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- Filha, só velhos, velhos, velhos...

Opinião  »  2018-03-08  »  Maria Augusta Torcato

"O que se está a fazer não chega. Não chega!"

A minha mãe está doente. E este facto é, e não é, o assunto desta crónica. Haverá, inevitável e infelizmente, muitas mães e muitos pais doentes, cujos filhos ou filhas se preocuparão como eu me preocupo e a sentirem-se impotentes e tristes face à doença, à velhice e ao que ambas carregam.

Mas o que me leva a escrever sobre este assunto tão pessoal e tão privado é a constatação - não de nada que não soubesse- de que o meu país, o nosso país, não está preparado, melhor, não tem as respostas que deveria ter para as pessoas que tanto contribuiram para que ele fosse melhor do que é. Há, na forma como responde às necessidades destas pessoas, mais velhas e doentes, uma forma de traição, uma indiferença e um desprezo inaceitáveis e, pelos vistos, incontornáveis. E esta constatação gera, em mim, e, com certeza em muita gente, sentimentos de revolta, azedume e mágoa. Também é claro que todos sabemos desta realidade, mas parece que só a reconhecemos quando a vivenciamos.

As cerca de dez horas iniciais no serviço de urgência do hospital, a que se seguiram mais cerca de doze até que se procedesse ao internamento, constituíram-se como momentos atrozes, sem fim, e criadores de sensações de vazio e fragilidade, já que não se pode fazer nada. Literalmente nada, a não ser esperar. Esperar e esperar.... Mas o tempo, que passa sempre sem se dar conta, ali resolveu instalar-se, escravizar-nos e torturar-nos. E as salas e os corredores exercem sobre todos os que ali estão uma pressão angustiante, porque estão atafulhados de doentes. Uns transportados em cadeiras de rodas, outros em macas e muitos, muitos, ocupando as cadeiras existentes, duras, frias e desconfortáveis, e ainda aqueles que não tendo lugar onde se acolher se tinham de encostar às paredes, aos balcões e tinham de se desviar a todo o momento, porque empatavam quem se movimentava e precisava circular. Apenas uma aragem sincopada, uma corrente de ar que nos batia de cada vez que as portas de vidro automáticas abriam, e estavam sempre a fechar, a abrir, a abrir, sem chegarem a fechar nos mantinha entre o frio do interior e o frio do exterior.

Creio que entendi a minha mãe quando, passadas tantas horas e ter tido a sorte de ter uma maca onde se estendesse, mesmo que fosse um cobertor dentro de uma fronha a servir de almofada, desabafou: “filha, só velhos, velhos, velhos”. Sim, tinha toda a razão. Por um momento , dentro de mim, ri-me, talvez ela tivesse sentido de humor e o seu autoconceito a colocasse noutro grupo. O momento passou, talvez ela tivesse manifestado uma consciência aguda da sua realidade e a de tantas outras pessoas. As imagens que lhe chegavam não eram, de facto, agradáveis. Havia, além das maleitas físicas, as maleitas da alma e algumas ausências da pessoa do seu próprio corpo. Por isso, este, às vezes descoberto e descomposto (como achariam os seus donos quando ainda o habitavam), a mostrar as marcas, não só da idade, mas do esforço, das dificuldades e dos abandonos, pertubaria qualquer um.

Ela pensava. Não sei bem o quê. Eu sei o que pensei. Que este país não nos está a dar o que deveria dar. E não há neste pensamento qualquer desejo de benevolências. Há desejo de justiça. Justiça e dignidade. Porque não é nem justo nem digno o modo como o nosso país está a tratar as pessoas, designadamente as mais velhas, as doentes e as frágeis.

Aquelas salas e corredores atafulhados de doentes não tinham quaisquer condições nem para quem cuidava nem para quem era cuidado. Não havia justiça nem dignidade para quem prestava os serviços com o maior desvelo possível nem havia justiça nem dignidade para quem, deseperadamente, precisava dos serviços. Eu sei o que pensei.

Pensei que o país não podia continuar a apostar e a depender de um sistema financeiro que determina tudo e impele a humanidade para a sobrevivência, como se viver fosse um grande favor que se tem de pagar bem caro, pelo menos para alguns.

Pensei que não é justo nem digno terem-se perdido tantos milhões em prol da salvação de bancos de ricos que fizeram o que quiseram e os velhos, os doentes e os frágeis terem de suportar e aguentar a sua miséria humana em condições tão dificeis, depois de terem trabalhado uma vida inteira.

Pensei que, ali, naquela sala, que primava pela igualdade de género, os que personificam a arrogância, a prepotência, o poder e o seu abuso, a discriminação e a vaidade se podiam rever na fralda suja e de odor forte da senhora que, de meio corpo ao léu, gritava, aparentemente perturbada do seu siso, que a tirassem dali. É que ali, naquela sala, ou noutras à sua imagem e semelhança, acabam por se encontrar os que praticam a injustiça e a indignidade e os que as sofrem. A fralda e o seu conteúdo devem ser iguais para todos. As condições é que podem ser diferentes. Mas morremos todos! Pelo menos há justiça na morte. Só não há nas suas condições. Todos morrem. É a mísera condição humana.
E os que se julgam imortais, distantes da essência daquela sala, insensíveis aos problemas e ao sofrimento, privilegiando um empreendedorismo bacoco e efémero e um burguesismo de meia tijela também ficam de fralda, também abandonam o seu corpo e também morrem. Creio que se deveria fazer mais. As pessoas do nosso país merecem. E parece-me que ainda não é este o caminho. O que se está a fazer não chega. Não chega!

 

 

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