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Um país a duas mãos

Opinião  »  2015-11-03  »  Adelino Pires

"ada dedo, um milhão de palpites. Dez dedos, dez milhões. No mindinho da mão esquerda, palpita convictamente o milhão do contrapoder. No anelar e no médio da mesma mão, palpita titubeante, a esquerda do poder que hoje está fora, mas que quer voltar a estar por dentro. Na outra mão, na direita, cerram-se o mindinho e o anelar, de quem ainda está por dentro e não quer já ficar de fora."

Imagine-se Maria João Pires sentada no seu Steinway & Sons. Mãos no teclado, olhos na alma, coração em Salzburgo.
Para tocar Mozart, com quem convive desde a infância, talento, trabalho, tempo, muito tempo. E dois bons ouvidos, duas mãos desenvoltas, com todos os dedos. Os dez. Cinco na esquerda, cinco na direita.
Imagine-se agora, um país a duas mãos. De mãos abertas, unidas pelos dois polegares.
Simplifiquemos.

Cada dedo, um milhão de palpites. Dez dedos, dez milhões. No mindinho da mão esquerda, palpita convictamente o milhão do contrapoder. No anelar e no médio da mesma mão, palpita titubeante, a esquerda do poder que hoje está fora, mas que quer voltar a estar por dentro. Na outra mão, na direita, cerram-se o mindinho e o anelar, de quem ainda está por dentro e não quer já ficar de fora.

Nos cinco dedos que sobram, sobram os palpites de quem não palpita pelo voto, mas que também sofre de palpitações. Só que, no concerto do país a duas mãos, a sala esgota-se apenas com os mindinhos, os anelares e pouco mais.
Poderá um país a duas mãos, usar apenas metade dos seus dedos, ainda para mais os mais afastados? Se as mãos são duas e os dedos são dez, como pegaria o pintor no pincel e o escritor na caneta sem indicadores nem polegares?
Com que dedos se limpam as lágrimas?
Não sei se as mãos de Maria João Pires serão iguais a tantas mãos de tanta gente. Mas sei que só com as duas mãos e todos os seus dedos, o seu génio terá sido possível.


(Adelino Correia-Pires, Outubro 2015)

 

 

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