televisões, redes sociais, vão perdendo o seu significado.

É verdade que foi um passo importante ter-se passado a falar de violência doméstica. Como dantes não se falava, também não se dava por ela. Claro que não era por não se falar que deixava de existir, tendo razão o historiador francês Lucien Febvre que considerava que as coisas existem antes das palavras para elas serem inventadas. Mas o que acontecia era os homens darem e as mulheres apanharem, que não é violência doméstica mas apenas um homem a dar e a mulher a apanhar. Hoje, uma mulher que apanha diz-se vítima de violência doméstica mas quando a avó ou mãe apanharam do avô ou do pai, não se diziam vítimas de violência doméstica, apenas apanhavam ou levavam de um homem com “mau feitio”, “maus fígados”, “mau vinho”, com o qual casaram. Passar a dizer “violência doméstica” foi assim um passo civilizacional importante para perceber que um homem “a dar na mulher” é muito mais do que um homem “a dar na mulher”.

Mas ainda está longe de traduzir a realidade. Eu gosto de expressões antigas como “enxerto de porrada” ou “carga de cachaporra”, para neste caso me referir um homem que, um dia, de sorriso nos lábios, jurou amor eterno a uma jovem com um raminho de flores na mão. São expressões vernáculas que, infelizmente, estão a cair em desuso, consideradas demasiado grosseiras para os depurados padrões linguísticos de agora. Mas aí é que está! Sendo, de facto, expressões grosseiras, traduzem muito melhor do que qualquer etiqueta sociológica, o mais primário e grosseiro dos comportamentos. A besta, o ogre, até pode ser bom benfiquista e sentar-se a meu lado no Estádio da Luz. Mas a partir do momento em que chega a casa para dar cachaporra ou porrada, sejam ou não fúteis os seus motivos, deixa de fazer parte da espécie à qual pertenço, devendo o seu destino não ser a prisão mas o jardim zoológico para fazer companhia a animais cuja agressividade, todavia, está em perfeita consonância com a sua natureza selvagem.
Bater, bate leve, levemente, a neve, como quem chama por nós. O que um homem faz à mulher não é bater mas dar porrada ou cachaporra, palavras que baixam ao nível de quem a dá, envergonhando a espécie humana. Por isso, deixemos de falar em violências domésticas, chamando de uma vez por todas os bois pelos nomes: matarruanos que se comprazem a dar cachaporra ou valentes cargas de porrada nas mulheres só porque não se limitam a ser umas bonequinhas insufláveis que não respondem à vontade, necessidades e desejos do ogre de olhos vidrados e baba de ódio a escorrer pela boca. Para além de primário e grosseiro, animal mais fraco, inseguro, sem personalidade e dignidade é difícil conceber.

 

 

 Outras notícias - Opinião


Onde pára o PS? - josé mota pereira »  2020-11-21  »  José Mota Pereira

Vivi algum tempo nos Açores, onde contactei com uma realidade social e política muito diversa daquela a que estava habituado por estas paragens. Nesse período, a transição do poder político passava de Carlos César para o seu sucessor, Vasco Cordeiro, de forma absolutamente tranquila, com o PS exercendo uma maioria eleitoral que a toda a gente parecia vir a ser eterna.
(ler mais...)


Gatos »  2020-11-21  »  Rui Anastácio

A “Rosa dos Gatos” foi uma das personagens que habitou a minha infância. Na verdade a minha infância foi habitada por uma miríade de personagens. Escolhi a Rosa não sei bem porquê.

A Rosa alimentava vinte gatos, tinha muito mau feitio para as crianças mas um imenso amor pelos gatos.
(ler mais...)


[Breve ensaio para uma carta ao futuro] - margarida trindade »  2020-11-21  »  Margarida Trindade

Aquele era o tempo do contágio. O tempo em que da ordem nasceu a desordem. O tempo da separação e da angústia. O tempo asséptico. O tempo final. O tempo do medo. O tempo da rebelião e de todos os perigos latentes.
(ler mais...)


Ser Torrejano - josé ricardo costa »  2020-11-21  »  José Ricardo Costa

Desço a rua dos Anjos quando o meu cérebro é de repente apoquentado por uma radical e inquietante questão. Não o pavor diante do silêncio e escuridão do espaço cósmico ou por não saber se quando esticar o pernil irei dar com a Audrey Hepburn a cantar o Moon River numa matiné de domingo no Virgínia ou com um cenário de Bosch.
(ler mais...)


Pandemia e a vantagem do meio termo - jorge carreira maia »  2020-11-21  »  Jorge Carreira Maia

Depois de uma pequena acalmia, a pandemia de COVID-19 escalou. Contágios, internamentos, utilização de cuidados intensivos e mortes, tudo isso apresenta números que são já assustadores. É fácil criticar os governos, difícil, porém, é ter, com os recursos existentes e com os conhecimentos disponíveis, respostas que agradem a todos ao mesmo tempo.
(ler mais...)


Generalizar, apontar, julgar - inês vidal »  2020-11-21  »  Inês Vidal

Digo isto com frequência. Quem melhor me conhece, já o ouviu dezenas de vezes. Ainda hoje, ao jantar, dizia à minha filha que não podemos viver no preconceito. A vida não é a preto e branco, tem antes milhares de nuances.
(ler mais...)


Mais rápido que a própria sombra - carlos paiva »  2020-11-21  »  Carlos Paiva

As árvores, além de produzirem oxigénio e servirem de lar para uma série de bicharada, têm num dos efeitos colaterais à sua existência, o arrefecimento do ar. Onde há árvores, fica mais fresquinho.
(ler mais...)


Água - antónio gomes »  2020-11-21  »  António Gomes

A água é um recurso escasso, não é infinito e não podemos viver sem ela. O acesso à água é um direito humano.
Muito se tem escrito e muito se vai continuar a escrever sobre a exploração e utilização da água, mas medidas concretas para rentabilizar a sua utilização são ainda são escassas e decisões políticas são a excepção.
(ler mais...)


Voltemos ao comércio local - antónio gomes »  2020-11-06  »  António Gomes

A situação de pandemia agrava-se aos olhos de toda a gente e as consequências desta situação são evidentes: no emprego/desemprego, na actividade económica, na transacção de mercadorias, em particular no comércio local.
(ler mais...)


FUI LÁ ATRÁS, VOLTO JÁ - josé mota pereira »  2020-11-06  »  José Mota Pereira

Passados três meses da sua aquisição, o smartphone decidiu entregar a alma ao criador, pelo que o cronista teve que o substituir temporariamente, aguardando a devida recuperação do paciente tecnológico. Sendo a doença temporária e recuperável no prazo razoável de três semanas, decidiu o cronista investir a modesta quantia de cerca de vinte moedas de euros na aquisição de um aparelho telefónico portátil, a que dantes chamávamos telemóvel, para permitir o seu contacto com os outros humanos do Mundo.
(ler mais...)

 Mais lidas - Opinião (últimos 30 dias)
»  2020-11-21  »  José Mota Pereira Onde pára o PS? - josé mota pereira
»  2020-11-21  »  José Ricardo Costa Ser Torrejano - josé ricardo costa
»  2020-11-06  »  Jorge Carreira Maia Hiperpolitização - jorge carreira maia
»  2020-11-21  »  Carlos Paiva Mais rápido que a própria sombra - carlos paiva
»  2020-11-06  »  José Mota Pereira FUI LÁ ATRÁS, VOLTO JÁ - josé mota pereira