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Palermas de serviço

Opinião  »  2017-11-29  »  Maria Augusta Torcato

Pode inferir-se uma modalidade depreciativa a partir do título, mas esta classe, que se pode subdividir em subclasses, tem um papel fundamental na orgânica da vida e das estruturas organizacionais do sistema (ou sistemas) em que nos integramos e de que dependemos.

É uma classe tão importante e resistente que, ao longo dos tempos, não só não sofreu qualquer extinção, como se tem desenvolvido, multiplicado e apurado, à semelhança do que deve ter acontecido com os peixes aquando do dilúvio.
Se bem que a definição de palerma remeta para a qualificação de alguém tolo ou parvo (pertencendo a qualquer um dos géneros), parece que, às vezes, corresponde, também, à sua natureza, espelhando a sua própria identidade.
É verdade que, hoje, não obstante muitas coisas não estarem bem, as pessoas estão despertas para a realidade, têm acesso à informação, mesmo que tenham de ser analíticas, críticas e seletivas, manifestam atitudes mais assertivas, respeitadoras e tolerantes, pronunciam-se e manifestam, com mais facilidade, a sua alegria e felicidade ou a sua repugnância e tristeza, relativamente a situações pessoais ou coletivas, próximas ou distantes. Envolvem-se em ondas gigantes de solidariedade em favor de outras, que conhecem ou não, e em manifestações de rejeição ou condenação do que consideram errado ou inaceitável. E isto é motivo de orgulho para a humanidade.

É verdade, também, que continuam a existir, no sistema, composto por múltiplos sistemas, incapacidades, injustiças e incompetências (três is), que têm de se esconder, disfarçar, fingir o seu oposto, para garantir a sua sobrevivência. E é aqui que o papel dos palermas de serviço é fundamental e mesmo indispensável. Eles são o garante de um determinado status.

Eles ouvem num lado e reverberam no outro lado. Eles aceitam sugestões para ações que fingem ser suas, mas que vão além da sua vontade. Eles lançam as sementes selecionadas nos campos previamente sinalizados, sem noção do que germinará. Eles conduzem a distrações, perdendo-se o foco. Eles movem-se entre os seus pares, aperreados de alma, porque nunca têm a certeza da sua inteireza. Eles circulam entre os que servem e os que os usam, graciosamente humildes, porque sabem que o seu papel é de subserviência e replicação. Eles percebem-se tão divididos e tão indefinidos que, em aprazado momento, encarnam o que fazem, sem pensar, sem questionar, em vácuo. Eles obedecem de forma cega, instruídos e industriados por algo ou alguém que visa os seus ou outros interesses. E são eles que sustentam os sistemas com os três is. E isto é motivo de tristeza para a humanidade. Porque, enquanto existirem condicionamentos ou intimidações para o pensar e para o questionar, correm-se riscos terríveis ao nível do agir.

Agora, imaginemos um sistema, composto por múltiplos sistemas, que não necessitasse para a sua sobrevivência dos palermas de serviço e que valorizasse os seus opostos, mesmo que entre eles houvesse alguns palermas (mas não de serviço). Imaginemos o quanto beneficiaria a humanidade!

Não será motivo de questionação e reflexão o facto de esta classe, apesar da sua entrega e estoicismo, contribuir para emperrar a capacidade, a justiça e a competência?
Não será motivo de questionação e reflexão o facto de haver tanta necessidade desta classe? Ou, simplesmente, o facto de ela existir?

 

 

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