• SOCIEDADE-  • CULTURA  • DESPORTO  • OPINIÃO
  Terça, 26 Janeiro 2021    |      Directora: Inês Vidal    |      Estatuto Editorial    |      História do JT
   Pesquisar...
Sex.
 16° / 10°
Céu nublado com chuva fraca
Qui.
 17° / 10°
Céu nublado
Qua.
 19° / 12°
Céu nublado
Torres Novas
Hoje  20° / 13°
Céu nublado com chuva fraca
       #Alcanena    #Entroncamento    #Golega    #Barquinha    #Constancia 

A Pilhagem - josé ricardo costa

Opinião  »  2021-01-10  »  José Ricardo Costa

"Mas que Torres Novas é esta sem torrejanos? A existência de Torres Novas é condição necessária para haver torrejanos"

Podemos dizer que um jogo de futebol sem público ou vida sem música é como um jardim sem flores. Não que um jardim sem flores deixe de ser um jardim. Acontece que, como no jogo de futebol, fica melhor se as tiver. Já se for uma sopa de feijão com couves que não tenha couves, a comparação com o jardim sem flores não funciona, pela singela razão de que uma sopa de feijão com couves que não tenha couves, sendo ainda sopa, sopa de feijão com couves não é de certeza.

Esta profunda reflexão surgiu-me há dias, a meio da tarde, quando precisei de desopilar um pouco, após várias aulas, atravessando num dia de semana o centro de Torres Novas sem ver quase ninguém. Daí resultou um estado mental de inquietante estranheza que me fez sentir a meio caminho entre um quadro de De Chirico e o sonho do dr. Isak Borg no filme Morangos Silvestres quando se descobre numa cidade completamente vazia, com relógios sem ponteiros e em que a única presença humana é ver-se a si próprio a passar numa rua morto num caixão.

Como é possível chegar a este ponto de ser tão difícil encontrar um torrejano na avenida como ouvir uma canção brasileira que não tenha as palavras “amor” ou “coração”? Não estou a exagerar, consegui fazer toda a avenida, cruzando-me com duas pessoas apenas. Só que uma delas tivesse dupla personalidade já seria mais simpático: passariam a ser três, um ramalhete humano mais compostinho.

Mas que Torres Novas é esta sem torrejanos? A existência de Torres Novas é condição necessária para haver torrejanos. Se não houvesse uma terra chamada Torres Novas não haveria torrejanos, do mesmo modo que não existem concrujanos pela simples razão de não existir uma terra chamada Concruje. Mas a existência de torrejanos também é condição necessária para Torres Novas existir. Aceito que seja menos intuitivo e até podemos perguntar se Torres Novas não continuaria a ser Torres Novas se rebentasse agora aqui uma bomba de neutrões que se limitasse a matar todos os torrejanos, deixando tudo o resto intacto. Parece que continuaria, pois se Torres Novas não é a avenida, a praça, as ruas, os edifícios, a estação de correios, o Virgínia, as lojas, os parques infantis, então é o quê? Aguiar da Beira?

Mas a verdade é que não, não continuaria a ser Torres Novas. Está bem, sim, Aguiar da Beira jamais seria mas metamos na cabeça que Torres Novas também não. Um conhecido filósofo chamado Martin Heidegger dizia que não há artista sem obra de arte nem obra de arte sem artista. Pronto, a relação entre Torres Novas e torrejanos é uma coisa do género. Como Cristo, recorro a uma linguagem figurada para explicar.

É através dos ossos, músculos, tendões, cordas vocais, que explicamos os diferentes movimentos de um corpo: andar, correr, saltar, estar sentado ou falar. Mas uma pessoa não está sentada, a andar ou a falar porque tem ossos, tendões, músculos ou cordas vocais. É porque tem crenças, desejos, motivos, finalidades, intenções que as levam a estar sentadas para tomar um café e ler o jornal, a andar na rua para ir comprar um molho de couves ou a usar as cordas vocais para perguntar (medo!) o resultado do Benfica.

Pela mesma razão, Torres Novas não é Torres Novas só porque tem as suas lojas, edifícios, ruas, mercado, praça ou avenida. Tudo isso existe para os torrejanos e não para os aguiarenses. Uma avenida, ruas, praças, lojas, mercado podem ser realidades físicas com identidades óbvias e distintas das de uma montanha, um oceano ou uma floresta mas uma avenida, ruas, praças, mercado, lojas sem torrejanos, uma cidade não é de certeza pois só há cidade onde há pessoas, ainda que possa haver pessoas sem cidade, só que, neste caso, torrejanos não serão.

Daí que a ideia de Torres Novas sem torrejanos esteja mais no mesmo nível, paradoxal, de uma sopa de feijão com couves que não tem couves, do que de um jardim sem flores. Porque para além dos elementos físicos específicos que nos fazem perceber que estamos na praça 5 de Outubro e não do Giraldo, que percorremos a rua Alexandre Herculano em vez da Augusta ou que passamos a ponte da Levada e não a de Ponte de Lima, o que faz de Torres Novas ser o que é, não é uma essência ideal, eterna e imutável, mas o que os torrejanos fazem dela com as suas dinâmicas sociais, económicas e culturais. Por que razão dizemos que a Torres Novas de hoje é diferente de há 60 anos? Porque os torrejanos são outros, fazendo outras coisas da sua terra e esperando coisas diferentes dela. O que já mudará tudo é os torrejanos não fazerem nada da sua terra ou dela nada esperarem.

Uma Torres Novas vazia passa a ser uma não-Torres Novas, feita de torrejanos que não estão lá, tornando-se estes, assim, por culpa própria, tanto não-torrejanos como um aguiarense, um fafense ou estremocense que também são não-torrejanos mas sem terem disso qualquer culpa ou sequer consciência. Estamos assim perante um agónico e autofágico processo de destorresnovização de Torres Novas que, por sua vez, destorrejaniza os torrejanos.

Torres Novas sem torrejanos fica assim um bocadinho como um robot sem pilhas, reduzida a um conjunto de elementos físicos que apenas lhe dá uma mera aparência de cidade. O que verdadeiramente senti naquela fatídica tarde de semana a andar por Torres Novas? Uma pilha desvitalizada e enferrujada dentro de um robot decrépito e meio enferrujado que já não consegue andar.

 

 

 

 

 

 

 

 

 Outras notícias - Opinião


MEMÓRIAS DE UM TEMPO OPERÁRIO - josé alves pereira »  2021-01-23  »  José Alves Pereira

Em meados da década de 60 do século passado, ainda o centro da então vila de Torres Novas pulsava ao ritmo das fábricas. Percorrendo-a, víamos também trabalhadores de pequenas oficinas e vários mesteres.
(ler mais...)


Eleições à porta e a abstenção à espreita - antónio gomes »  2021-01-23  »  António Gomes

Votar é decidir, não votar é deixar a decisão que nos cabe nas mãos de outros. Uma verdade, tantas vezes repetida. No entanto, a abstenção tem mantido uma tendência ascendente nos vários actos eleitorais.
(ler mais...)


Funambulista - rui anastácio »  2021-01-23  »  Rui Anastácio

O funambulismo é uma arte circense que consiste em equilibrar-se, caminhando, saltando ou fazendo acrobacias sobre uma corda bamba ou um cabo metálico, esticados entre dois pontos de apoio. Ao funambulista cabe a difícil tarefa de chegar ao segundo ponto de apoio sem partir o pescoço.
(ler mais...)


Os velhos e os fracos - jorge carreira maia »  2021-01-23  »  Jorge Carreira Maia

 

É plausível afirmar que o corpo político, ao contrário do que aconteceu na primeira vaga da pandemia, não tem estado feliz na actual situação. Refiro-me ao Presidente da República, ao Primeiro-Ministro e aos dirigentes das várias oposições.
(ler mais...)


Veni vidi vici - carlos paiva »  2021-01-23  »  Carlos Paiva

 

- Ó querida, sou tão bom. Mas tão bom que até vais trepar pelas paredes.

- Ai sim? E como é que vais conseguir tal proeza?

- Ora… Isso agora é cá comigo. Eu é que sei.
(ler mais...)


Eu voto, mas não gosto do rumo que isto leva - inês vidal »  2021-01-23  »  Inês Vidal

Sinto que estou sempre a dizer o mesmo, que os meus textos são repetições cíclicas dos mesmos assuntos e que estes são, só por si, repetições cíclicas e enfadonhas deles próprios.
(ler mais...)


O TGV, o Ribatejo e o futuro das regiões - joão carlos lopes »  2021-01-12  »  João Carlos Lopes

Foi paradigmático o facto de, aquando da confirmação (pela enésima vez) da intenção do Governo em avançar com o TGV Lisboa/Porto, as únicas críticas, reparos ou protestos de autarcas da região terem tido por base a habitual choraminga do “também queremos o comboio ao pé da porta”.
(ler mais...)


Peixoto - rui anastácio »  2021-01-10  »  Rui Anastácio

Há uns meses, em circunstâncias que não vêm ao caso, tive o prazer de privar com José Luís Peixoto e a sua mulher, Patrícia Pinto. Foram dias muito agradáveis em que fiquei a conhecer um pouco da pessoa que está por trás do escritor.
(ler mais...)


DAR VOZ AO TRABALHO - josé mota pereira »  2021-01-10  »  José Mota Pereira

Entrados na terceira década do século XXI, o Mundo dos humanos permanece o lugar povoado das injustiças, da desigualdade e do domínio de uns sobre os outros. Não é a mudança dos calendários que nos muda a vida.
(ler mais...)

 Mais lidas - Opinião (últimos 30 dias)
»  2021-01-12  »  João Carlos Lopes O TGV, o Ribatejo e o futuro das regiões - joão carlos lopes
»  2021-01-23  »  Inês Vidal Eu voto, mas não gosto do rumo que isto leva - inês vidal
»  2021-01-10  »  Inês Vidal 2021: uma vida que afaste a morte - inês vidal
»  2021-01-10  »  José Ricardo Costa A Pilhagem - josé ricardo costa
»  2021-01-10  »  Jorge Carreira Maia Uma visita à direita nacional - jorge carreira maia